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O candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, declarou apoio à candidatura de Eduardo Cunha, do Republicanos, a deputado federal por Minas Gerais. A aproximação foi formalizada em vídeo publicado nas redes sociais em 26 de agosto de 2026, no qual Flávio exaltou a atuação do ex-presidente da Câmara no processo que resultou no impeachment de Dilma Rousseff.
A aliança, entretanto, recoloca no centro da campanha o passado judicial e político de Cunha. O ex-deputado teve o mandato cassado, foi preso no âmbito da Operação Lava Jato e recebeu condenação por corrupção, lavagem de dinheiro e evasão fiscal. Embora decisões posteriores tenham anulado sentenças por questões de competência, a trajetória de Cunha continua sendo associada a um dos maiores escândalos políticos do país.
A reação à aproximação não foi uniforme entre os apoiadores do campo bolsonarista. Parte da base demonstrou desconforto com a escolha, principalmente por causa da cassação e da prisão de Cunha. Não há, contudo, pesquisa ou levantamento que permita afirmar que a maioria dos eleitores de Flávio rejeitou a aliança.
Flávio resgata papel de Cunha no impeachment
No vídeo, Flávio apresentou Cunha como uma figura importante da história recente do Brasil e afirmou que ele teria “aberto os olhos da população brasileira” e “derrubado a Dilma”. O candidato também classificou a ex-presidente como a pior governante da história do país.
“Estou aqui com uma pessoa que tem um papel importante na história do nosso Brasil. Foi aquele que abriu os olhos da população brasileira e derrubou a Dilma”, afirmou Flávio.
Cunha retribuiu o gesto e declarou apoio à candidatura presidencial de Flávio, embora o Republicanos tenha adotado posição de neutralidade na disputa nacional. O ex-presidente da Câmara afirmou que apoia o senador “em Minas Gerais e no Brasil”.

A declaração ocorre em um momento em que Cunha tenta reconstruir sua influência política em Minas Gerais, estado para o qual transferiu seu domicílio eleitoral. Ele também passou a utilizar uma rede de rádios e vínculos com lideranças locais para se aproximar de prefeitos, vereadores e grupos religiosos.
Cassação encerrou trajetória na Câmara
Eduardo Cunha foi eleito deputado federal pela primeira vez em 1998 e permaneceu no Congresso até 2016. Naquele período, presidiu a Câmara e aceitou, em dezembro de 2015, um pedido de impeachment contra Dilma Rousseff.
O processo avançou em abril de 2016. Em 31 de agosto daquele ano, o Senado confirmou o afastamento definitivo da presidente. Poucos dias depois, em 12 de setembro, a Câmara cassou o mandato de Cunha por 450 votos a 10.
A cassação ocorreu porque o Conselho de Ética e o plenário entenderam que Cunha havia mentido ao negar a existência de contas bancárias no exterior durante depoimento à CPI da Petrobras. À época, ele alegou ser vítima de perseguição política.
A perda do mandato marcou o fim de sua passagem formal pelo Congresso, mas sua influência sobre setores da direita permaneceu ligada ao papel desempenhado no impeachment. É justamente esse episódio que Flávio escolheu destacar no vídeo de apoio.
Prisão e condenação na Lava Jato
Cunha foi preso preventivamente em outubro de 2016, durante as investigações da Operação Lava Jato. O Ministério Público o acusou de receber propina relacionada a contratos da Petrobras e de manter valores não declarados no exterior.
Em março de 2017, o então juiz Sergio Moro condenou o ex-deputado a 15 anos e quatro meses de prisão por corrupção, lavagem de dinheiro e evasão fiscal. O Tribunal Regional Federal da 4ª Região reduziu posteriormente a pena para 14 anos e seis meses.
A condenação estava relacionada à suspeita de recebimento de aproximadamente US$ 1,5 milhão em propina por sua atuação em um contrato de exploração de petróleo da Petrobras no Benin, na África. Cunha permaneceu em regime fechado até 2021.
Posteriormente, o Supremo Tribunal Federal anulou condenações da Lava Jato em decisões de 2021 e 2023. A anulação ocorreu por questões relacionadas à competência da vara que julgou os processos, e não equivale a uma declaração de inocência sobre todos os fatos investigados.
Aliança provoca desconforto entre apoiadores
A escolha de Cunha cria uma contradição política para a campanha de Flávio. De um lado, o candidato tenta mobilizar a memória do impeachment e apresentar o ex-deputado como símbolo da oposição ao PT. De outro, associa sua candidatura a um político que foi cassado pelo Congresso, preso e condenado em processos ligados à corrupção.
Essa contradição gerou resistência entre parte dos apoiadores que defendem uma imagem de combate à corrupção e rejeitam antigos nomes da política tradicional. Para esse grupo, a reabilitação de Cunha enfraquece o discurso de renovação e expõe a campanha a críticas sobre conveniência eleitoral.
A aproximação também pode ser interpretada como uma tentativa de ampliar a base de Flávio em Minas Gerais. Cunha mantém relações com setores evangélicos e políticos locais e busca recuperar espaço dez anos depois de perder o mandato. O apoio, portanto, tem valor simbólico pelo impeachment e possível utilidade eleitoral no estado.
O problema é que a associação não produz apenas ganhos. Ao trazer Cunha para o centro da campanha, Flávio também reabre o capítulo da Lava Jato e obriga seus apoiadores a conciliar a defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro e o discurso anticorrupção com o apoio público a um ex-deputado marcado por cassação e prisão.
Candidatura enfrenta questionamento eleitoral
Além do desgaste político, a candidatura de Cunha enfrenta questionamento jurídico. O Ministério Público Eleitoral apresentou ação de impugnação e argumentou que o ex-deputado poderia estar inelegível em razão de condenação por improbidade administrativa.
O pedido ainda dependia de análise da Justiça Eleitoral na data das reportagens consultadas. Até uma decisão definitiva, Cunha pode fazer campanha, mas sua candidatura permanece sujeita à avaliação da Justiça.
A aliança entre Flávio e Cunha, assim, combina memória do impeachment, cálculo eleitoral e alto custo reputacional. O apoio reafirma a disposição do candidato de reunir diferentes setores da direita, mas também demonstra que a tentativa de recuperar símbolos do passado pode provocar rejeição justamente entre eleitores que defendem distância da velha política.
Fontes
1. O Globo — Flávio Bolsonaro e Eduardo Cunha trocam apoios em vídeo dirigido a eleitores de Minas
2. Folha de S.Paulo — Flávio Bolsonaro grava vídeo para apoiar Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara cassado em 2016
3. BBC — Brazil ex-speaker Eduardo Cunha jailed for 15 years
Nota editorial: a reportagem distingue críticas observadas em parte da base política de uma rejeição generalizada, que não foi demonstrada por pesquisa ou levantamento público.

