Probabilidade de aquecimento do Pacífico ultrapassa 80% para o segundo semestre de 2026, com potencial de seca na Amazônia e chuvas acima da média no Sul.
BRASÍLIA — O fenômeno El Niño deve se formar oficialmente em junho de 2026, com risco crescente de atingir intensidade forte a muito forte entre o segundo semestre deste ano e o início de 2027. A avaliação consta de nota técnica conjunta do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) e Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (CENSIPAM), divulgada em abril.
De acordo com o documento, a probabilidade de configuração do El Niño no segundo semestre de 2026 é superior a 80%, com persistência do fenômeno pelo menos até o início de 2027. A agência climática dos Estados Unidos (NOAA) estima 96% de chance de o fenômeno continuar ativo no fim de 2026 e início de 2027.
Temperatura do Pacífico já mostra aquecimento

Dados observacionais indicam que, em abril de 2026, as anomalias negativas de temperatura da superfície do mar no Pacífico equatorial reduziram-se de forma marcante, evoluindo para áreas com valores próximos à média climatológica e ocorrência de anomalias positivas superiores a 0,5°C. Em regiões próximas à costa oeste da América do Sul, os desvios ultrapassaram 3°C.
O conteúdo de calor nas águas subsuperficiais do Pacífico equatorial também apresenta anomalias positivas consistentes, com valores superiores a 2°C em ampla faixa do Pacífico central até a costa sul-americana, atingindo localmente mais de 4°C. Este padrão é considerado um sinal precursor importante para o desenvolvimento do El Niño.
“Atualmente não há dúvida de que o El Niño vai se formar novamente e seu início oficial provavelmente será durante o mês de junho de 2026”, afirmou a Climatempo em análise divulgada na quinta-feira (21).
Intensidade ainda é incerta, mas cenário preocupa
Embora a intensidade do evento ainda não esteja claramente definida, as características observadas — especialmente o elevado conteúdo de calor nas águas subsuperficiais — sugerem condições favoráveis ao desenvolvimento de um episódio de El Niño que pode atingir, no mínimo, intensidade moderada.
A NOAA projeta que a probabilidade de um El Niño muito forte (anomalia de temperatura igual ou superior a 2°C na região central do Pacífico) aumenta até a primavera de 2026. A Climatempo afirma que o fenômeno “será no mínimo de forte intensidade”, mas ainda há dúvidas se atingirá o patamar de “super El Niño”, como os observados nos biênios 2015/2016 e 2023/2024.
“O termo que qualifica o El Niño como forte, muito forte ou super forte é feito com base nas temperaturas das águas na parte central do Oceano Pacífico ao longo do Equador”, explicou ao G1 Maria Assunção Dias, professora emérita do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP (IAG-USP).
O período entre março e maio é conhecido pelos meteorologistas como “barreira de previsibilidade”, o que torna as projeções menos confiáveis. As previsões devem ganhar mais precisão entre junho e agosto.
Impactos no Brasil incluem seca na Amazônia e chuva no Sul

A nota técnica do INPE, INMET, Funceme e CENSIPAM detalha os impactos esperados para cada região do país caso o El Niño se confirme:
Região Norte (Amazônia Legal): Há risco de estação seca mais prolongada, com aumento da vulnerabilidade a incêndios florestais e redução do nível dos rios, afetando a navegabilidade, a geração de energia hidrelétrica e o abastecimento de populações ribeirinhas. Estudos indicam que, em 2015, a incidência de fogo aumentou em cerca de 36% em relação à média dos 12 anos anteriores.
Região Nordeste: O fenômeno pode inibir a formação de sistemas convectivos, resultando em chuvas abaixo da média climatológica, aumento das temperaturas e elevação do risco de incêndios em ecossistemas vulneráveis.
Região Centro-Oeste: Há tendência de temperaturas mais elevadas durante toda a primavera e verão, especialmente em Mato Grosso, Goiás e no Distrito Federal, com elevação do risco de queimadas.
Região Sudeste: Os impactos são mais variáveis, mas incluem aumento das temperaturas médias, principalmente na primavera e no verão, com episódios de calor mais frequentes e prolongados.
Região Sul: É esperado o impacto mais consistente: chuvas acima da média, com possibilidade de eventos extremos associados a inundações. O fenômeno também tende a reduzir a frequência de geadas severas e ondas de frio prolongadas.
Impactos na saúde e na economia
O El Niño também pode afetar diretamente a saúde da população, segundo análise da CNN Brasil publicada na sexta-feira (22). Ondas intensas de calor aumentam os riscos cardiovasculares, especialmente para pessoas com hipertensão ou histórico de infarto.
“O sangue fica mais viscoso, aumentando a probabilidade de formação de coágulos e de quadros como acidentes vasculares cerebrais (AVC) ou infartos”, afirmou à CNN Luiz Aparecido Bortolotto, médico cardiologista e diretor da Unidade de Hipertensão do InCor-HCFMUSP.
As altas temperaturas e o clima úmido também favorecem a proliferação de arboviroses transmitidas pelo Aedes aegypti, como dengue e chikungunya. Doenças respiratórias como bronquiolite, asma e influenza podem ser potencializadas pela qualidade do ar alterada.
Na economia, a redução das chuvas no Centro-Oeste pode afetar o calendário de plantio da soja e encurtar a janela da segunda safra de milho. A dependência do Brasil de hidrelétricas pode elevar o custo da geração de energia e pressionar a conta de luz.

Aquecimento global potencializa efeitos
Os pesquisadores ressaltam que o aquecimento global não causa o El Niño — fenômeno natural que existe há milhares de anos — mas pode aumentar a frequência ou a intensidade dos eventos extremos.
“O aquecimento global tem-se manifestado como um aquecimento da atmosfera e dos oceanos. Assim, o efeito nos El Niños é justamente a ocorrência de casos mais fortes, mais extremos”, disse Dias ao G1.
Além disso, mesmo quando o El Niño tem força parecida com a de décadas atrás, os impactos tendem a ser maiores hoje porque oceanos e atmosfera já estão mais aquecidos pelas mudanças climáticas. Ondas de calor podem ficar mais intensas, secas podem durar mais e chuvas extremas podem provocar impactos mais severos.
Monitoramento
Os órgãos oficiais recomendam o acompanhamento contínuo das previsões em escalas subsazonal e de tempo, disponíveis nos canais do CPTEC/INPE, INMET, Funceme e CENSIPAM. A próxima atualização da nota técnica conjunta deve ser divulgada conforme novos dados e análises forem disponibilizados.
O fenômeno, uma vez configurado, deve estender seus efeitos até pelo menos o início de 2027. Os primeiros impactos já podem surgir no segundo semestre de 2026, com os efeitos mais intensos previstos entre o fim de 2026 e o começo de 2027.

El Niño: a mancha vermelha ao redor da linha do Equador, na região do oceano Pacífico Equatorial, representa a situação de temperatura acima do normal, característica do El Niño. A imagema representa o aquecimento do El Niño 2023, de 1 a 10 de junho de 2023 (Imagem: NASA)
Fontes: NASA, INPE, INMET, Funceme e CENSIPAM.

