Brasil

ChatGPT identifica plano de pai para matar o filho e aciona FBI

Por Luiz Gomes • 27 de junho de 2026

Um homem de 36 anos foi preso no Espírito Santo após o ChatGPT identificar um plano para matar o próprio filho de 8 anos e acionar as autoridades. A OpenAI, empresa responsável pelo assistente de inteligência artificial, comunicou o caso ao FBI, que repassou as informações à Polícia Civil do Espírito Santo via Ministério da Justiça. A prisão ocorreu em 19 de junho, um dia antes da data que o suspeito havia escolhido para cometer o crime.

O homem, agricultor residente em São Gabriel da Palha, no Noroeste do estado, foi detido enquanto saía para trabalhar. Ele negou as acusações em depoimento, mas foi preso com base no histórico de conversas com o ChatGPT, que detalhavam o planejamento do crime e a intenção de realizar atentados em espaços públicos.

Material apreendido com homem preso por planejar morte do filho no Espírito Santo. — Foto: Reprodução/PCES

Mensagens ao ChatGPT revelaram plano com arma, corda e veneno

Nas conversas com a IA, o homem escreveu que tentou contratar um pistoleiro por R$ 50 mil para matar o filho, mas a proposta foi recusada após informar que a vítima era uma criança. Ele também relatou estar na posse de uma arma, corda e cianeto (veneno), e manifestou intenção de realizar atentados contra escolas, igrejas e autoridades públicas, com o objetivo de fazer o maior número de vítimas possível.

Segundo o delegado Ícaro Olímpio, da Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DRCC), a motivação para o homicídio seria evitar o pagamento de pensão alimentícia à ex-companheira. O homem não mantinha contato com o filho, que vive com a mãe em outro município do norte capixaba.

“Ele enviava mensagens para a Inteligência Artificial e, nessas mensagens, abrindo o seu coração, ele dizia que estava contratando um pistoleiro para matar o seu filho, um filho que ele não tinha contato”, afirmou o delegado.

Como o ChatGPT detectou o plano e acionou as autoridades

A OpenAI afirma que seus sistemas utilizam mecanismos automatizados para identificar potenciais atos de violência. A empresa disse ao G1 que “quando identificamos conversas que indicam um risco iminente e crível de dano a outras pessoas, podemos notificar as autoridades competentes”.

O processo começa com sistemas automatizados que categorizam conteúdos e fazem análises complexas sobre o contexto da conversa. Caso a conversa seja sinalizada, ela é enviada para moderadores humanos, que avaliam se houve violação de políticas e se o usuário realmente pode cometer um ato de violência.

Os moderadores podem classificar a atividade como baixo risco, desativar a conta ou entrar em contato com autoridades — como ocorreu no Espírito Santo. O delegado Breno Andrade afirmou que este é apenas o terceiro caso do tipo no Brasil.

Críticas à comunicação com o FBI em vez de autoridades brasileiras

O professor Álvaro Machado Dias, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), afirmou ao G1 que a notificação ao FBI, e não a uma autoridade brasileira, é inadequada. “O crime seria no Brasil, a vítima estava no Brasil, o suspeito estava no Brasil, e a prisão dependia do Estado brasileiro. Quem presta serviço aqui não pode tratar o Brasil como mercado consumidor e os Estados Unidos como foro natural de todo conflito”, disse.

Ele destacou, no entanto, que comunicar o caso foi a decisão correta. “As pessoas falam com o ChatGPT como quem fala com um terapeuta ou um advogado, mas a IA não é nem uma coisa nem outra, e portanto não carrega segredo profissional nenhum.”

Prisão e investigação em andamento

O FBI encaminhou a denúncia ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, que a repassou à Polícia Civil do Espírito Santo no dia 16 de junho. A prisão preventiva foi cumprida no dia 19, um dia antes da data mencionada pelo suspeito para a execução dos crimes.

“Recebemos essa denúncia no dia 16. No dia 19 cumprimos os mandados e evitamos que um mal maior ocorresse”, afirmou o delegado Ícaro Olímpio. O homem negou os fatos, mas a polícia afirma ter “convicção de que evitamos atos de extrema violência”.

Os aparelhos eletrônicos apreendidos passarão por perícia para verificar, entre outros pontos, se houve contato efetivo com um suposto pistoleiro. Até a conclusão, a polícia trabalha com os crimes de ameaça, incitação ao crime e tentativa de homicídio.

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Sobre o autor

Luiz Gomes

Luiz Gomes é redator de notícias e produtor de conteúdo digital, Atua a mais de 20 anos como professor de Geografia com foco em Geopolítica.

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