Saúde e bem estar

A obsessão pela aparência saudável também pode adoecer.

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Quando o autocuidado deixa de ser cuidado e se transforma em uma tentativa interminável de finalmente se sentir suficiente?

Por Leo Oliveira — Psicanalista | Arena Remix

Academia. Dieta. Skincare. Harmonização. Botox. Preenchimento. Cirurgia. Suplementação. Um novo corte de cabelo. Uma nova promessa de transformação, nada disso, isoladamente, representa um problema, cuidar da aparência pode aumentar a autoestima, proporcionar prazer e fazer parte de uma relação saudável com o próprio corpo.

A questão talvez seja outra:

Em que momento eu deixo de cuidar de mim e começo a tentar consertar alguém que acredito nunca ser bom o suficiente?

Existe uma diferença enorme entre olhar para o espelho e pensar “quero mudar isso” e olhar para ele todos os dias procurando o próximo defeito que precisa ser corrigido.

E talvez seja aí que uma busca aparentemente saudável comece a adoecer.

O corpo perfeito está sempre um passo à frente.

Existe uma característica particularmente cruel no padrão de beleza contemporâneo: ele dificilmente permite que alguém chegue ao destino.

Você emagrece, agora precisa definir, define, agora precisa aumentar determinado músculo, melhora o corpo, então começa a observar o rosto, corrige o rosto, surge o cabelo, a pele, os dentes, as roupas….

Sempre existe alguma coisa que poderia estar um pouco melhor e quando a autoestima fica condicionada à próxima transformação, a satisfação dura pouco.

O corpo deixa de ser apenas o lugar onde você vive.

Ele passa a funcionar como um projeto que nunca termina.

O problema não é o espelho. É o tribunal que colocamos diante dele.

A psicanálise nos ajuda a fazer uma pergunta interessante:

Quando você olha para si, quem está olhando junto com você?

Pode parecer estranho, mas raramente construímos nossa percepção sobre nós mesmos completamente sozinhos.

Carregamos olhares, comentários, comparações, rejeições, elogios, críticas da infância, experiências amorosas, modelos sociais, padrões culturais e  atualmente, carregamos também uma quantidade quase infinita de imagens de outras pessoas.

O sujeito não olha apenas para o próprio corpo.

Ele olha para aquilo que acredita que deveria ser.

E quanto maior a distância entre quem a pessoa sente que é e aquilo que acredita precisar se tornar para ser admirada, desejada ou aceita, maior pode ser o sofrimento.

É por isso que às vezes a questão estética não termina depois da transformação.

Porque era o corpo que estava sendo modificado, mas a ferida estava em outro lugar.

O algoritmo também entrou no nosso espelho.

Antes, a comparação acontecia com artistas, modelos e pessoas próximas.

Hoje, ela cabe no bolso.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2024 reuniu 83 estudos e mais de 55 mil participantes e encontrou associação entre maior comparação social nas redes, mais preocupações com a imagem corporal e mais sintomas relacionados a transtornos alimentares.

A American Psychological Association também alerta que conteúdos voltados à comparação de aparência estão relacionados a pior imagem corporal e comportamentos alimentares problemáticos, especialmente entre adolescentes.

Isso não significa que Instagram, TikTok ou qualquer outra rede social sejam capazes, sozinhos, de produzir um transtorno.

A questão é mais complexa, mas pense no ambiente que criamos, você acorda e vê alguém treinando, depois alguém exibindo uma dieta, um influenciador mostrando um procedimento, uma pessoa contando quantos quilos perdeu, outra mostrando o “antes e depois”, outra ensinando como melhorar mandíbula, nariz, pele, cabelo ou corpo.

Quando percebemos, o extraordinário começa a parecer normal — e o corpo normal começa a parecer insuficiente.

Até o “antes e depois” merece atenção.

No Brasil, um estudo publicado na Revista Brasileira de Cirurgia Plástica, com pacientes de São Paulo que haviam realizado ou pretendiam realizar procedimentos, encontrou influência relevante das redes sociais sobre decisões relacionadas à cirurgia plástica. Entre os 62 participantes, 69,4% disseram ficar mais motivados a realizar um procedimento ao observar fotografias de antes e depois.

Novamente: isso não torna cirurgia plástica errada, o problema é esquecer que estamos comparando nossa vida cotidiana com imagens cuidadosamente selecionadas.

Ângulo, iluminação, pose, maquiagem, filtro, edição, procedimentos e principalmente, seleção.

Quase ninguém publica a fotografia em que acredita estar pior.

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Comparar seu corpo cotidiano com o melhor enquadramento da vida alheia é uma competição difícil de vencer.

Homens também entraram nessa cobrança.

Durante muito tempo, o debate sobre imagem corporal esteve concentrado principalmente nas mulheres.

Mas a pressão estética masculina também merece atenção.

Corpo definido, baixo percentual de gordura, barba, mandíbula marcada, altura, cabelo, musculatura, aparência de força e juventude.

Discussões recentes sobre fenômenos como o chamado “looksmaxxing” , a tentativa sistemática de maximizar a própria aparência  têm colocado em evidência como meninos e homens também podem desenvolver uma relação angustiante com sua imagem. A própria American Psychological Association discutiu o fenômeno em 2026 ao abordar imagem corporal masculina e dismorfia muscular.

A cobrança muda de forma.

Mas a lógica pode ser parecida:

“Quando eu finalmente tiver esse corpo, talvez eu finalmente seja suficiente.”

E essa promessa pode nunca se cumprir.

“Mas querer ficar bonito virou doença agora?”

Não, o que precisamos é tomar cuidado com isso.

Nem todo mundo que treina muito está doente.

Nem toda pessoa que faz procedimentos estéticos sofre de baixa autoestima.

Nem todo mundo que gosta de skincare está tentando esconder algum trauma.

Nem toda cirurgia representa rejeição ao próprio corpo.

Seria tão irresponsável patologizar o autocuidado quanto ignorar que algumas pessoas desenvolvem sofrimento intenso em torno da aparência.

Existe, inclusive, uma condição clínica chamada transtorno dismórfico corporal, caracterizada por preocupação intensa com defeitos percebidos na aparência que podem ser inexistentes ou pouco perceptíveis para outras pessoas, acompanhada de comportamentos repetitivos relacionados a essas preocupações. Isso exige avaliação profissional; não deve ser diagnosticado por vídeos, postagens ou textos na internet.

Mas não precisamos chegar a um diagnóstico para fazer uma reflexão.

Faça uma pergunta diferente diante do espelho.

Talvez a pergunta não seja:

“O que ainda preciso melhorar?”

Talvez seja:

“Por que preciso melhorar tanto para conseguir gostar de mim?”

Existe uma diferença importante entre:

“Vou para a academia porque gosto do que isso proporciona.”

E

“Quero ir à academia porque meu corpo precisa ser igual ao dele(a).”.

Autocuidado não deveria ser uma guerra contra você mesmo.

Talvez uma das maiores contradições do nosso tempo seja chamarmos de autocuidado práticas realizadas a partir do ódio contra nós mesmos.

Você pode cuidar do corpo, pode emagrecer, pode ganhar músculos, pode fazer procedimentos, pode usar maquiagem, pode querer mudar, não existe virtude obrigatória em aceitar absolutamente tudo.

Mas vale perceber quando a transformação deixa de ser uma escolha e se transforma em condição para existir em paz.

Porque existe sempre um próximo procedimento.

Um próximo músculo.

Uma próxima dieta.

Uma próxima tendência.

Um próximo padrão.

E talvez nenhum deles consiga responder à pergunta que realmente está incomodando:

“Será que, do jeito que eu sou, alguém consegue me amar?”

Talvez a parte mais difícil do autocuidado não seja transformar o corpo.

Talvez seja descobrir que você não deveria precisar odiar a versão atual de si mesmo para desejar cuidar da próxima.

Fontes:

  • Bonfanti RC et al. The association between social comparison in social media, body image concerns and eating disorder symptoms: A systematic review and meta-analysis. Body Image, 2024.
  • American Psychological Association. Health advisory on social media use in adolescence.
  • American Psychological Association. Social media, looksmaxxing, and why men struggle with body image, 2026.
  • Revista Brasileira de Cirurgia Plástica. A influência das mídias sociais na decisão pela cirurgia plástica, 2024.
  • Revista Brasileira de Cirurgia Plástica. Procedimentos cirúrgicos estéticos em pacientes diagnosticados com transtorno dismórfico corporal, 2024.

Nota editorial:

Este artigo tem caráter informativo e reflexivo e não substitui avaliação médica, psicológica, psiquiátrica ou de outros profissionais de saúde. Questões relacionadas à imagem corporal podem ter diferentes origens e graus de intensidade. A realização de procedimentos estéticos deve ser discutida com profissionais devidamente habilitados.

Léo Oliveira
Sobre o autor

Léo Oliveira

Leo Oliveira é esposo, pai, filho, psicanalista, escritor e editor da coluna Saúde e Bem-Estar do Arena Remix. Atua na área da saúde mental com um olhar voltado à compreensão do comportamento humano, das relações e dos conflitos emocionais presentes no cotidiano. Seu trabalho busca aproximar a Psicanálise da vida real, utilizando uma linguagem acessível, direta e humana, sem excesso de termos técnicos ou respostas prontas. Como escritor e produtor de conteúdo, aborda temas como relacionamentos, família, dependência emocional, narcisismo, infância, ansiedade, autoconhecimento e os padrões que muitas vezes repetimos sem compreender. À frente da coluna Saúde e Bem-Estar, Leonardo propõe uma reflexão sobre como cuidamos de nós mesmos, das nossas relações e da nossa vida emocional, partindo de uma ideia simples: entender o que sentimos também é uma forma de cuidar de nós.

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