Saúde e bem estar

Quando um país chora: o que existe por trás do luto coletivo.

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Por Leo Oliveira – Psicanalista

A morte de Rick nos lembra que nem sempre choramos apenas pela pessoa que partiu. Às vezes, choramos também por aquilo que ela representava em nossa própria história.

A notícia da morte de Rick Sollo, da dupla Rick & Renner, atravessou o Brasil nesta terça-feira.

O cantor, de 59 anos, morreu após a queda de um helicóptero em Santa Catarina. O Corpo de Bombeiros confirmou a localização da aeronave e a morte dos cinco ocupantes. Rick construíra uma carreira de aproximadamente quatro décadas e fazia parte da memória musical de milhões de brasileiros.

Nas redes sociais, rapidamente começaram a aparecer homenagens.

Pessoas que nunca apertaram sua mão escreveram que estavam tristes.

Pessoas que nunca conversaram com ele disseram que sentiriam saudade.

Canções foram lembradas.

Fotografias antigas reapareceram.

E talvez alguém tenha se perguntado:

“Mas por que eu estou tão triste pela morte de alguém que nem conhecia?”

A resposta pode estar no que a psicanálise entende sobre o vínculo, a memória e a perda.

Nós não perdemos apenas pessoas

Quando alguém morre, não desaparece somente um corpo.

Desaparece também uma presença no mundo.

E, dependendo de quem é essa pessoa, desaparecem referências, lembranças, histórias e pedaços de uma determinada época.

É por isso que determinadas mortes parecem atingir pessoas que nunca tiveram uma relação direta com o morto.

Um cantor pode representar a adolescência de alguém.

Uma atriz pode representar os domingos da infância.

Um jogador pode estar associado ao primeiro campeonato assistido com o pai.

Uma música pode lembrar o primeiro amor.

Uma voz pode transportar alguém para uma casa que já não existe.

Nesse sentido, algumas pessoas ocupam um lugar muito maior em nossa vida psíquica do que imaginamos.

Nós não nos relacionamos apenas com pessoas. Também nos relacionamos com aquilo que elas representam.

O luto coletivo

O luto coletivo acontece quando uma perda ultrapassa o espaço privado e passa a ser compartilhada por um grupo.

Não significa que todos tenham conhecido ou amado a pessoa da mesma maneira.

Significa que existe algum elemento comum capaz de produzir identificação.

Uma pesquisa publicada em 2026 sobre luto coletivo descreve justamente esse movimento: uma perda percebida como relevante para determinado grupo pode ativar uma identidade compartilhada, produzir emoções coletivas e estimular formas de enfrentamento também coletivas.

É o que acontece quando uma notícia de morte produz algo curioso:

“Eu também estou sentindo.”

Mesmo sem existir uma relação pessoal com quem morreu.

A dor, nesse caso, encontra um lugar no coletivo.

As pessoas contam histórias.

Compartilham músicas.

Publicam fotografias.

Relembram momentos.

E, sem perceber, ajudam a construir uma espécie de espaço público para o sofrimento.

Freud e aquilo que perdemos quando alguém morre

Em Luto e Melancolia, Freud descreveu o luto como uma reação diante da perda de alguém amado, mas também diante da perda de algo que ocupava um lugar significativo para o sujeito — inclusive um ideal.

Essa ideia é especialmente interessante quando pensamos no luto por uma pessoa pública.

Porque talvez não estejamos chorando apenas por Rick.

Talvez estejamos chorando pela nossa própria história.

A música que tocava quando éramos jovens.

O relacionamento que terminou.

Os amigos que se afastaram.

Os pais que envelheceram.

A família que mudou.

A época em que determinadas coisas pareciam possíveis.

Uma pessoa pública pode funcionar como uma espécie de marcador de tempo.

Quando ela morre, alguma coisa dentro de nós pode perceber:

“Aquele tempo também está ficando para trás.”

E isso pode doer.

O estranho sentimento de perder alguém que nunca tivemos

Existe uma diferença entre o vínculo real e o vínculo simbólico.

Não precisamos conhecer pessoalmente alguém para construir uma relação afetiva com sua imagem, sua obra ou aquilo que ela representa.

O artista entra em nossas casas pela televisão, pelo rádio, pelo celular, pelo streaming.

Sua voz acompanha viagens.

Suas músicas acompanham relacionamentos.

Suas apresentações fazem parte de festas, casamentos, encontros familiares.

Ele passa a participar de nossa história sem necessariamente saber que participamos da história dele.

É uma relação assimétrica, mas nem por isso emocionalmente insignificante.

Por isso, quando a pessoa morre, algo pode ser mobilizado em nós.

Não porque perdemos uma intimidade que nunca existiu, mas porque perdemos uma presença que existia dentro da nossa memória.

O coletivo também nos ajuda a elaborar a perda

Existe algo muito humano nas manifestações coletivas de luto.

Quando alguém publica uma música de Rick, outra pessoa comenta que aquela música lembrava o pai.

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Alguém conta que ouviu determinada canção durante um namoro.

Outro lembra de uma viagem.

Outro fala de um show.

A memória individual começa a encontrar outras memórias.

E aquilo que parecia ser apenas uma tristeza particular transforma-se em narrativa compartilhada.

A memória coletiva funciona assim: grupos constroem e preservam lembranças por meio de histórias, símbolos, homenagens e rituais. Esses elementos também ajudam a sustentar vínculos e identidades coletivas.

Por isso, velórios, homenagens, músicas, fotografias, minutos de silêncio e publicações nas redes sociais não são apenas demonstrações de tristeza.

Também podem ser formas de dar lugar à perda.

Mas existe um cuidado importante

O luto não possui um roteiro único.

As respostas ao luto variam entre as pessoas e não existe um tempo universal ou uma sequência obrigatória de etapas que todos precisem atravessar.

Algumas pessoas choram.

Outras ficam em silêncio.

Algumas precisam falar.

Outras preferem ouvir as músicas.

Algumas sentem uma tristeza profunda.

Outras percebem mais nostalgia do que sofrimento.

E algumas simplesmente não sentem nada.

Tudo isso pode acontecer.

Não existe obrigação de sofrer porque o restante do país está sofrendo.

E também não existe motivo para se envergonhar porque uma morte pública nos atingiu mais do que imaginávamos.

Talvez não seja apenas sobre Rick

É aqui que a psicanálise pode fazer uma pergunta diferente.

Não apenas:

“Por que estamos tristes pela morte de Rick?”

Mas:

“O que a morte de Rick despertou em nós?”

Talvez tenha despertado saudade.

Talvez tenha lembrado alguém.

Talvez tenha colocado diante de nós a passagem do tempo.

Talvez tenha nos feito perceber que envelhecemos junto com os artistas que acompanharam nossa vida.

Talvez tenha trazido de volta uma música que estava esquecida.

Talvez tenha lembrado um pai, uma mãe, um irmão, um amigo ou um amor.

E talvez seja justamente aí que esteja a força do luto coletivo.

Ele começa com uma morte que pertence ao outro, mas pode terminar revelando alguma coisa sobre nós.

Porque, no fundo, também choramos por aquilo que fomos

A morte de uma pessoa pública pode funcionar como um espelho.

O rosto que desaparece é o do outro.

Mas aquilo que aparece no reflexo pode ser a nossa própria história.

Por isso, às vezes, uma notícia de morte nos deixa estranhamente abalados.

Não conhecíamos aquela pessoa.

Mas conhecíamos o que ela significava.

Conhecíamos a música.

Conhecíamos a época.

Conhecíamos a sensação.

Conhecíamos aquele pedaço de nós.

Talvez o luto coletivo seja justamente isso: quando uma perda individual toca uma memória que pertence a muitas pessoas.

E talvez seja por isso que algumas mortes nos fazem olhar para trás.

Porque, quando alguém que fez parte da nossa memória morre, somos lembrados de uma verdade que preferimos esquecer:

o tempo também está passando por nós.

Rick não leva apenas sua voz.

Ele leva consigo uma parte de uma época, de uma paisagem afetiva, de uma memória compartilhada.

Mas é justamente aí que o luto encontra sua contradição mais bonita.

A pessoa morre. A memória não.

A voz termina.

A música continua.

E aquilo que ela despertou em cada um de nós permanece circulando — nas histórias que contamos, nas canções que voltamos a ouvir, nas pessoas que lembramos e nos pedaços de nós mesmos que reencontramos.

Talvez seja por isso que choramos por quem nunca conhecemos.

Porque, algumas vezes, não estamos chorando apenas a morte de alguém.

Estamos chorando a despedida de uma parte da nossa própria história.

E talvez o verdadeiro luto coletivo seja esse:

quando a morte do outro nos faz perceber que, de algum modo, uma parte de nós também ficou para trás.

Fontes

  • Freud, Sigmund. Luto e Melancolia (1917).
  • Freud, Sigmund. Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921).
  • American Psychological Association. Grief.
  • American Psychological Association. Grief: Coping with the loss of your loved one.
  • İslambay-Yapalı, Demet. From Private Pain to Shared Sorrow: A Process Model of Collective Bereavement. Omega, 2026.
  • Ministério da Cultura. Nota de pesar por Rick Sollo, 22 de setembro de 2026.

Nota editorial

Este artigo utiliza a morte de Rick Sollo como ponto de partida para uma reflexão sobre o fenômeno do luto coletivo e suas dimensões psicológicas e psicanalíticas. A análise não pretende explicar individualmente o sofrimento de cada pessoa nem transformar uma reação de luto em diagnóstico. O modo como cada indivíduo vivencia uma perda é singular e pode depender de sua história, de seus vínculos e do significado atribuído à pessoa ou ao acontecimento.

Léo Oliveira
Sobre o autor

Léo Oliveira

Leo Oliveira é esposo, pai, filho, psicanalista, escritor e editor da coluna Saúde e Bem-Estar do Arena Remix. Atua na área da saúde mental com um olhar voltado à compreensão do comportamento humano, das relações e dos conflitos emocionais presentes no cotidiano. Seu trabalho busca aproximar a Psicanálise da vida real, utilizando uma linguagem acessível, direta e humana, sem excesso de termos técnicos ou respostas prontas. Como escritor e produtor de conteúdo, aborda temas como relacionamentos, família, dependência emocional, narcisismo, infância, ansiedade, autoconhecimento e os padrões que muitas vezes repetimos sem compreender. À frente da coluna Saúde e Bem-Estar, Leonardo propõe uma reflexão sobre como cuidamos de nós mesmos, das nossas relações e da nossa vida emocional, partindo de uma ideia simples: entender o que sentimos também é uma forma de cuidar de nós.

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