Caso Master

Áudios revelam que cunhado de Vorcaro ocultou R$ 20 bilhões no exterior durante crise do Master

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Fabiano Zettel, operador financeiro e cunhado do ex-banqueiro, revelou a uma amante que escondeu dinheiro fora do país antes da liquidação do banco; gravações obtidas pela revista Piauí expõem bastidores da maior fraude bancária da história do Brasil, com pagamentos a políticos, jornalistas e suspeitos de corrupção

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O dinheiro escondido no exterior

Os números do caso Vorcaro e Zettel.
Crédito: Arena Remix, com dados da revista Piauí e da Polícia Federal.

Em meados de outubro de 2025, Fabiano Zettel contou à amante Marina que viajaria ao exterior para resolver um assunto sigiloso. Dias depois, revelou o motivo: “Semana passada, o Banco Central deu três semanas para o Daniel reformular o banco, senão ele vai ser liquidado. Eu fui lá, escondi um dinheiro, porque se der tudo errado e der uma merda danada e tudo meu for bloqueado, eu tenho que ter um dinheiro pra poder continuar vivendo e mantendo as coisas” . Em 18 de novembro daquele ano, o Master foi liquidado, e Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no Aeroporto de Guarulhos quando tentava embarcar para Dubai.

Após a prisão, Zettel relatou a Marina que o cunhado “guardou 20 bilhões no exterior e não consegue ir lá, não consegue gastar, não consegue pegar. Porque se pegar, é preso de novo. Então, não adianta nada juntar dinheiro fora. Se ferra do mesmo jeito” . Ele acrescentou: “Não sei até onde o Daniel tem essa consciência. Eu acho que ele é meio inconsequente” .

Até o momento, as autoridades localizaram apenas cerca de R$ 2 bilhões** em imóveis e outros bens ligados a Vorcaro. Em agosto, a Suprema Corte das Ilhas Cayman anunciou a liquidação da **Titan Capital**, holding controlada pelo ex-banqueiro, mas a empresa não tinha ativos disponíveis e acumulava dívidas superiores a **R$ 1 bilhão. Segundo a colunista Miriam Leitão, do jornal O Globo, o liquidante do Master conseguiu rastrear ao menos um fundo não declarado que havia recebido recursos por meio de intermediários, entre eles Antônio Carlos Freixo Júnior, o “Mineiro” , que em setembro fechou acordo de delação premiada.

Parte de um dos Áudios de Fabiano Zetel – Fonte Revista Piauí

Pagamentos a políticos, jornalistas e suspeitos de corrupção

As gravações revelam que Zettel era o responsável por operacionalizar repasses a uma ampla gama de pessoas. Segundo as mensagens obtidas pela Polícia Federal, os pagamentos incluíam:

  • Advogados, como Walfrido Warde;
  • Auxiliares íntimos, como Fabio Faria e Ciro Nogueira;
  • Jornalistas contratados para atuar em favor do banco;
  • Servidores suspeitos de corrupção, como dois diretores do Banco Central investigados por colaborarem com o esquema;
  • Parcelas depositadas a pedido de Flávio Bolsonaro para o filme “Dark Horse” .

Sobre os repasses para o filme, Zettel reclamou: “O cara do ‘filme’ não sai da minha cola. Me mandou um fluxo gigante” , referindo-se às dez parcelas de US$ 2,5 milhões pedidas pelo senador. Quem fazia os pedidos a Zettel em nome de Flávio era o lobista Thiago Miranda, enquanto o senador se encarregava de cobrar Vorcaro diretamente.

Zettel também estava na ponta de outras operações sob investigação. Era o único dono do fundo Leal, que controlava o Arleen, usado para adquirir participação no resort Tayayá, negócio que levou o ministro Dias Toffoli ao centro do escândalo. Cabia ainda a Zettel pagar os serviços de Luiz Philippi Mourão, o “Sicário” , apontado como responsável pelo núcleo que atuava com monitoramento, obtenção de informações sigilosas, coação e intimidação de pessoas que pudessem atrapalhar os interesses de Vorcaro — com atenção especial para jornalistas.

A relação tensa entre Zettel e Vorcaro

As gravações e áudios mostram que Zettel e Vorcaro tinham uma relação carregada de tensão, na qual se misturavam subordinação e ressentimento. Zettel descrevia o cunhado como um bon-vivant que não trabalhava e pouco se dedicava ao banco, e que só passou a encarar o batente depois que os negócios começaram a ruir. Em uma das conversas, relata que Vorcaro passou a ser alvo de chacota na instituição quando trocou as roupas de grife por um “casaquinho escrito banco Master” .

Embora desdenhasse de Vorcaro nas conversas com Marina, nas trocas de mensagens com o ex-banqueiro, o tom era outro. Zettel se mostrava servil, carente e sempre em busca de demonstração de afeto e reconhecimento. “Irmão, eu não furo com vc não! Você sempre estará nas minhas prioridades! Até o fim!!” , escreveu. Quando Vorcaro o ignorava, cobrava atenção: “Tô começando a achar que você realmente quer distanciamento de mim… nem me responde mais” .

A dedicação não era recíproca. Vorcaro tratava o cunhado como um secretário, cuja função era efetuar pagamentos, organizar assinaturas de contratos, comprar caixas de Mounjaro, anabolizantes e medicamentos capilares, além de gerir as faxinas no tríplex do ex-banqueiro depois das festas. Fontes consultadas pela Piauí relatam que, nos bastidores, Vorcaro desprezava Zettel e o considerava um “Zé Ninguém” , em razão de sua origem humilde. Mas acabava sempre recorrendo a ele como homem de confiança.

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Doações a Tarcísio e Bolsonaro

As gravações também revelam que Zettel foi um grande doador de campanhas políticas. Ele doou R$ 2 milhões** para a campanha de **Tarcísio de Freitas** ao governo de São Paulo em 2022, tornando-se o **maior doador pessoa física** do então candidato. Também doou **R$ 3 milhões à campanha de Jair Bolsonaro naquele ano, sendo seu maior doador individual no segundo turno.

As doações reforçaram a suspeita de que Zettel pudesse funcionar como uma ponte financeira de Vorcaro com figuras da direita, e que suas doações eram um meio de o ex-banqueiro apoiar esse campo político sem se indispor com o PT, caso Lula se elegesse. Não há registro de doações feitas por seus aliados ao petista naquela eleição.

O que dizem os envolvidos

As defesas de Fabiano Zettel e Daniel Vorcaro foram procuradas pela revista Piauí, mas não se manifestaram até a publicação. Flávio Bolsonaro também não se pronunciou sobre as novas revelações.

Procurado, o ministro Dias Toffoli não se manifestou sobre a menção ao resort Tayayá. O Senado e a TV Globo não comentaram o caso.

Cronologia da crise do Banco Master e da atuação de Fabiano Zettel.
Crédito: Arena Remix, com dados da revista Piauí e de referências

Daniel Vorcaro está preso desde março e tenta fechar um acordo de delação premiada. Até agora, não quis delatar os melhores amigos no STF nem revelar o caminho do dinheiro no exterior . Zettel, por ora, não negocia um acordo de delação . As investigações sobre a maior fraude bancária da história do Brasil seguem em curso no Supremo Tribunal Federal e na Polícia Federal.

Referências

Revista Piauí — “Ele guardou R$ 20 bi no exterior”: Áudios e gravações revelam como atuou Fabiano Zettel, cunhado e operador de Daniel Vorcaro, no auge da crise no Master. Disponível em:

O Globo — Liquidante do Master rastreia fundo não declarado por Vorcaro. Coluna de Miriam Leitão.

CNN Brasil — PF aponta que Vorcaro montou rede de monitoramento e influência. 

Agência Brasil — Mendonça homologa delação de doleiro ligado a repasses para Dark Horse.

Nota Editorial

As informações relatadas nesta matéria refletem a reportagem da revista Piauí, publicada em 30 de setembro de 2026, baseada em gravações de conversas e áudios de WhatsApp obtidos pela publicação. As declarações de Fabiano Zettel são relatos íntimos feitos a uma amante e não constituem, por si só, prova de crime. A afirmação de que Vorcaro guardou R$ 20 bilhões no exterior é uma declaração de Zettel e não foi confirmada pelas autoridades. Os pagamentos a políticos, jornalistas e servidores são baseados em mensagens obtidas pela Polícia Federal e integram investigações em andamento. Flávio Bolsonaro, Dias Toffoli, Ciro Nogueira e Fabio Faria não se manifestaram até a publicação. As defesas de Zettel e Vorcaro não responderam aos contatos da revista. Não há, até o momento, condenação definitiva de nenhum dos envolvidos. O espaço para manifestação de todos permanece aberto.

Luiz Gomes
Sobre o autor

Luiz Gomes

Luiz Gomes é redator de notícias e produtor de conteúdo digital, Atua a mais de 20 anos como professor de Geografia com foco em Geopolítica.

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