Economia

Terras raras: por que o Brasil está no centro da disputa global por minerais críticos?

Reservas brasileiras aparecem entre as maiores do mundo, enquanto a cadeia internacional continua concentrada na China; projetos em Goiás, Minas Gerais, Bahia e Amazonas podem mudar a posição do país.

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O Brasil entrou no centro da disputa global por minerais críticos por uma combinação de fatores: possui reservas relevantes de terras raras, abriga depósitos de diferentes tipos geológicos e começa a desenvolver projetos capazes de produzir elementos usados em ímãs permanentes, veículos elétricos, turbinas eólicas, eletrônica, defesa e inteligência artificial.

A vantagem brasileira, porém, ainda é principalmente geológica. Em 2025, o país produziu cerca de 2 mil toneladas de óxidos de terras raras equivalentes, enquanto a China produziu aproximadamente 270 mil toneladas, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). No mesmo ano, as reservas brasileiras foram estimadas em 11 milhões de toneladas, atrás da China, com 44 milhões de toneladas. [1]

Isso significa que o Brasil tem potencial para ampliar sua participação, mas ainda precisa transformar reservas em produção regular, desenvolver capacidade de separação e refino e avançar na fabricação de metais, ligas e ímãs. A Agência Internacional de Energia (IEA) destaca que o elo mais concentrado da cadeia não é apenas a mineração: em 2024, a China respondia por cerca de 60% da produção minerada de terras raras magnéticas, 91% do refino e 94% dos ímãs permanentes sinterizados. [2]

O que são terras raras?

Terras raras são um grupo de 17 elementos químicos: os 15 lantanídeos — lantânio, cério, praseodímio, neodímio, promécio, samário, európio, gadolínio, térbio, disprósio, hólmio, érbio, túlio, itérbio e lutécio — mais o escândio e o ítrio. [3] [4]

O nome pode induzir a erro. Esses elementos não são necessariamente raros na crosta terrestre. O cério, por exemplo, é relativamente abundante. O problema é que eles raramente aparecem concentrados em grandes depósitos economicamente viáveis e, em geral, estão misturados a outros elementos com propriedades químicas semelhantes. Separá-los exige processos tecnológicos complexos. [3]

Os elementos podem ser organizados, de forma simplificada, em terras raras leves e pesadas. Entre as leves estão lantânio, cério, praseodímio, neodímio, promécio, samário e európio. Entre as pesadas estão gadolínio, térbio, disprósio, hólmio, érbio, túlio, itérbio e lutécio; escândio e ítrio são incluídos pelo comportamento químico e pela ocorrência em depósitos semelhantes. [3]

Por que são minerais críticos?

A importância estratégica das terras raras está em suas propriedades magnéticas, ópticas e eletroquímicas. O neodímio e o praseodímio participam dos ímãs NdFeB, enquanto disprósio e térbio ajudam a manter o desempenho desses ímãs em temperaturas elevadas. Eles são usados em motores elétricos, turbinas eólicas, robôs, discos rígidos, equipamentos médicos, sistemas aeroespaciais e aplicações de defesa. [2] [3]

A IEA estima que os ímãs permanentes representam cerca de 95% do consumo mundial de terras raras em valor. A demanda pelos quatro elementos magnéticos, neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, dobrou desde 2015 e tende a crescer mais um terço até 2030 nas políticas atuais, impulsionada por eletrificação, veículos elétricos, turbinas, automação e tecnologias digitais. [2]

O risco geopolítico está na concentração da cadeia. Um país pode ter reservas no subsolo, mas continuar dependente do exterior se não controlar a separação química, a produção de metais, as ligas ou os ímãs. Por isso, a disputa não se resume à posse da jazida: envolve tecnologia, capital, licenciamento, infraestrutura, mercado consumidor e segurança de fornecimento.

Onde estão as principais jazidas brasileiras?

As ocorrências brasileiras estão espalhadas por diferentes ambientes geológicos. O mapa político abaixo mostra os limites estaduais, as siglas das Unidades da Federação e localizações aproximadas por município ou região, compiladas a partir do Sumário Mineral da Agência Nacional de Mineração (ANM). Os pontos são indicativos e não substituem mapas cadastrais, limites de processos minerários ou estudos de viabilidade. [4]

Mapa político brasileiro com limites estaduais, siglas das UFs e principais ocorrências e projetos de terras raras por município ou região.
Fonte: elaboração própria; pontos com base na ANM, Sumário Mineral Brasileiro 2024, ano-base 2023; limites estaduais em base GeoJSON derivada de dados do IBGE.

Nota cartográfica:

As coordenadas são aproximadas e os rótulos representam áreas ou municípios, não o contorno exato das jazidas ou dos processos minerários.

Goiás: Minaçu e o depósito de argilas iônicas

Minaçu, em Goiás, abriga o depósito de Pela Ema, associado ao projeto Serra Verde. O depósito é formado por argilas de adsorção iônica, um tipo de ocorrência que pode concentrar terras raras pesadas e nas quais os elementos ficam adsorvidos na superfície das partículas de argila. [3] [4]

A Serra Verde informa que sua operação em Minaçu é produtora em escala dos quatro elementos considerados críticos para ímãs, neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, e se apresenta como a única produtora em escala fora da Ásia desse conjunto. [5] A ANM registrou o início das operações em dezembro de 2023, ainda em período de aumento gradual da produção. [4]

Minas Gerais: Araxá, Poços de Caldas, Tapira, Tiros e outros projetos

Minas Gerais reúne várias ocorrências e projetos. A ANM cita depósitos associados a rochas alcalinas-carbonatíticas em Araxá, Poços de Caldas e Tapira, além de projetos em Tiros, Mata da Corda, Uberaba e outras áreas. [4]

Poços de Caldas também é relevante pelo potencial de argilas iônicas. O Projeto Caldeira, da Meteoric Resources, e o Projeto Colossus, da Viridis Mining, aparecem entre os projetos de pesquisa divulgados no levantamento da ANM. [4]

Bahia: Jequié, Monte Alto e novos projetos

A Bahia concentrou a maior parcela dos investimentos declarados em pesquisa mineral para diferentes substâncias em 2023, segundo a ANM. Na lista de projetos de terras raras aparecem Monte Alto, em Jequié, e iniciativas associadas à região de Jequié e ao complexo do Senai Cimatec, em Camaçari. [4]

A existência de um projeto ou processo de pesquisa não equivale a reserva lavrável, mina em operação ou produção comercial. Essa distinção é essencial para não transformar potencial geológico em resultado econômico já realizado.

Amazonas, São Paulo, Rio de Janeiro e Rondônia

No Amazonas, a ocorrência de Pitinga, em Presidente Figueiredo, está associada a granitos. Em São Paulo, a ANM cita Jacupiranga e Itapirapuã, associados a ambientes alcalinos e graníticos. No Rio de Janeiro, São Francisco do Itabapoana aparece entre os depósitos de paleoplaceres com associação de monazita e ilmenita. Em Rondônia, Bom Futuro é citado como placer continental associado à cassiterita. [4]

Essas áreas mostram a diversidade dos depósitos brasileiros, mas também revelam que não existe uma única “jazida nacional” com o mesmo tipo de minério. Cada ocorrência exige rota de beneficiamento, separação e avaliação ambiental própria.

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Tamanho das reservas e produção

Os números variam conforme o conceito usado. O USGS estimou para 2025 11 milhões de toneladas de reservas brasileiras em equivalente de óxido de terras raras (REO). A ANM, com base em reservas provadas e prováveis declaradas no Brasil, informou 11,4 milhões de toneladas para 2023. Para comparações internacionais, este material usa a série do USGS; para a situação regulatória e doméstica, usa os dados da ANM. [1] [4]

China e Brasil aparecem como os dois maiores volumes da série selecionada do USGS para 2025.
Fonte: USGS, Mineral Commodity Summaries 2026.

Nota:

Mt = milhões de toneladas de REO equivalente; valores de reservas não são sinônimo de produção anual.

Produção estimada de terras raras em 2025, em milhares de toneladas de REO equivalente.
Fonte: USGS, Mineral Commodity Summaries 2026.

Nota:

“Outros” agrega produtores não individualizados no gráfico; Brasil aparece com aproximadamente 2 mil toneladas.

Tabela de valores: comércio exterior brasileiro

A tabela abaixo apresenta os valores médios de comércio exterior de alguns produtos classificados pela ANM com base no MDIC/Comex Stat. São preços médios por tonelada em operações brasileiras, não cotações universais de cada elemento químico e não representam o valor de uma jazida no subsolo. [4]

Em 2023, as exportações brasileiras de produtos de terras raras somaram US$ 1,4 milhão, enquanto as importações chegaram a US$ 11,5 milhões, gerando saldo deficitário de aproximadamente US$ 10,1 milhões. A China respondeu por US$ 5,9 milhões das importações, ou 51,4% do total; Estados Unidos e França também aparecem entre as principais origens. [4]

O dado mostra o paradoxo brasileiro: o país pode ter muito minério no subsolo e ainda importar compostos, catalisadores e produtos processados de maior valor. A oportunidade econômica está em aumentar a produção, mas principalmente em subir na cadeia industrial.

Preços internacionais dos principais óxidos

Preços médios de óxidos selecionados no mercado americano, 2021–2025.
Fonte: USGS MCS 2026, com preços médios citados da Argus.

Nota: preços de óxidos não devem ser confundidos com o valor de concentrado, metal, liga, ímã ou produto tecnológico acabado.

Os preços variam por pureza, forma do produto, local de entrega, contrato, qualidade, volume e condições de mercado. Para avaliação econômica de uma jazida, é necessário conhecer o teor, a recuperação metalúrgica, o conjunto de elementos presentes, os custos de separação, a logística e o preço efetivamente contratado.

O que torna o Brasil estratégico?

O Brasil pode se tornar um fornecedor relevante por quatro razões. Primeiro, tem uma base de reservas grande e geologicamente diversificada. Segundo, possui depósitos de argilas iônicas, que podem favorecer a produção de elementos pesados e magnéticos. Terceiro, está próximo de mercados consumidores das Américas e tem experiência em mineração, processamento químico e produção industrial. Quarto, pode oferecer uma alternativa geográfica para empresas interessadas em reduzir a dependência de uma única cadeia asiática.

Mas os obstáculos são igualmente importantes. A mineração precisa provar viabilidade econômica e ambiental em escala. Os projetos necessitam de licenciamento, energia, água, estradas, capital e compradores. A indústria precisa dominar etapas de separação e refino, muitas vezes mais complexas do que a lavra. E a presença de tório e urânio em alguns minerais pode exigir controles radiológicos e institucionais específicos

Mas os obstáculos são igualmente importantes. A mineração precisa provar viabilidade econômica e ambiental em escala. Os projetos necessitam de licenciamento, energia, água, estradas, capital e compradores. A indústria precisa dominar etapas de separação e refino, muitas vezes mais complexas do que a lavra. E a presença de tório e urânio em alguns minerais pode exigir controles radiológicos e institucionais específicos.

A IEA projeta que a demanda por terras raras magnéticas fora da China crescerá 50% até 2035. Mesmo com projetos anunciados, as capacidades planejadas fora da China cobririam apenas parte da demanda futura: cerca de metade da mineração, um quarto do refino e menos de um quinto da fabricação de ímãs. [2]

Esse cenário explica o interesse internacional pelo Brasil. A disputa é por reservas, mas também por projetos que possam entregar material separado, rastreável e competitivo. Uma mina brasileira que apenas exporte concentrado terá impacto diferente de uma cadeia que produza óxidos separados, metais, ligas e ímãs.

Legenda: Os 17 elementos de terras raras têm aplicações em ímãs, energia, eletrônica, telecomunicações, defesa e saúde.
Fonte: SGBeduca e IEA.

O Brasil está no centro da disputa global porque reúne uma das maiores bases de reservas conhecidas, projetos em diferentes estágios e uma oportunidade de diversificação para uma cadeia dominada pela China. O país, porém, ainda não transformou plenamente essa vantagem geológica em produção e indústria.

A pergunta decisiva não é apenas “quanto o Brasil tem”, mas quanto consegue produzir com regularidade, separar com tecnologia, agregar valor e vender com padrões ambientais e sociais confiáveis. As jazidas de Minaçu, Poços de Caldas, Araxá, Tapira, Catalão, Jequié, Pitinga e outras regiões podem compor uma nova fronteira mineral, desde que o desenvolvimento avance além da extração do minério bruto.

Referências

[1] Rare Earths — USGS Mineral Commodity Summaries 2026

[2] Rare Earth Elements — International Energy Agency, 2026

[3] Os Elementos de Terras Raras — SGBeduca

[4] Terras Raras — Sumário Mineral Brasileiro 2024, ano-base 2023, ANM

[5] Serra Verde — operação em Minaçu, Goiás

Nota editorial

Os valores internacionais de reservas e produção usados nos gráficos são do USGS MCS 2026. A ANM apresenta 11,4 milhões de toneladas de reservas brasileiras provadas e prováveis em 2023, enquanto o USGS utiliza 11 milhões de toneladas para 2025; as diferenças refletem ano-base, metodologia e classificação. O texto mantém as duas referências explícitas em vez de misturá-las.

O mapa político localiza ocorrências pelo município ou região citada pela ANM sobre os limites estaduais brasileiros. Ele não representa limites de jazidas, polígonos de processos minerários, reservas certificadas ou coordenadas exatas de lavra.

Os preços brasileiros são médias de comércio exterior por NCM em 2021–2023, conforme a ANM/MDIC, e os preços internacionais são médias de óxidos no mercado americano em 2021–2025, conforme o USGS com dados da Argus. Não são diretamente comparáveis entre si.

As descrições de aplicações e a importância estratégica foram verificadas no SGB e na IEA. “Terras raras” não significa que todos os elementos sejam geologicamente escassos; a dificuldade econômica está na concentração, separação e transformação industrial.

Luiz Gomes
Sobre o autor

Luiz Gomes

Luiz Gomes é redator de notícias e produtor de conteúdo digital, Atua a mais de 20 anos como professor de Geografia com foco em Geopolítica.

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