A Polícia Federal (PF) bloqueou bens e valores de até R$ 670 milhões do Banco Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo, em operação deflagrada nesta terça-feira (23) em São Paulo [2] [3]. A ação investiga crimes contra o Sistema Financeiro Nacional.
Operação Miragem mira fraudes contábeis
A Operação Miragem investiga a manipulação de demonstrativos contábeis para ocultar a real situação financeira do Banco Digimais. As investigações da PF, baseadas em relatórios do Banco Central, apontam que os envolvidos inflaram o valor de um fundo de investimento em direitos creditórios de R$ 71 milhões para R$ 741,3 milhões.
Essa reavaliação gerou uma renda fictícia de R$ 199 milhões nos balanços do banco, e o montante bloqueado pela Justiça Federal em São Paulo corresponde à diferença entre esses valores. O bloqueio afeta diretamente o patrimônio do banco, que é um dos fatores que compõem o índice de Basileia, indicador de saúde e solidez financeira. Segundo dados de março de 2026, o Digimais tinha R$ 10 bilhões em ativos totais e registrou prejuízo de R$ 108,4 milhões no primeiro trimestre do ano.
Conexões com ex-executivos da Reag e Ambipar
Um grupo de empresas formado por ex-executivos da Reag, gestora liquidada pelo Banco Central, também está sob escrutínio. Este grupo, que inclui a Asarock Asset Management e a ID CTVM, gerencia fundos controversos citados em suspeitas de fraudes em processos judiciais, incluindo fundos ligados ao Banco Digimais e à empresa de investimentos em sustentabilidade Ambipar.
A ID CTVM, investigada no caso Digimais, defendeu a regularidade de seus fundos e afirmou seguir rigorosos padrões de governança, negando formar um “mesmo grupo” com as empresas dos ex-dirigentes da Reag. O Banco Digimais, por sua vez, declarou que “permanece à disposição das autoridades para prestar quaisquer esclarecimentos e colaborar com as apurações em curso”, reafirmando seu compromisso com a transparência.
Acusação do Bradesco contra Ambipar
No caso da Ambipar, a empresa é acusada pelo Bradesco de usar o fundo Fênix, gerido e administrado por empresas ID, para maquiar seu balanço. Mais da metade do caixa disponível declarado pela Ambipar, de R$ 4,7 bilhões, estaria alocada neste fundo, que investe em direitos creditórios de uma empresa de participações pertencente ao controlador da Ambipar, Tercio Borenghi.

Ambipar |Processo protocolado pelo Bradesco na Justiça alega que executivos podem ser responsabilizados pelos problemas financeiros da companhia. Foto: Victor Moriyama
O Bradesco afirmou, no processo judicial, que é “chegada a hora, porém, de abrir a caixa preta da Ambipar”, questionando o destino do caixa da empresa e a responsabilidade dos agentes intermediários e pessoas físicas no esvaziamento patrimonial. A Justiça ainda não decidiu sobre o caso. A Ambipar e Tércio não se manifestaram, enquanto a ID afirma que o fundo Fênix foi encerrado.
Histórico do Digimais e desdobramentos
Os envolvidos na Operação Miragem poderão responder por crimes como gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em demonstrativos contábeis e realização de operações de crédito vedadas pela Lei nº 7.492/1986 [3]. O Banco Central já havia determinado a correção do valor do fundo em 2023, e o Digimais firmou um empréstimo com sua controladora BA Participações sem o ingresso efetivo dos recursos no caixa.
O Digimais, antigo Banco Renner, foi adquirido por Edir Macedo em 2020. A instituição tem enfrentado deterioração financeira e tentativas de venda. A agência de classificação de risco Fitch rebaixou e retirou a avaliação do banco na véspera da operação da PF, citando incertezas e falta de informações atualizadas [2]. Em abril, o BTG Pactual fechou um acordo de intenção de compra com a instituição, mas as chances de conclusão do negócio se reduziram após a operação da PF.
As investigações da Operação Miragem continuam, e o destino do Banco Digimais está nas mãos do Banco Central, que acompanha o caso.

