Ele foi anunciado como uma odisseia no Atlântico para algumas das ilhas mais remotas do mundo. Em vez disso, o cruzeiro no MV Hondius, afetado pelo hantavírus, ficou encalhado ao largo de Cabo Verde, com os passageiros em suas cabines, médicos em trajes de proteção cuidando dos doentes e a operadora do navio procurando um porto seguro.
O surto deixou três mortos e oito casos confirmados ou suspeitos ligados ao navio de expedição de bandeira holandesa.
Os passageiros, alguns dos quais estão a bordo desde 20 de março, relataram estados de espírito que oscilam entre o medo e o tédio: salões vazios, conveses silenciosos, bebidas quentes, máscaras faciais, exames médicos e a incerteza de não saber quando e como a viagem terminará.
Nesta quarta-feira, equipes especializadas retiraram três pessoas enquanto o navio se preparava para estender sua viagem até as Ilhas Canárias, na Espanha, com o consentimento das autoridades locais.
Depois de quatro dias estacionado ao largo do arquipélago da África Ocidental, o navio zarpou no final desta quarta-feira em direção à ilha canária de Tenerife, onde cerca de 150 passageiros e tripulantes restantes poderão finalmente desembarcar sob supervisão médica. Não está claro se eles serão colocados em quarentena na chegada.
CONFINADOS ÀS CABINES
A operadora de cruzeiros Oceanwide Expeditions disse aos passageiros para seguirem “medidas de isolamento, protocolos de higiene e monitoramento médico”.
Martin Kriz, um médico sueco que tem servido a bordo do Hondius, disse que isso significa fazer as refeições em cabines apertadas para quatro pessoas.”É um espaço bem pequeno“, disse ele à Reuters.
Mas os passageiros dizem que as condições não eram ruins. O passageiro Kasem Hato disse que o clima estava calmo.
“As pessoas estão levando a situação a sério, mas sem pânico, tentando manter o distanciamento social e usando máscaras para se proteger“, disse ele à Reuters. “Nossos dias têm sido quase normais, apenas esperando que as autoridades encontrem uma solução, mas o moral no navio está alto e estamos nos mantendo ocupados lendo, assistindo a filmes, tomando bebidas quentes e esse tipo de coisa.”
Um clipe mostrou o salão com painéis de madeira do Hondius parecendo limpo e vazio. Poltronas e sofás estavam agrupados em tapetes coloridos, com o mar visível através das janelas.
Imagens postadas nas mídias sociais e analisadas pela Reuters mostraram grandes sacos de suprimentos sendo entregues no convés do navio por trabalhadores usando aventais hospitalares e máscaras. A cena marcou um forte contraste com as fotos de vistas espetaculares da Antártida que os passageiros compartilharam no início da viagem.
Jake Rosmarin, dos Estados Unidos, tornou-se um dos rostos mais conhecidos do navio depois de publicar um vídeo emocionado de sua cabine no Instagram, sobre a incerteza que os passageiros enfrentavam.
Mais tarde, ele se mostrou mais calmo.
“Estou me sentindo bem, tomando um pouco de ar fresco e continuando a ser bem alimentado e cuidado pela tripulação“;
disse ele em uma postagem posterior. O YouTuber turco Ruhi Cenet, que partiu do navio em Santa Helena em 24 de abril, foi mais crítico. Ele disse que depois que o primeiro passageiro morreu em 11 de abril, os passageiros foram informados de que ele não era contagioso, então continuaram a se socializar e a fazer refeições juntos.
Com medidas de isolamento mais rápidas, “acho que esse problema poderia ter sido reduzido antes de se espalhar demais”, disse ele à Reuters de Istambul.
A Oceanwide disse em um comunicado nesta quarta-feira que as informações transmitidas pelo capitão do navio eram precisas na época e que ele havia seguido os padrões adequados de saúde e segurança após uma morte no mar.
VEGETAIS FRESCOS
A passageira belga Helene Goessaert disse à emissora belga VRT que a atmosfera estava “relativamente boa“, com frutas e vegetais frescos ainda chegando a bordo. Ela elogiou a tripulação.
“Estamos todos no mesmo barco, literalmente”, disse ela.
Goessaert disse que, depois de águas agitadas no início da viagem, os passageiros não se abalam facilmente.
“Acho que as pessoas a bordo aguentam alguns trancos”, disse ela.
AMSTERDÃ, 6 Mai (Reuters)

