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A sequência de ventanias, ciclones, tornados, ondas de calor, terremotos e episódios de atividade vulcânica observada em 2026 produziu uma sensação de que o planeta entrou em uma fase excepcional de instabilidade. A preocupação é legítima, mas a explicação científica exige separar fenômenos que têm causas diferentes.
Os dados apontam para um quadro de extremos meteorológicos favorecido por oceanos mais quentes e pelo desenvolvimento de um episódio de El Niño. Ao mesmo tempo, grandes terremotos e a atividade do vulcão Kīlauea, no Havaí, fazem parte de processos geológicos que não podem ser automaticamente atribuídos ao aquecimento global.
A cronologia ampla de acontecimentos entre janeiro e agosto, que ocorreram puderam ser confirmados com comunicados de organismos como a Organização Meteorológica Mundial, o Copernicus, o Serviço Geológico dos Estados Unidos e autoridades locais.

O clima está mais quente e mais carregado de energia
A Organização Meteorológica Mundial informou em junho que as condições de El Niño estavam se desenvolvendo no Pacífico Equatorial. A entidade estimou probabilidade de oitenta por cento de ocorrência do fenômeno entre junho e agosto e probabilidades próximas ou superiores a noventa por cento de continuidade até pelo menos novembro. A previsão indicava um evento pelo menos moderado e possivelmente forte.
El Niño é uma oscilação natural do sistema oceano-atmosfera que altera os padrões de chuva, temperatura e circulação de ventos em várias partes do mundo. Ele não produz o mesmo efeito em todos os países, mas pode elevar a probabilidade de calor extremo, secas, chuvas intensas e tempestades em regiões específicas.
A própria Organização Meteorológica Mundial faz uma ressalva importante: não há evidência de que a mudança climática aumente a frequência ou a intensidade dos episódios de El Niño. O aquecimento provocado pela atividade humana, contudo, pode ampliar seus efeitos porque uma atmosfera e um oceano mais quentes conseguem armazenar e transportar mais energia e umidade.
O boletim do serviço europeu Copernicus indica que julho de 2026 foi o segundo julho mais quente já registrado no conjunto de dados ERA5, empatado com julho de 2024 e atrás do recorde de julho de 2023. A temperatura média da superfície global ficou 1,47 °C acima da estimativa para o período pré-industrial. O mesmo boletim apontou que a temperatura da superfície dos oceanos extratropicais foi a mais alta já registrada para um mês de julho.
Ventanias e ciclones atingem o Brasil
No início de agosto, um ciclone-bomba avançou pelo Sul e pelo Sudeste do Brasil. Segundo a BBC News Brasil, os ventos superaram 120 km/h em alguns pontos, houve uma morte no Rio Grande do Sul, um tornado associado a uma supercélula e quase 300 mil imóveis ficaram sem energia no estado durante o auge do temporal.Em Porto Alegre, a maior rajada registrada no aeroporto Salgado Filho chegou a 120,4 km/h. Em Santos, no litoral paulista, a Defesa Civil mediu 109 km/h. O sistema também provocou destelhamentos, queda de árvores, interrupções em serviços e suspensão preventiva de atividades em cidades do Sul e do Sudeste.
No Rio de Janeiro, o Centro de Operações e Resiliência manteve a capital em Estágio 2 nos dias 20 e 21 de agosto devido à previsão de ventos fortes, com rajadas de intensidade muito forte acima de 76 km/h e possibilidade de chegar a 90 km/h. A orientação oficial foi evitar áreas arborizadas, estruturas provisórias e deslocamentos desnecessários durante o período de maior risco.
O episódio de Reserva, no Paraná, também foi confirmado pelo Simepar como um tornado F2, com ventos estimados em torno de 200 km/h. A classificação foi baseada no padrão de destruição e em uma vistoria técnica, e não apenas em uma medição direta da velocidade do vento.
A combinação de massas de ar quente e frio, frentes frias, sistemas de baixa pressão e umidade elevada favorece tempestades severas no Sul e no Sudeste. Em um planeta mais aquecido, a atmosfera pode fornecer mais vapor de água e energia para determinados eventos, o que aumenta o potencial de chuva intensa, ondas de calor e alguns tipos de tempestade. Isso não significa que todo vendaval individual seja causado exclusivamente pela mudança climática.
Terremotos: o que os dados mostram
Um terremoto de magnitude 7,4 atingiu o departamento de Chocó, na Colômbia, em 10 de agosto. De acordo com um alerta da Embaixada dos Estados Unidos baseado em informações do Serviço Geológico dos Estados Unidos, o epicentro ficou aproximadamente cinco quilômetros a leste de San José del Palmar. O tremor foi sentido em Bogotá, e as autoridades alertaram para a possibilidade de réplicas.
O Serviço Geológico dos Estados Unidos explica que terremotos ocorrem quando blocos da crosta terrestre deslizam ao longo de falhas, liberando a energia acumulada pelo movimento das placas tectônicas. A maior parte dos grandes sismos está concentrada nos limites dessas placas.
A ocorrência de vários terremotos noticiados em diferentes continentes no mesmo ano não prova, por si só, que a atividade sísmica global tenha aumentado. O USGS afirma que períodos de aumento ou redução da sismicidade fazem parte da variação natural e que uma maior quantidade de registros também pode ser consequência da expansão das redes de instrumentos e da capacidade de detecção.
O órgão também não reconhece a existência de um “tempo de terremoto”. Grandes sistemas de baixa pressão podem, em circunstâncias específicas, produzir pequenos episódios de deslizamento lento de falhas e talvez influenciar alguns tremores, mas os números são reduzidos e sem significância estatística para explicar grandes terremotos. Não há base científica para afirmar que ventanias, calor ou El Niño tenham causado o terremoto colombiano.
Kīlauea: atividade vulcânica não significa descontrole climático
O Kīlauea, no Havaí, permaneceu sob monitoramento contínuo do Observatório Vulcanológico Havaiano, ligado ao USGS. Na atualização de 21 de agosto, o órgão informou que o vulcão não estava em erupção naquele momento e que a atividade no cume estava pausada. A previsão era de possível novo episódio de fontes de lava entre 22 e 27 de agosto, com nível de alerta “advisory” e código de aviação amarelo.
O episódio anterior, encerrado em 13 de agosto, começou no dia 12 e teve fontes de lava de aproximadamente 150 metros acima do solo. O Kīlauea vem apresentando erupções episódicas desde dezembro de 2024, com pausas entre os episódios. Esse registro oficial corrige a descrição de atividade “contínua” e de fontes de 200 metros apresentada no PDF, que não corresponde à atualização mais recente do USGS.
Vulcões podem influenciar o clima, mas a relação mais conhecida ocorre no sentido inverso ao sugerido por algumas interpretações populares. Grandes erupções explosivas lançam dióxido de enxofre e aerossóis na estratosfera, refletindo parte da radiação solar e provocando resfriamento temporário. O USGS informa ainda que as emissões vulcânicas atuais de dióxido de carbono são muito menores que as emissões produzidas pelas atividades humanas.Até o momento, não há evidência de que o aquecimento global esteja provocando diretamente a sequência de erupções do Kīlauea ou os grandes terremotos registrados em 2026. Esses fenômenos precisam ser acompanhados por observatórios geológicos, não por previsões meteorológicas.
Então, o que está acontecendo com o nosso planeta?
A resposta mais precisa é que diferentes processos estão ocorrendo ao mesmo tempo. O sistema climático está mais quente, e o El Niño adiciona uma fonte natural de variabilidade capaz de reorganizar padrões de chuva e temperatura. Essa combinação torna mais provável a ocorrência de extremos em determinados lugares, mas não transforma cada evento em consequência automática da mudança climática.
Terremotos e erupções seguem a dinâmica das placas tectônicas, do magma e das falhas geológicas. O fato de aparecerem na mesma linha do tempo de uma onda de calor ou de um ciclone não estabelece uma causa comum. A impressão de simultaneidade também é reforçada pela cobertura em tempo real, por redes de monitoramento mais amplas e pela exposição de populações e infraestruturas em áreas de risco.

O cenário exige duas respostas complementares. Para o clima, são necessárias redução de emissões, adaptação urbana, sistemas de alerta e preparação para calor, chuva, seca e ventos extremos. Para terremotos e vulcões, a prioridade é manter redes de monitoramento, planos de evacuação, normas de construção e comunicação pública baseada em evidências.A mensagem central dos dados não é que o planeta esteja “perdendo o controle”, mas que a sociedade está mais exposta a riscos simultâneos e precisa distinguir suas causas. Entender essa diferença é essencial para evitar alarmismo, combater informações imprecisas e orientar medidas de proteção que realmente funcionem.
Fontes consultadas
Relatório Global de Fenômenos Naturais Extremos, edição de 10 de agosto de 2026. IESA UFG
Organização Meteorológica Mundial — Prepare for El Niño
Copernicus Climate Change Service — Julho de 2026 e as temperaturas globais e oceânicas
USGS — Atualização do vulcão Kīlauea
USGS — A ciência dos terremotos
USGS — Existe “tempo de terremoto”?
USGS — Vulcões podem afetar o clima
Embaixada dos Estados Unidos na Colômbia — Alerta sobre o terremoto de magnitude 7,4 em Chocó
SGB – Serviço Geológico do Brasil
SGB – Serviço Geológico da Venezuela
INMET

