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Olhar para cima, repetir a palavra “sabe” ou desviar os olhos são sinais de mentira? O debate presidencial levanta uma questão que vai muito além da política.
Por Leo Oliveira | Psicanalista
Durante o debate presidencial realizado pela Band, neste domingo, 18 de outubro, entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, uma questão interessante surgiu em meio às acusações e divergências políticas: seria possível identificar uma mentira observando os gestos e os hábitos de linguagem de alguém?
Lula sugeriu que os espectadores observassem os olhos de seu adversário, argumentando que a mentira estaria nos olhos, e não nas palavras.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, apontou um suposto padrão no comportamento de Lula: segundo sua interpretação, o presidente olhava para cima e utilizava a palavra “sabe” antes de apresentar afirmações que Flávio considerava mentirosas.
Duas interpretações diferentes, mas que partem de uma crença semelhante: a de que o corpo e determinados hábitos de fala seriam capazes de denunciar uma mentira.
Mas será que isso realmente funciona?
QUANDO OLHAR PARA CIMA VIRA SINAL DE MENTIRA ?
A observação atribuída a Flávio Bolsonaro chama a atenção porque combina dois comportamentos bastante comuns na comunicação humana: o movimento dos olhos e a repetição de uma palavra.
Olhar para cima durante uma conversa pode ter diversas explicações.
Uma pessoa pode estar tentando recuperar uma informação da memória, organizar um pensamento, buscar uma palavra, esconder algo ou simplesmente apresentar um hábito corporal.
E quanto à palavra “sabe”?
Na linguagem cotidiana, existem expressões utilizadas para preencher pausas, organizar ideias ou estabelecer uma conexão com o interlocutor.
Algumas pessoas repetem “né”, outras dizem “entendeu?”, “veja bem”, “então” ou “sabe”.
Essas expressões são conhecidas como marcadores discursivos e podem fazer parte do estilo pessoal de comunicação.
O fato de alguém repetir uma palavra antes de determinadas afirmações não permite concluir que esteja mentindo, mas podemos concluir talvez um ato falho.
Para estabelecer essa relação, seria necessário demonstrar que o comportamento ocorre de maneira consistente diante de informações falsas e que não aparece, na mesma proporção, quando a pessoa está dizendo a verdade.
Perceber um padrão de comportamento não significa necessariamente compreender sua causa.
E QUANDO LULA DIZ QUE A MENTIRA ESTÁ NOS OLHOS?
Do outro lado, Lula também recorreu a uma interpretação bastante popular.
A ideia de que os olhos revelam a verdade acompanha nossa cultura há gerações.
Quantas vezes ouvimos alguém dizer que uma pessoa honesta olha diretamente nos olhos?
O problema é que essa crença não possui a confiabilidade científica que muitas pessoas imaginam.
Alguém pode evitar o contato visual por timidez, ansiedade, insegurança ou desconforto diante de uma situação.
Da mesma maneira, uma pessoa pode sustentar o olhar com firmeza enquanto apresenta uma informação falsa.
O contato visual não é um detector de mentiras.
Portanto, tanto a interpretação atribuída a Flávio quanto a apresentada por Lula precisam ser observadas com cautela.
Não porque os gestos sejam irrelevantes, mas porque não podemos atribuir a eles significados universais.
O QUE A CIÊNCIA REALMENTE DIZ?
Uma pesquisa publicada em 2006 pelos pesquisadores Charles Bond e Bella DePaulo analisou estudos sobre a capacidade humana de identificar mentiras.
Os resultados apontaram uma precisão média de aproximadamente 54%.
Ou seja, as pessoas acertavam pouco mais do que acertariam por acaso.
Pesquisas posteriores também demonstraram que muitos dos sinais popularmente associados à mentira são pouco confiáveis quando utilizados isoladamente.
Isso nos apresenta uma realidade desconfortável: não somos tão bons em identificar mentirosos quanto gostaríamos de acreditar.
E talvez seja justamente essa dificuldade que explique o sucesso de tantas teorias simplificadas sobre linguagem corporal.
Elas oferecem uma sensação de controle.
Afinal, seria muito confortável acreditar que bastaria observar um gesto para descobrir se alguém está tentando nos enganar.
O QUE A PSICANÁLISE TEM A DIZER?
Sigmund Freud demonstrou, ao estudar os atos falhos e outras manifestações da vida cotidiana, que nem tudo aquilo que fazemos ou dizemos acontece de maneira inteiramente consciente.
Isso não significa, entretanto, que cada gesto seja uma confissão involuntária.
Um ato falho pode ter significado psíquico, mas não deve ser automaticamente interpretado como prova de mentira.
Na escuta psicanalítica, o contexto é fundamental.
O mesmo comportamento pode apresentar significados completamente diferentes dependendo da história e da singularidade de cada sujeito.
E existe outro elemento importante: nossa tendência de interpretar o comportamento alheio a partir das nossas próprias convicções.
Se acreditamos que determinada pessoa mente constantemente, podemos começar a interpretar qualquer gesto como confirmação dessa crença.
Se ela olha para cima, está inventando.
Se olha para baixo, está escondendo.
Se mantém contato visual, está tentando convencer.
Se demonstra nervosismo, está mentindo.
Perceba que, nesse cenário, a conclusão já está pronta antes mesmo da análise.
Não estamos mais procurando compreender o comportamento. Estamos procurando confirmar aquilo em que já acreditamos.
QUANDO A LINGUAGEM CORPORAL SE TORNA UMA ESTRATÉGIA POLÍTICA.
Um debate presidencial não é apenas uma conversa entre dois candidatos.
É também uma apresentação pública na qual cada participante procura transmitir suas mensagens aos espectadores.
Quando um candidato chama a atenção para determinado gesto do adversário, ele pode influenciar a maneira como o público passa a observar aquele comportamento.
Se alguém afirma que seu adversário olha para cima antes de mentir, os espectadores podem começar a prestar atenção nesse movimento.
Se outro afirma que a mentira está nos olhos, as pessoas podem passar a observar o contato visual como se fosse uma evidência.
Mas existe uma diferença entre direcionar a atenção do público e demonstrar que uma interpretação é verdadeira.
A linguagem corporal pode influenciar a percepção de sinceridade, mas não substitui a verificação dos fatos.
O problema começa quando uma impressão passa a ser tratada como prova.
O PERIGO DE ACREDITAR QUE SABEMOS LER AS PESSOAS.
Essa discussão ultrapassa o universo político.
Quantas pessoas já foram acusadas de mentir simplesmente porque ficaram nervosas durante uma conversa?
Quantos relacionamentos foram prejudicados porque alguém interpretou um olhar desviado como sinal de traição?
Quantas pessoas acreditaram em histórias falsas porque foram contadas com tranquilidade e segurança?
Existe uma diferença enorme entre parecer sincero e realmente estar dizendo a verdade.
Em nossos relacionamentos, assim como na política, precisamos tomar cuidado para não transformar interpretações pessoais em sentenças definitivas.
Nem toda hesitação esconde uma mentira.
Nem toda repetição de palavras representa uma tentativa de manipulação.
E nem todo discurso apresentado com firmeza merece confiança automática.
CONSIDERAÇÕES FINAIS.
O debate entre Lula e Flávio Bolsonaro trouxe uma oportunidade interessante para refletirmos sobre nosso comportamento diante daquilo que consideramos verdadeiro ou falso.
De um lado, a interpretação de que olhar para cima e repetir a palavra “sabe” poderia anteceder uma mentira.
Do outro, a afirmação de que os olhos seriam capazes de revelar a desonestidade.
Mas a verdade é que nenhuma dessas interpretações, isoladamente, permite identificar uma mentira com segurança.
Se queremos avaliar a veracidade de uma declaração política, precisamos examinar fatos, documentos, números, contradições e evidências verificáveis.
Os gestos podem despertar curiosidade. As palavras podem despertar desconfiança. Mas nenhum deles, sozinho, deve servir como sentença.
Talvez o maior perigo não esteja em deixar de perceber uma mentira, mas em acreditar que somos incapazes de ser enganados.
Porque quem acredita que consegue identificar todas as mentiras através de um simples gesto pode acabar sendo enganado justamente por alguém que aprendeu a parecer convincente.
E deixo uma reflexão:
Será que estamos realmente procurando descobrir quem está falando a verdade ou apenas buscando nos gestos do outro uma confirmação daquilo em que já acreditamos?
FONTES E REFERÊNCIAS
- Bond, C. F. Jr. & DePaulo, B. M. (2006). Accuracy of Deception Judgments. Personality and Social Psychology Review.
- Vrij, A., Hartwig, M. & Granhag, P. A. (2019). Reading Lies: Nonverbal Communication and Deception. Annual Review of Psychology.
- Freud, Sigmund (1901). Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana.
- Band — Debate presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro, 18 de outubro de 2026.
- Folha de S.Paulo — Cobertura do debate presidencial de 18 de outubro de 2026.
NOTA EDITORIAL
Este artigo apresenta uma análise reflexiva sobre linguagem corporal, comunicação política e comportamento humano, fundamentada em conceitos psicanalíticos e pesquisas científicas.
As interpretações atribuídas aos candidatos são apresentadas como alegações feitas no contexto do debate, não como comprovações de mentira. O artigo não pretende determinar qual candidato foi verdadeiro ou falso, mas esclarecer os limites científicos da leitura corporal e incentivar a análise crítica das informações.

