A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) confirmou na noite desta quinta-feira (11) a ocorrência de um incidente com material radioativo no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), localizado no campus da Universidade de São Paulo (USP), na Zona Oeste da capital paulista. O caso envolveu a exposição de dois servidores ao isótopo tecnécio-99.
De acordo com o Relatório de Ocorrência Interna (ROI) divulgado pelo órgão, o episódio ocorreu em 22 de maio — ou, segundo outras informações do próprio órgão, em 29 de maio — durante a retirada de sensores biológicos de uma autoclave, equipamento utilizado na produção de radiofármacos. O relatório foi comunicado à CNEN no dia 29 de maio, uma semana após a data inicialmente reportada.
O caso veio a público após o Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Federal no Estado de São Paulo (Sindsef-SP) e a Associação dos Servidores do Ipen(Assipen) cobrarem esclarecimentos sobre a ocorrência.
Contaminação restrita a roupas e área controlada
Segundo a CNEN, dois trabalhadores classificados como Indivíduos Ocupacionalmente Expostos (IOEs) foram submetidos a exames de Contador de Corpo Inteiro (CCI), equipamento que detecta material radioativo no organismo. As contagens detectadas foram baixas e comprovaram que não houve contaminação interna dos profissionais.
O Ipen informou na madrugada desta sexta-feira (12) que a contaminação ficou restrita à área controlada do Centro de Radiofarmácia do instituto. Apenas a vestimenta de um dos servidores apresentou contaminação. Relatos complementares indicam que o calçado de um segundo profissional também foi atingido por resíduos no ambiente.
“A contaminação ficou restrita à área controlada do Centro de Radiofarmácia do Instituto”, afirmou a CNEN em nota. O órgão pontuou que a contaminação de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) pode ocorrer eventualmente, mas que os profissionais realizam monitoramento constante da radioatividade a que são expostos.
Nenhum funcionário permanece sob observação
Conforme a CNEN, a análise detalhada e as medições foram realizadas por profissionais habilitados em proteção radiológica. Por não haver sequelas ou riscos residuais, nenhum funcionário permanece sob observação médica.
O tecnécio-99 é um isótopo radioativo amplamente utilizado em medicina nuclear, especialmente em exames de diagnóstico por imagem. Sua meia-vida curta — cerca de seis horas — reduz o potencial de permanência no organismo. O Ipen fornece radiofármacos para cerca de 430 clínicas e hospitais no país.
Sindicato e associação cobram transparência e apontam problemas estruturais
Em documento, o Sindsef-SP e a Assipen afirmaram a necessidade de divulgação de informações oficiais sobre o material envolvido, o número de trabalhadores potencialmente atingidos, os níveis de contaminação detectados e os riscos à saúde dos envolvidos.
As entidades afirmam que a situação teria exigido procedimentos emergenciais de descontaminação radiológica, retenção de roupas utilizadas por trabalhadores, incluindo terceirizados, e atuação da equipe de Proteção Radiológica. Segundo os sindicatos, parte dos procedimentos de descontaminação teria ocorrido em locais não destinados especificamente para esse tipo de atendimento.
As entidades também relacionam o incidente a problemas estruturais do instituto nos últimos anos: cortes orçamentários, redução do quadro de pessoal, atraso superior a um ano na realização de exames médicos específicos de servidores e necessidade de investimentos em infraestrutura.
Investigação segue com ANSN
O relatório da CNEN foi encaminhado para avaliação da Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN). À reportagem, a ANSN informou que tomou conhecimento do caso por meio de denúncia anônima e que a apuração foi encaminhada à Diretoria de Instalações Radiativas e Controle (DIRC), responsável pela análise técnica da ocorrência.
“Todas as denúncias recebidas são tratadas com a devida seriedade e submetidas aos procedimentos de apuração cabíveis”, afirmou a ANSN, que aguarda informações adicionais do Ipen.
Os funcionários envolvidos passaram por novos treinamentos, e o caso segue sob avaliação interna do Ipen. Até o momento, não há evidências de que o incidente tenha afetado a população em geral.
Fonte: Agência Brasil, CNEN/GOV

