Justiça

Caso Lulinha: gabinete de Mendonça rebate suspeitas e defende investigação sobre vazamentos

Ministro do STF determinou que a Polícia Federal apure a origem de informações sigilosas; assessoria afirma que agentes cedidos ao gabinete não participam de investigações e nega envolvimento na divulgação de dados

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O gabinete do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, reagiu às suspeitas de que vazamentos de dados e documentos relacionados ao caso de Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, poderiam ter origem no próprio tribunal. Em manifestação divulgada em 22 de agosto de 2026, a assessoria afirmou que os agentes da Polícia Federal que trabalham na equipe do ministro não atuam em investigações e defendeu que a origem das informações seja apurada.

A reação ocorreu depois de a defesa da empresária Roberta Luchsinger pedir a ampliação da investigação sobre o vazamento de conversas mantidas com Lulinha. O pedido abrangeu agentes da Polícia Federal e servidores do STF que tiveram acesso aos autos, incluindo delegados cedidos ao gabinete de Mendonça. A Polícia Federal e o gabinete do ministro negam participação nos vazamentos.

O que Mendonça determinou

Em 21 de agosto, Mendonça determinou que a Polícia Federal investigasse novos vazamentos de informações sigilosas relacionados aos inquéritos envolvendo Lulinha. A medida atendeu a um pedido apresentado pela defesa do empresário depois da publicação de reportagens que reproduziram mensagens privadas e detalhes de procedimentos sob sigilo.

A decisão, segundo o g1 e a Folha de S.Paulo, estabeleceu que a apuração deve buscar quem tinha o dever funcional de preservar o sigilo dos autos. O ministro também determinou que jornalistas e responsáveis pela publicação das reportagens não sejam tratados como alvo da investigação e reforçou a garantia constitucional do sigilo da fonte.

“A investigação não deve ter como foco os autores ou quaisquer responsáveis pela veiculação das notícias jornalísticas”, afirmou Mendonça, conforme os trechos reproduzidos pelas reportagens.

O ponto central da medida é distinguir a divulgação jornalística de uma eventual violação anterior do sigilo. A publicação de informações obtidas por jornalistas não prova, por si só, quem forneceu o material nem como ele foi obtido. Essa origem deverá ser esclarecida pela investigação policial.

A resposta do gabinete

O gabinete de Mendonça negou que os delegados da Polícia Federal que atuam na equipe do ministro participem de investigações. A assessoria também rejeitou a afirmação de que um dos agentes tenha participado de dossiês antifascistas durante o período em que Mendonça ocupou o Ministério da Justiça.

A manifestação ocorreu em meio a uma disputa de versões entre integrantes do gabinete do ministro e setores ligados à direção da Polícia Federal. De acordo com a reportagem do g1 de 1º de agosto, assessores de Mendonça levantaram suspeitas sobre eventual repasse de informações ao Palácio do Planalto. Policiais próximos ao diretor da PF, Andrei Rodrigues, por sua vez, sustentaram que os vazamentos poderiam ocorrer quando dados chegavam ao gabinete do relator.Essas versões permanecem como alegações conflitantes. Até o momento, não há comprovação pública de que o gabinete de Mendonça tenha vazado informações nem de que a direção da Polícia Federal tenha abastecido qualquer grupo político com dados protegidos por sigilo.

Um assessor do ministro afirmou que o dado concreto é o reforço de Mendonça para que os vazamentos sejam investigados. A posição oficial do gabinete, portanto, é de negar envolvimento e defender a apuração da cadeia de custódia das informações.

Três inquéritos conhecidos

As reportagens consultadas informam que há três procedimentos conhecidos envolvendo Lulinha. Dois foram distribuídos ao gabinete de André Mendonça e um está sob relatoria do ministro Flávio Dino. Os autos tramitam sob sigilo, e os detalhes divulgados publicamente são parciais.

O primeiro inquérito sob relatoria de Mendonça apura se Lulinha teria atuado para facilitar o acesso do lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, a autoridades do Ministério da Saúde em negociações relacionadas a produtos à base de cannabis. A Polícia Federal investiga hipóteses como tráfico de influência e corrupção. As reportagens informam que não foi fechado contrato para o fornecimento do produto.

O segundo procedimento envolve a suspeita de que Lulinha teria atuado para favorecer interesses privados em contratos da Dataprev, empresa pública ligada à gestão de dados sociais do governo federal e do INSS.O terceiro inquérito, relatado por Flávio Dino, também examina a hipótese de atuação de Lulinha em favor de empresas junto ao governo federal. Em 4 de agosto, Dino autorizou a abertura desse procedimento e determinou uma investigação sobre vazamentos relacionados aos pedidos feitos pela Polícia Federal.

A existência de inquéritos significa que fatos estão sendo investigados. Não equivale a denúncia do Ministério Público, condenação ou comprovação dos crimes suspeitos. A defesa de Lulinha nega todas as acusações e afirma que ele demonstrará não ter relação direta ou indireta com irregularidades.

Como os vazamentos entraram no caso

A primeira frente pública sobre o tema surgiu quando a defesa de Roberta Luchsinger pediu a abertura de um inquérito para investigar o eventual vazamento de conversas entre ela e Lulinha. Segundo o g1, a defesa baseou o pedido em reportagem segundo a qual a campanha de Flávio Bolsonaro teria tido acesso às conversas, que estavam protegidas por sigilo judicial no âmbito da Operação Sem Desconto.

O pedido incluiu servidores e policiais com acesso aos autos. A defesa também solicitou medidas de busca e apreensão em computadores, celulares e outros equipamentos, mas a existência de um vazamento e sua autoria ainda dependem de investigação.

Na sequência, a defesa de Lulinha pediu a inclusão de novos episódios na apuração. O ministro Mendonça ampliou o escopo da investigação, sem autorizar que a Polícia Federal transformasse jornalistas ou suas fontes no objeto central do procedimento.

A defesa do empresário passou a classificar os vazamentos como seletivos e criminosos e afirmou que setores da Polícia Federal poderiam agir com interesses políticos e eleitorais. Trata-se da versão da defesa, que não foi comprovada por decisão judicial ou conclusão oficial divulgada publicamente.

A disputa sobre a permanência no STF

A Procuradoria-Geral da República pediu que os dois inquéritos sob relatoria de Mendonça fossem enviados à primeira instância da Justiça Federal. Segundo a BBC News Brasil e o g1, a justificativa é que, até aquele momento, as investigações não teriam confirmado a participação de autoridades com foro por prerrogativa de função.

O pedido da PGR não foi divulgado integralmente porque os inquéritos estão sob sigilo. Interlocutores de Mendonça afirmaram que mensagens apreendidas mencionariam autoridades com foro, mas as reportagens ressalvam que o contexto dessas menções e a existência de indícios de crime ainda não estavam esclarecidos.

A controvérsia envolve a competência do tribunal para manter no STF investigações contra pessoas sem foro especial quando há possível conexão com autoridades que têm essa prerrogativa. Especialistas ouvidos pela BBC consideraram a iniciativa da PGR atípica, mas também afirmaram que não é possível avaliar definitivamente a competência sem acesso ao conteúdo do pedido e dos autos.

O pano de fundo do caso

A repercussão atual também recuperou episódios anteriores envolvendo negócios de Lulinha. A BBC recordou que investigações sobre repasses da Telemar, atual Oi, à Gamecorp foram abertas em anos anteriores e posteriormente arquivadas. Uma apuração foi encerrada em 2012; outra, relacionada à Lava Jato, foi arquivada em 2022 após decisões judiciais que reconheceram a suspeição do então juiz Sergio Moro e invalidaram atos ligados a quebras de sigilo.

Esses antecedentes explicam por que o nome de Lulinha voltou a ocupar o centro do debate político, mas não comprovam as suspeitas dos inquéritos atuais. Cada procedimento tem objeto e fundamentos próprios, e informações de investigações anteriores não podem ser tratadas como prova automática nos processos em andamento.

O que está confirmado e o que permanece sob investigação

Está confirmado que André Mendonça determinou a ampliação de uma investigação sobre vazamentos, que a decisão reforçou o sigilo da fonte jornalística e que o gabinete do ministro negou envolvimento na divulgação de informações protegidas.

Também está confirmado, segundo as reportagens consultadas, que existem três procedimentos conhecidos envolvendo Lulinha, dois sob relatoria de Mendonça e um sob relatoria de Dino, além de investigações específicas sobre a origem de vazamentos.Ainda não está comprovado que o gabinete de Mendonça, a direção da Polícia Federal ou qualquer servidor específico tenha sido responsável pelos vazamentos.

Também não está comprovado que Lulinha tenha cometido tráfico de influência, corrupção, lavagem de dinheiro ou organização criminosa. Essas são hipóteses de investigação, e as defesas dos envolvidos negam irregularidades.

O próximo passo dependerá da coleta de provas pela Polícia Federal, da análise do pedido da PGR sobre a competência do STF e de eventuais manifestações formais do Ministério Público. Enquanto os autos permanecerem sob sigilo, a divulgação de versões parciais exige cautela para que suspeitas não sejam apresentadas como conclusões.

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Luiz Gomes
Sobre o autor

Luiz Gomes

Luiz Gomes é redator de notícias e produtor de conteúdo digital, Atua a mais de 20 anos como professor de Geografia com foco em Geopolítica.

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