Cultura

Brincadeira de infância no Rio de Janeiro evolui para favela em miniatura de 450 metros quadrados e conquista projeção internacional

Aos 14 anos, um jovem do Rio de Janeiro começou a construir, no quintal da comunidade Pereira da Silva, uma favela em miniatura usando tijolos reaproveitados, tinta e bonecos.

Getting your Trinity Audio player ready...

Rio de Janeiro, 20 de Agosto de 2026

Iniciado em 1997 no alto da comunidade do Pereirão, no bairro de Laranjeiras, na zona sul do Rio de Janeiro, o Projeto Morrinho transformou-se em uma das mais emblemáticas iniciativas de arte urbana e inclusão social do país. O que começou como uma simples brincadeira de duas crianças, Cirlan Souza de Oliveira, então com 14 anos, e seu irmão mais novo Maycon, evoluiu para uma imensa maquete a céu aberto que hoje ocupa 450 metros quadrados, reproduzindo com riqueza de detalhes a arquitetura, o cotidiano e a dinâmica social das favelas cariocas por meio de tijolos reaproveitados, tinta e bonecos artesanais.

A construção reproduz fielmente becos estreitos, escadarias íngremes, casas coloridas empilhadas sobre o barranco, além de comércios, escolas, campos de futebol e espaços de lazer [1] [3]. Ao longo das décadas, a iniciativa ultrapassou os limites geográficos da comunidade carioca, despertando o interesse de cineastas, pesquisadores e curadores de arte contemporânea, o que levou o projeto a figurar em mostras internacionais de destaque, como a Bienal de Arte de Veneza, além de museus na Europa, Estados Unidos e América do Sul.

Do Reuso de Materiais ao Reconhecimento Cinematográfico

A gênese do Morrinho esteve estritamente vinculada à escassez de recursos e à criatividade dos jovens moradores. Utilizando restos de materiais de construção, tijolos descartados e garrafas PET recolhidos na própria comunidade, os fundadores moldaram um microcosmo urbano que gradualmente passou a atrair outras crianças e adolescentes da vizinhança, expandindo a ocupação do terreno baldio cedido espontaneamente pela vizinhança.

O potencial artístico e sociológico da maquete chamou a atenção do cineasta Fábio Gavião, que documentou a evolução da iniciativa no aclamado filme Morrinho, Deus sabe tudo, mas não é X9. A parceria resultou não apenas no registro cinematográfico, mas também na criação de oficinas de capacitação audiovisual, dando origem à “TV Morrinho”, projeto no qual os próprios jovens passaram a produzir curtas-metragens utilizando os cenários e bonecos da maquete como locação.

“A ideia era brincar. A gente não tinha o que fazer, então começou a criar o que via. A retratar o tráfico, o moto-táxi, o baile funk. Tentamos mostrar a realidade, o bem e o mal”, relata Cirlan Souza de Oliveira sobre a concepção original da obra.

Impacto Cultural e Diálogo Social

Especialistas em arte contemporânea e antropologia urbana destacam que o Projeto Morrinho cumpre um duplo papel: funciona tanto como uma escultura site-specific de valor estético inquestionável quanto como uma plataforma legítima de representação e protagonismo das periferias [2] [3]. Ao retratar a favela a partir do olhar interno de seus habitantes, longe de estereótipos estigmatizados, a obra desconstrói preconceitos e promove debates profundos sobre urbanismo, cidadania e desigualdade social no Brasil.

Redes sociais
Luiz Gomes
Sobre o autor

Luiz Gomes

Luiz Gomes é redator de notícias e produtor de conteúdo digital, Atua a mais de 20 anos como professor de Geografia com foco em Geopolítica.

Deixe uma resposta