Levantamento da Repórteres Sem Fronteiras aponta melhora da posição brasileira e piora dos Estados Unidos, em um cenário de retração global da liberdade de imprensa.
Brasil avança no ranking global
O Brasil subiu cinco posições no ranking mundial de liberdade de imprensa da Repórteres Sem Fronteiras (RSF) e chegou ao 52º lugar, ultrapassando os Estados Unidos pela primeira vez. O dado foi divulgado nesta quinta-feira, 30 de abril de 2026, em levantamento que avalia a situação da imprensa em 180 países e territórios.
A melhora brasileira chama atenção porque ocorre em meio a um cenário internacional de piora generalizada. Segundo a RSF, a liberdade de imprensa no mundo atingiu o nível mais baixo em 25 anos, com mais da metade dos países avaliados em situação difícil ou muito grave.
Estados Unidos caem para 64º
Enquanto o Brasil avançou, os Estados Unidos recuaram sete posições e foram para o 64º lugar. O resultado reforça a deterioração do ambiente para o jornalismo no país, em meio a pressões políticas e desgaste institucional apontados pela RSF.
A comparação entre os dois países marca a primeira vez que o Brasil aparece à frente dos Estados Unidos nesse ranking, segundo a reportagem do G1.
A queda dos EUA e o papel de Donald Trump nisso
A RSF é direta ao apontar as razões da deterioração da liberdade de imprensa nos Estados Unidos. Sob líderes como Donald Trump, Javier Milei e Nayib Bukele, o jornalismo está sendo crescentemente criminalizado e exposto à violência em toda a região das Américas. No caso específico dos EUA, o segundo mandato de Donald Trump como presidente levou a uma deterioração alarmante da liberdade de imprensa, indicativa de uma inflexão autoritária no governo: sua administração usou instituições como armas, cortou o apoio à mídia independente e marginalizou repórteres, enquanto a confiança na mídia despencou e os veículos de jornalismo local estão desaparecendo, transformando vastas regiões do país em “desertos de notícias“. Trump também encerrou o financiamento federal para a Agência dos Estados Unidos para a Mídia Global (USAGM), que distribui recursos a importantes organizações de mídia internacionais, afetando audiências e veículos em todo o mundo.
A Noruega no topo pelo décimo ano consecutivo e os piores colocados
A Noruega mantém a primeira posição pelo décimo ano consecutivo, enquanto a Eritreia (Nordeste da África) ocupa o último lugar pelo terceiro ano seguido.
Entre os casos que mais chamaram atenção nesta edição, a Síria após queda do governo de Bashar al-Assad registrou a maior melhora de liberdade de imprensa de todos os países e territórios do índice de 2026, subindo 36 posições no ranking.
No outro extremo, o Níger registrou a maior queda da edição, caindo 37 posições, o que evidencia o colapso da liberdade de imprensa na região do Sahel nos últimos anos em razão dos ataques de grupos armados e juntas militares no poder.
A China, que permanece na 178ª posição, exemplifica a tendência global de criminalização da imprensa, sendo o país com o maior número de jornalistas detidos no mundo, com 121 profissionais de mídia atualmente atrás das grades.
A Rússia de Vladimir Putin ocupa a 172ª posição e, em abril de 2026, o país mantinha 48 jornalistas presos, com profissionais que desejam continuar seu trabalho sendo forçados ao exílio, onde ainda não conseguem escapar da perseguição jurídica.
O cenário global de violência contra jornalistas também é alarmante. Israel responde por mais de 43% dos assassinatos de jornalistas na Faixa de Gaza. No mundo, 67 jornalistas foram mortos desde dezembro de 2024, quase 80% por forças armadas ou por redes ligadas ao crime organizado, e na América Latina o México é o primeiro país mais perigoso para jornalistas, com nove mortes só em 2025.
O que mede o ranking
O ranking da RSF compara o grau de liberdade desfrutado por jornalistas e meios de comunicação em diferentes países, considerando fatores políticos, econômicos, legislativos, sociais e de segurança. A classificação é usada como um dos principais termômetros internacionais sobre a saúde da imprensa.
Na edição mais recente, a RSF destacou que a pressão sobre o jornalismo vem se agravando em várias frentes, com impacto de guerras, autoritarismo, hostilidade política e uso de leis de segurança nacional para limitar a cobertura jornalística.
Brasil ainda está longe do topo
Apesar do avanço, a posição brasileira ainda mostra que o país não está entre os líderes mundiais em liberdade de imprensa. O resultado, porém, representa uma melhora relevante em relação aos anos anteriores e reforça uma tendência de recuperação gradual na avaliação da RSF. A própria organização informa que o Brasil ganhou 58 posições desde 2022.
A RSF afirma que o ambiente global para o jornalismo continua em deterioração, com a média mundial em seu pior nível em um quarto de século. O relatório também aponta que fatores econômicos estão sufocando redações em vários países, ao mesmo tempo em que aumenta a pressão política sobre repórteres e veículos de imprensa.
O caso brasileiro, nesse contexto, aparece como um contraste dentro de um quadro geral negativo, mas sem apagar os desafios internos ainda existentes para a liberdade de imprensa.
Fonte: G1, RSF















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