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Em entrevista ao Portal Arena Remix, a psicanalista e escritora fala sobre identidade, medo do abandono, acolhimento, responsabilidade clínica e os caminhos para a remissão dos sintomas do Transtorno de Personalidade Borderline.
Por Leo Oliveira — Psicanalista, escritor e colunista do Portal Arena Remix | Saúde e Bem-Estar.

Apresentação — Quem é Taty Ades?
O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) é frequentemente apresentado ao público por meio de suas manifestações mais difíceis: instabilidade emocional, impulsividade, medo do abandono e conflitos nos relacionamentos. Mas o que acontece quando o diagnóstico passa a definir uma pessoa por inteiro, deixando em segundo plano sua história, seus desejos e suas possibilidades de mudança?
É a partir dessa questão que o Arena Remix conversa com Taty Ades, psicanalista e escritora dedicada ao estudo do borderline e idealizadora do Método Costura, uma proposta de intervenção psicanalítica que organiza a investigação da história emocional, das formas de adaptação e da identidade com o uso, quando pertinente, de recursos simbólicos.
Conheço Taty há algum tempo e quis abrir espaço para que ela apresentasse, com suas próprias palavras, o caminho que a levou a desenvolver essa abordagem, seus fundamentos e os desafios envolvidos no cuidado a pessoas com TPB.
A entrevista também aborda uma questão decisiva: como diferenciar melhora clínica, remissão, recuperação e a ideia de cura? Ao longo de 20 perguntas, Taty fala de sua experiência, expectativas e resultados.
ENTREVISTA EXCLUSIVA:
O que a levou a escolher a psicanálise e a dedicar parte significativa da sua trajetória ao borderline?
A psicanálise me atraiu porque sempre acreditei que, por trás de um comportamento, existe uma história que precisa ser escutada. O ser humano não pode ser compreendido apenas por aquilo que manifesta. É necessário investigar também aquilo que não consegue dizer, aquilo que repete sem compreender e aquilo que aprendeu a esconder até de si mesmo.
Ao longo da minha trajetória como psicanalista, escritora e estudiosa da mente humana, encontrei no sofrimento das pessoas com Transtorno de Personalidade Borderline uma questão que me mobilizou profundamente: como alguém pode sentir tanto, sofrer tanto e, ao mesmo tempo, ter tanta dificuldade para encontrar estabilidade dentro de si?
Percebi que precisava olhar para além das crises, da impulsividade e das relações intensas. Queria compreender a constituição daquela identidade, os conflitos internos, as rupturas emocionais e as experiências que poderiam ajudar a explicar o sofrimento de cada indivíduo.
Foi dessa inquietação clínica, somada a anos de observação e trabalho com pacientes, que nasceu minha dedicação ao borderline e, posteriormente, o desenvolvimento do Método Costura.
Nunca quis olhar para essas pessoas como um conjunto de sintomas. Quis compreender o sujeito que existe por trás deles.
Qual foi sua maior descoberta clínica sobre o borderline, algo que ainda é pouco compreendido?
Uma das percepções mais importantes que desenvolvi ao longo da minha experiência foi a necessidade de investigar como a pessoa constrói, mantém e reconhece a própria identidade, especialmente quando essa experiência de si parece muito instável.
Em alguns pacientes, percebi que a dificuldade não estava apenas em regular as emoções. Havia também um sofrimento relacionado à continuidade de quem se sentiam ser. A maneira como se percebiam podia mudar intensamente conforme a relação, a possibilidade de rejeição ou a sensação de pertencimento.
Isso pode produzir uma experiência devastadora: a pessoa não sofre somente porque teme perder alguém. Em determinados momentos, pode sentir que está perdendo a si mesma.
Essa compreensão contribuiu para a construção do Método Costura, que propõe investigar as rupturas percebidas na história emocional, as formas de adaptação desenvolvidas ao longo da vida e a relação entre essas experiências e a identidade atual.
É importante dizer que o borderline é heterogêneo: nem todas as pessoas apresentam o mesmo funcionamento ou a mesma história. Minha proposta é justamente não reduzir o indivíduo a uma explicação única.
Uma pergunta fundamental para mim é: quem é essa pessoa quando não está tentando desesperadamente evitar a dor de ser abandonada?
Quando retiramos o diagnóstico e olhamos para o sujeito, quem encontramos?
Encontramos uma pessoa. Parece simples, mas essa afirmação precisa ser repetida porque, muitas vezes, o diagnóstico passa a ocupar todo o espaço da identidade de alguém.
Encontramos desejos, talentos, contradições, sonhos, afetos, medos e uma história singular. Encontramos alguém que pode amar profundamente, construir projetos, desenvolver autonomia e estabelecer relações saudáveis, embora precise, em determinados casos, de tratamento especializado para lidar com dificuldades emocionais significativas.
Em algumas pessoas com borderline, existe um conflito entre a necessidade de proximidade e o medo de sofrer dentro da própria relação. Elas podem desejar intensamente o vínculo e, ao mesmo tempo, experimentar um medo tão grande de rejeição que a relação se torna fonte de angústia.
Isso não significa que todas sejam iguais, nem que estejam condenadas a repetir esse padrão.
Gosto de lembrar que uma pessoa não é a pior reação que teve durante uma crise. É muito mais do que aquilo que manifesta nos momentos em que está sofrendo.
O diagnóstico pode nos ajudar a compreender parte do sofrimento, mas jamais deveria nos impedir de enxergar a pessoa inteira.
Por que o borderline ainda é associado à manipulação, à agressividade e à incapacidade de manter relacionamentos?
Acredito que isso aconteça, em parte, porque comportamentos intensos são frequentemente julgados sem que se procure compreender o sofrimento que pode estar por trás deles. Também existe uma tendência cultural de transformar experiências complexas em rótulos simples, especialmente nas redes sociais.
Uma reação emocional intensa pode ser difícil para quem a vivencia e para quem está ao seu redor. Pode haver conflitos, impulsividade, raiva e atitudes que machucam. Reconhecer isso é importante. Ter empatia não significa negar os danos que determinados comportamentos podem provocar.
O problema começa quando um comportamento é transformado em uma sentença sobre o caráter de uma pessoa.
Nem toda reação intensa é manipulação deliberada. Para avaliar a intenção de alguém, precisamos considerar o contexto, a capacidade de compreender as próprias ações e os padrões de comportamento, em vez de presumir que tudo seja calculado.
Também não podemos romantizar o sofrimento: pessoas com borderline precisam de acolhimento, mas também podem precisar aprender a reconhecer seus limites, assumir responsabilidades e desenvolver formas mais saudáveis de se relacionar.
A psicofobia aparece quando o diagnóstico é utilizado para desumanizar, ridicularizar ou desqualificar alguém.
Compreender não é justificar tudo. É substituir o preconceito pela possibilidade de tratamento, responsabilização e transformação.
Em que momento você percebeu que precisava desenvolver uma abordagem própria? Como nasceu o Método Costura?
O Método Costura nasceu de uma inquietação clínica construída ao longo de anos de trabalho e observação. Eu sentia a necessidade de organizar uma maneira de investigar não apenas os sintomas apresentados pelos pacientes, mas também a história emocional, as rupturas percebidas na trajetória de vida e as diferentes formas de ser que cada pessoa havia desenvolvido para se adaptar ao mundo.
Ao acompanhar pacientes com borderline, comecei a observar como determinadas experiências pareciam continuar presentes no modo de interpretar as relações, reagir à rejeição e perceber a si mesmos. Em alguns casos, havia uma distância significativa entre aquilo que a pessoa demonstrava para o mundo e aquilo que conseguia reconhecer como próprio.
Passei, então, a organizar essas observações em uma proposta terapêutica que reunisse investigação da história de vida, associação livre, análise das experiências emocionais, investigação das máscaras adaptativas e trabalho sobre a identidade.
O método foi sendo estruturado a partir da minha experiência clínica e da tentativa de compreender como essas dimensões poderiam ser trabalhadas de maneira integrada.
Não foi uma ideia que surgiu pronta. Foi um processo de observação, elaboração e organização de uma proposta que precisava ser sistematizada e, agora, também investigada cientificamente quanto aos seus resultados e limites.
O Método Costura nasceu da minha inquietação diante do sofrimento e da convicção de que precisamos continuar investigando novas possibilidades de compreender o ser humano.
O que está sendo costurado durante o processo terapêutico?
O nome é uma metáfora para o trabalho que proponho: investigar as experiências que marcaram a trajetória de uma pessoa e compreender como elas se relacionam com sua maneira atual de sentir, pensar, amar e se perceber.
Costuramos simbolicamente aquilo que parece desconectado na experiência subjetiva: lembranças, emoções, conflitos, modos de adaptação e aspectos da identidade que a pessoa tem dificuldade de reconhecer como partes de sua própria história.
Imagine alguém que aprendeu a ser forte para não demonstrar fragilidade, agradável para não perder o amor de alguém ou indiferente para não revelar o quanto se sente ferido. Essas formas de existir podem ter desempenhado funções adaptativas em determinados momentos da vida. Entretanto, podem se tornar fontes de sofrimento quando passam a limitar a espontaneidade e as relações.
No método, utilizo recursos simbólicos, como tecidos, imagens, objetos, desenhos e narrativas, quando pertinentes ao processo clínico. Eles podem ajudar o paciente a representar experiências que ainda não consegue expressar plenamente em palavras.
É importante compreender que a costura não significa apagar o passado nem obrigar todas as experiências a formar uma narrativa perfeita. Significa buscar maior integração e compreensão da própria história.
Não se trata de costurar uma pessoa para que ela se torne outra. Trata-se de ajudá-la a compreender melhor quem é, o que viveu e quais possibilidades pode construir a partir daí.
Como funciona o Método Costura na prática? O que o diferencia da psicanálise tradicional?
O Método Costura é uma proposta de intervenção psicanalítica que organiza o trabalho clínico em etapas voltadas à investigação da história emocional, à compreensão das rupturas subjetivas e ao trabalho com a identidade.
A estrutura contempla associação livre, construção de uma linha do tempo, identificação e análise de experiências significativas, investigação das máscaras adaptativas, trabalho sobre a polarização das percepções, alinhamento da identidade e elaboração simbólica das experiências.
A expressão máscaras, no contexto do método, refere-se às formas de adaptação que uma pessoa pode desenvolver para pertencer, proteger-se, evitar rejeição ou obter reconhecimento. Elas não são necessariamente patológicas: precisamos considerar sua função e o contexto em que surgiram.
O trabalho com a polarização busca investigar percepções muito extremas de si mesmo e dos outros, que podem aparecer no funcionamento borderline. O objetivo é favorecer a capacidade de reconhecer contradições, ambivalências e nuances, sem precisar transformar alguém em inteiramente bom ou inteiramente mau.
O diferencial que proponho está na organização dessas dimensões em um percurso clínico próprio e no uso de recursos simbólicos para trabalhar a história emocional e a identidade.
Isso não significa que a psicanálise tradicional ignore essas questões. Há diferentes escolas psicanalíticas que trabalham com identidade, relações de objeto, defesas e integração psíquica. O Método Costura procura organizar esses elementos de uma maneira particular.
E faço uma distinção importante: ter uma estrutura clínica própria não significa, por si só, demonstrar eficácia científica. Essa eficácia precisa ser avaliada por pesquisas sistemáticas.
Qual é a relação entre infância, rupturas emocionais e formação da identidade no borderline?
As primeiras experiências afetivas podem exercer influência importante na construção da segurança emocional, da confiança nos outros e da percepção que uma pessoa desenvolve sobre si mesma.
Uma criança que vivencia rejeição, imprevisibilidade, invalidação emocional ou relações afetivas marcadas por medo pode desenvolver estratégias para lidar com essas experiências. Algumas aprendem a esconder o que sentem; outras se tornam excessivamente vigilantes às mudanças no comportamento de quem amam; outras ainda podem ter dificuldade para confiar na estabilidade dos vínculos.
Na perspectiva psicanalítica, podemos investigar como essas experiências são elaboradas e como passam a participar da vida psíquica.
Dentro do Método Costura, procuro compreender quais acontecimentos foram vividos como rupturas, quais significados a pessoa atribuiu a eles e como essas experiências se relacionam com seus padrões atuais de vínculo e identidade.
Mas é fundamental fazer uma ressalva: o Transtorno de Personalidade Borderline não possui uma causa única. Sua origem é multifatorial, envolvendo diferentes combinações de vulnerabilidades temperamentais, fatores biológicos, experiências relacionais e ambientais.
Nem toda pessoa com borderline sofreu um trauma infantil identificável, e nem toda pessoa que sofreu traumas desenvolverá o transtorno.
Investigar a infância não significa procurar culpados. Significa compreender a história sem transformar o passado em uma sentença sobre o futuro.
Como o método considera pessoas que não apresentam um trauma infantil evidente?
Essa é uma questão essencial, porque seria um erro tentar encaixar todos os pacientes em uma mesma explicação.
O Método Costura não deve partir da premissa de que toda pessoa com borderline possui um trauma oculto à espera de ser descoberto. O trabalho precisa começar pela experiência real do paciente, respeitando aquilo que ele recorda, aquilo que consegue elaborar e aquilo que ainda não compreende.
Uma ruptura emocional não precisa corresponder necessariamente a um acontecimento dramático ou a um trauma reconhecido. Pode estar relacionada a experiências repetidas de incompreensão, dificuldades de pertencimento, conflitos relacionais, vulnerabilidades emocionais ou à maneira particular como a pessoa interpretou e elaborou determinadas situações.
Também pode não ser possível identificar uma ruptura específica que explique determinado padrão.
Nesses casos, a investigação deve permanecer aberta, sem induzir lembranças ou sugerir interpretações como se fossem fatos. A memória humana é complexa, e a ausência de uma lembrança não comprova a existência de um trauma reprimido.
O foco é compreender o funcionamento atual, a história disponível e os fatores que mantêm o sofrimento, sem impor uma narrativa prévia.
O paciente não existe para confirmar a teoria do terapeuta. É a teoria que precisa ser continuamente examinada diante da singularidade do paciente.
Como ajudar alguém que não consegue construir uma imagem estável de quem é?
A instabilidade da identidade pode produzir uma sensação profunda de desorientação. A pessoa pode ter dificuldade para reconhecer seus desejos, sustentar escolhas ou compreender por que se percebe de uma maneira em determinado momento e de outra pouco depois.
Em algumas situações, ela se adapta tanto às expectativas de quem está ao seu redor que perde o contato com as próprias preferências. Em outras, a percepção de si muda intensamente conforme o estado emocional ou a qualidade de um relacionamento.
No Método Costura, procuro investigar essas mudanças e compreender as diferentes formas de adaptação que aparecem ao longo da história do paciente.
A linha do tempo pode ajudar a identificar continuidades e transformações. A associação livre permite explorar conflitos e significados pessoais. Os recursos simbólicos podem oferecer uma maneira concreta de representar experiências e aspectos de si que ainda parecem difíceis de integrar.
O objetivo não é descobrir uma identidade rígida, imutável e livre de contradições. Uma identidade saudável também comporta mudanças, dúvidas e ambivalências.
O que buscamos é maior continuidade subjetiva: a possibilidade de reconhecer que sentimentos mudam, relações se transformam e escolhas podem ser revistas sem que a pessoa precise sentir que deixa de existir a cada mudança.
A identidade não precisa ser uma pedra imóvel. Ela precisa ser uma casa na qual a pessoa consiga continuar morando, mesmo quando atravessa tempestades.
Como trabalhar o medo do abandono sem criar dependência emocional do terapeuta?
O vínculo terapêutico é fundamental, mas precisa ser construído com limites claros, consistência e responsabilidade profissional.
Uma pessoa que teme intensamente o abandono pode vivenciar mudanças de horário, férias, interrupções ou até interpretações clínicas como sinais de rejeição. Isso não acontece com todos os pacientes, mas, quando ocorre, essas experiências podem ser exploradas no próprio tratamento.
Na minha compreensão clínica, não basta dizer a alguém que ele não precisa ter medo de ser abandonado. É necessário ajudá-lo a reconhecer como esse medo se manifesta, quais significados assume e de que maneira influencia suas relações.
No Método Costura, procuro investigar a história desses sentimentos e trabalhar para que o paciente desenvolva maior segurança interna e autonomia emocional.
Isso não significa eliminar a necessidade humana de vínculo. Somos seres relacionais. O objetivo é que a pessoa consiga estabelecer relações sem sentir que sua existência, seu valor ou sua identidade dependem exclusivamente da presença e da aprovação de alguém.
O terapeuta não deve prometer disponibilidade ilimitada nem alimentar a ideia de que é a única pessoa capaz de compreender o paciente. Deve oferecer um enquadre confiável e ajudar a construir recursos que possam ser utilizados também fora do consultório.
O sucesso de um tratamento não está em fazer o paciente precisar cada vez mais do terapeuta, mas em ajudá-lo a construir condições para viver com mais autonomia, sem precisar abrir mão dos vínculos afetivos.
O que recebe maior atenção: controlar as reações ou compreender a origem do sofrimento?
Eu não considero essas duas dimensões incompatíveis. Compreender o sofrimento e desenvolver recursos para lidar com ele são necessidades que podem caminhar juntas.
A investigação psicanalítica procura compreender os conflitos, os significados e os padrões relacionais envolvidos no sofrimento. Entretanto, uma pessoa que está atravessando uma crise intensa também pode precisar de ferramentas imediatas para reconhecer seus estados emocionais, reduzir comportamentos impulsivos e preservar a própria segurança.
No Método Costura, a compreensão da história emocional e o trabalho sobre a identidade ocupam um lugar central. Isso não significa desconsiderar a necessidade de estratégias práticas para enfrentar crises e regular emoções.
Há momentos em que precisamos compreender por que uma reação se tornou tão intensa. Em outros, precisamos ajudar a pessoa a atravessar aquela intensidade sem se machucar, destruir uma relação ou tomar uma decisão da qual possa se arrepender.
É importante reconhecer que outras abordagens, como a Terapia Comportamental Dialética, oferecem estratégias estruturadas especificamente voltadas à regulação emocional, à tolerância ao mal-estar e ao manejo de crises.
Minha proposta não é estabelecer uma oposição entre compreender e agir, mas reconhecer que o cuidado clínico precisa considerar tanto a experiência subjetiva quanto as necessidades concretas de cada paciente.
Qual deve ser o papel da família no tratamento?
A família pode ser uma fonte importante de apoio, desde que compreenda que acolher não significa concordar com tudo, assim como estabelecer limites não significa rejeitar a pessoa.
Quando um familiar está diante de uma crise emocional, pode sentir medo, impotência, raiva ou exaustão. Muitas vezes, reage com críticas, ameaças, afastamento ou tentativas de controlar cada comportamento. Essas reações podem intensificar conflitos, especialmente quando já existe uma sensibilidade importante à rejeição.
Por outro lado, os familiares também podem sofrer com comportamentos impulsivos, agressões verbais ou situações recorrentes de instabilidade. Eles precisam ser acolhidos e orientados, sem que sua própria saúde emocional seja negligenciada.
É importante que aprendam a validar sentimentos sem reforçar comportamentos prejudiciais. Podem dizer, por exemplo: “Eu entendo que você esteja sofrendo e quero ajudá-lo, mas não posso aceitar que conversemos com agressões”.
Essa postura reconhece a dor e, ao mesmo tempo, estabelece limites.
A família também precisa compreender que não é responsável, sozinha, pela recuperação do paciente. O tratamento exige uma atuação profissional adequada e, em muitos casos, a participação de diferentes áreas da saúde.
Amar alguém não significa impedir todas as suas crises. Significa aprender a oferecer apoio sem transformar o amor em vigilância, culpa ou anulação de si mesmo.
Como o Método Costura se posiciona diante da DBT e da Terapia Baseada na Mentalização? Pode ser complementar?
A Terapia Comportamental Dialética, conhecida como DBT, e a Terapia Baseada na Mentalização, ou MBT, são abordagens estruturadas que possuem evidências científicas para o tratamento do Transtorno de Personalidade Borderline. Elas apresentam modelos teóricos, técnicas e formas de avaliação próprias.
A DBT trabalha, entre outros aspectos, com regulação emocional, tolerância ao mal-estar, efetividade interpessoal e manejo de comportamentos de risco. A MBT procura fortalecer a capacidade de compreender os próprios estados mentais e os estados mentais das outras pessoas, sobretudo em situações emocionalmente intensas.
O Método Costura parte de uma orientação psicanalítica e organiza o trabalho em torno da história emocional, das rupturas subjetivas, das formas de adaptação e da integração da identidade.
Vejo diferenças teóricas e técnicas importantes entre essas propostas. Não considero necessário desqualificar uma abordagem para apresentar outra.
Quanto à possibilidade de complementaridade, ela pode ser investigada e considerada caso a caso, desde que exista uma justificativa clínica, coordenação entre os profissionais e clareza sobre os objetivos do tratamento. A combinação não deve ser feita de maneira improvisada, nem pode pressupor que o Método Costura já tenha eficácia demonstrada equivalente à das abordagens mais estudadas.
Acredito na importância de ampliar o diálogo entre diferentes perspectivas, preservando o rigor científico e o compromisso com a segurança dos pacientes.
O paciente deve estar no centro das nossas escolhas terapêuticas, não a disputa entre escolas de pensamento.
Como o método aborda automutilação, crises intensas e risco de suicídio? Qual é a importância do acompanhamento psiquiátrico?
Essas situações exigem seriedade, avaliação individualizada e planejamento de segurança. Nenhum método psicoterapêutico deve tratar o risco de suicídio ou a automutilação como questões secundárias, nem pressupor que a interpretação de conflitos inconscientes seja suficiente para enfrentar uma emergência.
Na prática clínica, é fundamental avaliar o risco, a intensidade das crises, o histórico de tentativas, os fatores de proteção e as condições concretas de segurança do paciente. Quando necessário, deve-se recorrer a serviços de urgência e organizar um plano de cuidado que envolva os profissionais responsáveis.
No contexto do Método Costura, a investigação da história emocional e da identidade pode fazer parte do trabalho psicoterapêutico, mas precisa respeitar a estabilidade clínica e as necessidades imediatas da pessoa. Em situações de risco elevado, a prioridade é a proteção da vida, e não o aprofundamento de conteúdos emocionais.
O acompanhamento psiquiátrico pode ser importante para avaliar sintomas associados, comorbidades e a indicação de medicamentos. A medicação não é necessária para todas as pessoas com borderline, e sua utilização deve ser individualizada.
Também é fundamental considerar psicoterapias com evidências para o manejo do risco, além da articulação com familiares ou pessoas de apoio, quando apropriado e seguro.
Se houver risco iminente de suicídio, é necessário procurar atendimento de emergência, em vez de esperar pela próxima sessão.
Nenhuma teoria, técnica ou método pode estar acima da vida de um paciente. A segurança é parte essencial do tratamento.
Como identificar uma melhora significativa e avaliar a remissão dos sintomas?
A melhora não deve ser definida apenas pela impressão de que o paciente está mais tranquilo ou pela redução de conflitos no consultório. É importante observar mudanças concretas no funcionamento emocional, nos relacionamentos, na autonomia e na capacidade de lidar com situações difíceis.
Entre os aspectos que podem ser avaliados estão a frequência e a intensidade das crises, a impulsividade, a sensibilidade à rejeição, a instabilidade da identidade, os conflitos interpessoais e os prejuízos na vida cotidiana.
Também é necessário considerar o que acontece fora do consultório: como a pessoa lida com frustrações, se consegue manter atividades importantes, se estabelece limites, se reconhece os próprios sentimentos e se consegue construir relações mais estáveis.
Quando possível, a avaliação deve incluir instrumentos padronizados, critérios diagnósticos reconhecidos, registros longitudinais e informações relevantes de outros profissionais envolvidos no cuidado.
É importante distinguir melhora clínica, remissão dos critérios diagnósticos e recuperação funcional. Esses processos podem ocorrer em ritmos diferentes. Uma pessoa pode apresentar melhora expressiva antes de deixar de preencher todos os critérios diagnósticos, por exemplo.
Na minha experiência clínica, os relatos de pacientes sobre suas transformações são importantes para compreender o processo terapêutico. Entretanto, relatos individuais, por si só, não estabelecem a eficácia de um método nem garantem que os resultados se manterão a longo prazo.
Por isso, considero essencial acompanhar os resultados ao longo do tempo e documentar tanto os avanços quanto as dificuldades.
Remissão não significa nunca mais sofrer. Significa que os sintomas e os prejuízos associados ao transtorno diminuíram de maneira significativa, permitindo uma vida mais funcional e satisfatória.
Já existem pesquisas sistematizadas, publicações acadêmicas ou projetos de validação do Método Costura?
Sim. O artigo academico está publicado pela revista Lumen Et Virtus
https://periodicos.newsciencepubl.com/LEV/pt_BR/article/view/14828
O que significa cura no Método Costura? É possível falar em remissão completa ou parcial?
Quando falo sobre cura, estou me referindo à possibilidade de uma transformação clínica significativa: uma pessoa que antes vivia crises recorrentes, relações extremamente dolorosas e grande instabilidade emocional pode desenvolver mais autonomia, estabilidade e capacidade de construir uma vida satisfatória.
Mas considero importante diferenciar a linguagem clínica da linguagem cotidiana.
Na pesquisa sobre o Transtorno de Personalidade Borderline, o termo remissão é particularmente útil porque permite avaliar a redução ou o desaparecimento dos critérios diagnósticos durante determinado período. Já a recuperação pode envolver aspectos adicionais, como funcionamento social, trabalho, relacionamentos e qualidade de vida.
Uma pessoa pode deixar de preencher os critérios diagnósticos e ainda precisar trabalhar questões emocionais ou dificuldades relacionais. Da mesma forma, pode apresentar avanços muito significativos sem alcançar imediatamente uma remissão completa.
No Método Costura, considero importantes tanto a redução dos sintomas quanto o trabalho sobre a identidade, a autonomia emocional e a capacidade de sustentar vínculos sem viver permanentemente sob o domínio do medo.
A remissão parcial ou completa é uma possibilidade reconhecida na evolução clínica do borderline.
Também não considero que uma pessoa precise se tornar emocionalmente invulnerável para ser considerada recuperada. Continuar sentindo tristeza, ciúme, medo ou frustração faz parte da experiência humana.
A transformação que buscamos não é uma vida sem dor. É uma vida na qual a dor deixa de ocupar o lugar de comando sobre a própria existência.
Houve alguma experiência clínica que transformou sua compreensão do borderline e da condição humana?
Sim. Ao longo dos anos, uma das experiências mais marcantes para mim foi perceber que, por trás de manifestações emocionais muito diferentes, havia pacientes tentando compreender a si mesmos e encontrar uma maneira menos dolorosa de existir.
Preservando o sigilo, lembro de processos clínicos nos quais o trabalho não se limitou à diminuição das crises. Foi necessário investigar como aquelas pessoas se percebiam, quais expectativas tinham sobre o amor, como reagiam à possibilidade de rejeição e de que maneira suas formas de adaptação influenciavam suas escolhas.
O que me marcou foi observar como a compreensão da própria história podia abrir espaço para novas perguntas. Em vez de interpretar cada conflito como prova de que eram incapazes de amar ou de manter uma relação, alguns pacientes começaram a reconhecer padrões, identificar suas necessidades e perceber que poderiam responder às situações de outras maneiras.
Essas experiências contribuíram para minha decisão de organizar o Método Costura. Não porque um caso isolado prove a eficácia de uma abordagem, mas porque o trabalho clínico levantou questões que considerei importantes o suficiente para serem investigadas e sistematizadas.
Aprendi também que o paciente não é um objeto passivo da teoria. Ele participa ativamente do processo de compreensão de si, e sua singularidade frequentemente nos obriga a rever nossas hipóteses.
A condição humana é muito mais complexa do que qualquer diagnóstico consegue descrever.
Talvez uma das maiores responsabilidades de quem trabalha com saúde mental seja nunca permitir que o conhecimento sobre um transtorno se transforme em cegueira diante da pessoa que o vivencia.
O que você diria a alguém que acabou de receber o diagnóstico de borderline e acredita que nunca terá estabilidade emocional?
Eu diria: respire. Esse diagnóstico não é uma sentença sobre quem você é, muito menos uma previsão de tudo o que será sua vida.
Você não é apenas suas crises. Não é apenas a intensidade com que sente, o medo que experimenta quando alguém se afasta ou os momentos em que não consegue compreender as próprias reações.
Você é uma pessoa inteira, com uma história, desejos, capacidades e possibilidades que não desaparecem porque recebeu um diagnóstico.
O borderline pode trazer sofrimento real. Não vou minimizar isso. Pode afetar relações, decisões, autoestima e a maneira como você atravessa situações difíceis. Mas existem tratamentos que podem ajudar, e muitas pessoas apresentam melhoras significativas ao longo do tempo, inclusive com remissão dos sintomas.
Você não precisa escolher entre ser acolhido e ser responsabilizado por suas atitudes. É possível reconhecer sua dor, aprender a lidar com suas emoções, reparar danos quando necessário e desenvolver maneiras mais seguras de se relacionar.
Procure profissionais qualificados, construa uma rede de apoio e não abandone o tratamento porque teve uma recaída ou uma semana difícil. O processo de mudança nem sempre é linear.
E, acima de tudo, não permita que o preconceito dos outros se transforme na maneira como você passa a enxergar a si mesmo.
O diagnóstico pode explicar parte do que você enfrenta, mas não determina o limite da sua capacidade de crescer.
Você não precisa deixar de sentir intensamente para aprender a viver melhor. Precisa encontrar caminhos para que a intensidade não continue machucando você e as pessoas que ama.a
ENCERRAMENTO — O DIAGNÓSTICO NÃO DEVE OCUPAR O LUGAR DA PESSOA
A conversa com Taty Ades nos conduz a um ponto essencial: conhecer os critérios de um transtorno não significa conhecer inteiramente a pessoa que convive com ele. A experiência de quem enfrenta o borderline pode envolver crises intensas e prejuízos reais, mas não se resume a essas manifestações.
Ao explicar o Método Costura, Taty coloca a história emocional e a construção da identidade no centro de sua proposta. Suas respostas também reconhecem a importância dos limites terapêuticos, da segurança em situações de risco, do diálogo com outras abordagens e da avaliação científica dos resultados.
Esse último aspecto merece destaque. Ideias clínicas podem abrir caminhos de investigação, mas a publicação de um artigo ou os relatos de experiências individuais não equivalem, isoladamente, à demonstração de eficácia de um tratamento. A esperança oferecida a pacientes e familiares deve caminhar junto da responsabilidade de não prometer resultados universais.
Talvez o maior convite desta entrevista seja resistir aos rótulos fáceis. Acolher uma pessoa não é negar que suas atitudes possam causar danos. Incentivar sua autonomia não é exigir que deixe de sentir. E reconhecer um diagnóstico não é transformar o sofrimento presente em destino imutável.
Como psicanalista, acredito que nosso compromisso começa quando conseguimos escutar alguém para além da descrição de seus sintomas.
Nenhuma pessoa deveria ser reduzida ao momento mais difícil de sua vida.
Agradeço à Taty Ades pela disponibilidade, pela confiança e por compartilhar suas reflexões com os leitores do Portal Arena Remix.
NOTA EDITORIAL
As respostas da entrevistada foram reproduzidas integralmente, conforme o material recebido, sem correção de linguagem, pontuação, cortes ou paráfrases. A apresentação, as perguntas dispostas como títulos e o encerramento são de responsabilidade editorial de Leo Oliveira.
O Método Costura é apresentado como proposta de sua idealizadora, baseada em seus resultados clínicos, debatido em ambientes acadêmicos.

