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Estamos compreendendo melhor a saúde mental ou apenas aprendendo a dar nomes ao comportamento dos outros? A popularização dos diagnósticos nas redes sociais levanta uma questão importante: em que momento deixamos de escutar as pessoas para simplesmente classificá-las?
Por Leo Oliveira | Psicanalista
Basta alguns minutos nas redes sociais para perceber que praticamente todo comportamento humano parece ter recebido um diagnóstico, se alguém demonstra egoísmo, é narcisista. Se tem dificuldades de concentração, certamente tem TDAH. Se muda de humor, é bipolar. Se prefere ficar sozinho, já começam as especulações sobre algum transtorno.
A impressão é de que ninguém pode simplesmente apresentar dificuldades, contradições ou características próprias sem receber uma classificação.
Mas existe uma diferença enorme entre reconhecer um transtorno mental e transformar qualquer comportamento em sintoma de uma doença.
E talvez seja justamente essa diferença que estejamos esquecendo.
Quando a informação se transforma em diagnóstico.
O acesso à informação sobre saúde mental representa um avanço importante. Pessoas que passaram anos sem compreender o próprio sofrimento encontraram, na internet, explicações que as incentivaram a procurar ajuda, o problema começa quando conteúdos de poucos segundos passam a ocupar o lugar de avaliações clínicas cuidadosas.
Um estudo publicado em março de 2025 na revista científica PLOS ONE analisou 100 vídeos populares sobre TDAH no TikTok. Os pesquisadores identificaram que menos da metade das afirmações sobre sintomas apresentadas nesses conteúdos estava alinhada aos critérios do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM).
Isso não significa que toda informação compartilhada nas redes esteja errada. Significa que identificação pessoal e precisão clínica são coisas diferentes.
Reconhecer-se em um vídeo pode ser o começo de uma investigação. Não deveria, entretanto, representar sua conclusão.
Nem toda tristeza é depressão. Nem toda dificuldade é um transtorno.
A experiência humana é complexa.
Existem pessoas desorganizadas que não apresentam TDAH. Pessoas que atravessam períodos de profunda tristeza sem necessariamente apresentar depressão. Indivíduos que demonstram atitudes egoístas sem preencher critérios para um transtorno de personalidade narcisista.
Da mesma forma, mudanças de humor não são suficientes para caracterizar um transtorno bipolar.
Isso não diminui a gravidade dessas condições. Pelo contrário: preservar a seriedade de um diagnóstico também significa evitar sua utilização indiscriminada.
A Organização Mundial da Saúde destaca a importância de critérios clínicos consistentes para a identificação adequada dos transtornos mentais.
Um diagnóstico responsável considera diferentes aspectos, incluindo a natureza dos sintomas, sua duração, intensidade, contexto e possíveis prejuízos à vida do indivíduo, de acordo com a condição investigada.
O sofrimento merece atenção, mesmo quando não corresponde aos critérios de um transtorno.
Não precisamos transformar toda dor em doença para reconhecer que alguém precisa de cuidado.
O que a psicanálise tem a dizer sobre isso?
A psicanálise convida a observar algo que frequentemente desaparece nas classificações apressadas: a singularidade do sujeito.
Duas pessoas podem apresentar comportamentos semelhantes e, ainda assim, viver conflitos emocionais completamente diferentes.
Uma pessoa pode ter dificuldade de estabelecer vínculos porque teme ser abandonada. Outra pode apresentar a mesma dificuldade porque aprendeu, ao longo da vida, a associar intimidade ao sofrimento.
O comportamento observado pode ser parecido. Sua história e seu significado, não necessariamente.
É por isso que, na escuta psicanalítica, importa compreender não apenas aquilo que alguém apresenta, mas também o lugar que essa manifestação ocupa em sua vida.
A pergunta deixa de ser exclusivamente “qual é o seu problema?” e passa a incluir “o que está acontecendo com você?”.
Isso não significa negar os diagnósticos ou desconsiderar a contribuição da psiquiatria e de outras áreas da saúde mental.
Significa reconhecer que uma classificação clínica, por mais importante que seja, não consegue contar sozinha toda a história de uma pessoa.
O perigo de transformar o outro em uma etiqueta.
Existe outro fenômeno que merece atenção: a facilidade com que utilizamos classificações para explicar comportamentos de familiares, parceiros e amigos.
Uma discussão conjugal pode terminar com alguém sendo chamado de narcisista. Uma pessoa emocionalmente distante recebe o rótulo de evitativa. Uma atitude desagradável passa a ser interpretada como manifestação de algum transtorno.
Em determinadas situações, essas palavras deixam de funcionar como possibilidades de compreensão e passam a servir como sentenças definitivas.
E quando acreditamos já saber tudo sobre alguém, podemos perder o interesse em compreender o que realmente aconteceu.
O problema não está em reconhecer comportamentos prejudiciais. Ninguém precisa aceitar desrespeito, manipulação ou violência para evitar classificar outra pessoa.
Mas uma atitude inadequada não é, por si só, um diagnóstico psiquiátrico.
É possível responsabilizar alguém pelo que faz sem precisar atribuir a essa pessoa um transtorno mental.
Quando o diagnóstico se transforma em identidade.
Também precisamos olhar para o outro lado dessa questão.
Há pessoas que finalmente encontram alívio ao receber um diagnóstico adequado. Para elas, compreender uma condição pode significar o fim de anos de culpa, incompreensão e sofrimento sem explicação.
Entretanto, existe o risco de a classificação passar a definir a pessoa por inteiro.
O diagnóstico, que deveria ajudar a compreender determinadas dificuldades e orientar cuidados, pode acabar sendo percebido como uma explicação absoluta para todas as experiências.
Na perspectiva psicanalítica, ninguém se resume a um conjunto de sintomas.
Uma pessoa pode conviver com ansiedade, depressão ou qualquer outra condição e continuar sendo alguém com desejos, histórias, capacidades, contradições e possibilidades de transformação.
O diagnóstico pode fazer parte da sua história. Não precisa se tornar toda a sua identidade.
Estamos perdendo a capacidade de escutar?
Talvez esta seja a reflexão mais necessária.
Vivemos em uma sociedade que oferece respostas rápidas para questões profundamente complexas. Queremos entender comportamentos, justificar decepções e encontrar explicações para aquilo que nos causa desconforto.
Os rótulos parecem oferecer essa segurança.
Eles organizam o mundo, simplificam conflitos e produzem a sensação de que finalmente compreendemos o outro.
Mas compreender alguém exige mais do que reconhecer características em uma lista.
Exige tempo, disponibilidade e, principalmente, disposição para ouvir aquilo que não cabe em definições prontas.
Não se trata de abandonar os avanços da saúde mental ou questionar a legitimidade dos transtornos reconhecidos pela ciência.
Trata-se de evitar que o vocabulário da saúde mental seja utilizado de maneira tão superficial que acabe esvaziando o significado das próprias condições que pretende explicar.
Afinal, existe uma diferença fundamental entre identificar um sofrimento e reduzir uma pessoa a ele.
E talvez seja hora de fazermos uma pergunta incômoda:
Estamos realmente interessados em compreender as pessoas ou apenas procurando uma palavra que nos dispense de escutá-las?
Porque, no fim, talvez o maior problema da nossa época não seja a falta de nomes para o sofrimento, mas a falta de disposição para escutar quem sofre.
Fontes consultadas
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Clinical Descriptions and Diagnostic Requirements for ICD-11 Mental, Behavioural and Neurodevelopmental Disorders (2024). Referência internacional sobre os critérios clínicos de diagnóstico.
https://www.who.int/publications/i/item/9789240077263 - Karasavva, V. e colaboradores. A double-edged hashtag: Evaluation of #ADHD-related TikTok content and its associations with perceptions of ADHD. PLOS ONE, 2025.
https://doi.org/10.1371/journal.pone.0319335 - Branigan, K. What is the quality of ADHD content on TikTok, and how might this affect self-diagnosis? A systematic literature review. Educational Psychology in Practice, 2026.
https://doi.org/10.1080/02667363.2026.2644889 - Organização Mundial da Saúde (OMS). World Mental Health Report: Transforming Mental Health for All (2022).
https://www.who.int/publications-detail-redirect/9789240049338
Nota editorial
Este artigo integra a coluna Saúde e Bem-Estar do Portal Arena Remix e apresenta uma reflexão sobre comportamento humano, saúde mental e psicanálise. O termo “epidemia dos rótulos” é utilizado em sentido metafórico, não como indicador epidemiológico. As reflexões aqui apresentadas não substituem avaliações clínicas nem pretendem invalidar diagnósticos realizados por profissionais habilitados. O objetivo é estimular o debate, incentivar o uso responsável de informações sobre saúde mental e valorizar a singularidade de cada indivíduo.

