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Por Leo Oliveira | Coluna de Psicanálise — Arena Remix
Existe uma frase que muita gente ouve desde cedo:
“Você é forte.”
No começo, ela parece um elogio.
É uma maneira de reconhecer alguém que enfrentou dificuldades, continuou trabalhando, cuidou dos filhos, atravessou perdas, sustentou a família e seguiu em frente mesmo quando tudo parecia desabar.
O problema começa quando ser forte deixa de ser uma característica e vira uma obrigação.
A pessoa passa a acreditar que não pode cansar.
Não pode chorar.
Não pode pedir ajuda.
Não pode dizer “eu não estou bem”.
E, principalmente, não pode precisar de ninguém.
Quando a força vira uma armadura
Talvez você conheça alguém assim.
É aquela pessoa que todos procuram quando alguma coisa dá errado.
“Fala com ela.”
“Ele resolve.”
“Ela aguenta.”
“Ele é forte.”
Só que quase ninguém pergunta o que acontece quando essa pessoa chega em casa e fecha a porta.
Porque existe uma diferença importante entre ser capaz de enfrentar dificuldades e acreditar que você precisa enfrentá-las sozinho.
Resiliência não significa ausência de sofrimento. A própria American Psychological Association descreve a resiliência como um processo de adaptação diante das adversidades e destaca que pessoas resilientes também podem experimentar dor emocional e estresse.
Ou seja: sofrer não é o contrário de ser forte.
Nem toda força precisa ser silenciosa
Existe uma ideia cultural de força muito ligada ao silêncio.
A pessoa forte não reclama.
Não demonstra medo.
Não desaba.
Não incomoda os outros com os próprios problemas.
Só que esconder uma emoção não significa necessariamente elaborá-la.
Pesquisas sobre regulação emocional diferenciam, por exemplo, a reavaliação de uma situação da simples supressão daquilo que estamos sentindo. Estudos também encontraram associações entre a supressão emocional e dificuldades no bem-estar e na qualidade das relações em determinados contextos.
Isso não significa que toda tentativa de controlar uma emoção seja prejudicial.
Às vezes precisamos respirar antes de responder.
Precisamos esperar antes de tomar uma decisão.
Precisamos escolher o momento certo para falar.
O problema é quando controlar a emoção passa a significar proibir-se de senti-la.
Na psicanálise, existe uma pergunta importante
Quando alguém diz:
“Eu não posso desmoronar.”
Talvez valha perguntar:
Quem disse que você não podia?
Em algum momento da vida, algumas pessoas aprenderam que demonstrar necessidade trazia consequências.
Talvez precisassem amadurecer cedo demais.
Talvez tivessem que cuidar de outras pessoas.
Talvez tenham aprendido que reclamar não adiantava.
Talvez tenham descoberto que, quando mostravam fragilidade, ninguém aparecia.
E uma criança pode transformar uma experiência dessas em uma regra interna:
“Se eu quiser sobreviver, preciso dar conta.”
O problema é que aquilo que foi uma solução em determinado momento da vida pode continuar funcionando muito depois de o perigo ter passado.
A pessoa cresce.
A situação muda.
Mas a regra permanece.
O adulto que ainda acredita que precisa aguentar tudo
É possível encontrar esse funcionamento em situações bastante comuns.
A mulher que está exausta, mas continua dizendo que está tudo bem porque acredita que ninguém fará aquilo que ela faz.
O homem que enfrenta problemas financeiros, familiares e profissionais, mas não conta para ninguém porque aprendeu que pedir ajuda é sinal de fraqueza.
O pai que sofre, mas acredita que precisa ser o porto seguro dos filhos o tempo inteiro.
A pessoa que terminou um relacionamento e está destruída, mas publica que está vivendo “a melhor fase da vida”.
Nem sempre existe mentira nisso.
Às vezes existe apenas uma dificuldade enorme de admitir:
“Eu não estou conseguindo.”
E existe uma solidão que nasce daí
Quando você passa muito tempo sendo a pessoa que sustenta os outros, pode acontecer uma coisa curiosa:
As pessoas começam a acreditar que você não precisa ser sustentado por ninguém.
E talvez você mesmo tenha ajudado a construir essa imagem.
Não porque não queira carinho.
Mas porque se acostumou a oferecer força e desaprendeu a receber cuidado.
É possível estar cercado de pessoas e, ainda assim, sentir que ninguém conhece aquilo que acontece dentro de você.
Ser forte também pode significar admitir limites
Existe uma diferença entre desistir diante da primeira dificuldade e reconhecer que determinados pesos não precisam ser carregados sozinho.
A força também pode estar em dizer:
“Eu preciso de ajuda.”
“Eu não sei o que fazer.”
“Isso me machucou.”
“Eu estou cansado.”
“Eu tenho medo.”
“Hoje eu não consigo.”
Isso não apaga a capacidade de enfrentar problemas.
Talvez faça justamente o contrário.
A resiliência, como processo, não depende apenas de recursos individuais. A APA destaca também a importância das relações, dos recursos sociais, de estratégias de enfrentamento e da capacidade de adaptação.
Ninguém precisa transformar a própria vida em uma prova permanente de resistência.
Talvez você não precise ser forte o tempo inteiro
Existe uma diferença entre ser forte e precisar parecer forte.
A primeira pode ser uma capacidade.
A segunda pode virar uma prisão.
Porque quando você precisa parecer forte o tempo inteiro, até descansar pode produzir culpa.
Você não descansa porque “tem coisa para fazer”.
Não chora porque “tem gente pior”.
Não pede ajuda porque “vai passar”.
Não fala sobre aquilo porque “não quer preocupar ninguém”.
E, quando percebe, passou tanto tempo cuidando para que ninguém enxergasse sua fragilidade que até você deixou de olhar para ela.
Talvez a pergunta seja outra
Talvez a pergunta não seja:
“Como eu faço para ficar mais forte?”
Talvez seja:
“Por que eu acredito que preciso suportar tudo sozinho?”
Essa pergunta muda muita coisa.
Porque ela não procura apenas aumentar sua capacidade de suportar.
Ela procura entender por que suportar se tornou a única maneira que você encontrou de existir.
E talvez exista uma vida possível além da obrigação de dar conta.
Uma vida em que você continua sendo responsável, cuidadoso e capaz, mas não precisa transformar sofrimento em silêncio.
Porque pedir colo também pode ser maturidade.
Dizer “não” também pode ser força.
Reconhecer limites também pode ser coragem.
E admitir que alguma coisa dói não transforma ninguém em fraco.
Às vezes, ser forte não é conseguir suportar tudo. É finalmente perceber que você não precisa mais provar que consegue.
NOTA EDITORIAL
Este artigo propõe uma reflexão sobre a ideia social de força, a dificuldade de reconhecer limites e o papel da vulnerabilidade nas relações. O texto não pretende diagnosticar comportamentos individuais nem afirmar que toda contenção emocional seja prejudicial. A psicanálise é apresentada como uma lente possível para pensar experiências subjetivas, enquanto as referências científicas são utilizadas para contextualizar aspectos relacionados à resiliência e à regulação emocional.
FONTES
- American Psychological Association (APA). Building Your Resilience. 2020.
- American Psychological Association (APA). Resilience — APA Dictionary / recursos sobre resiliência.
- Richards, J. M.; Butler, E. A.; Gross, J. J. Emotion Regulation in Romantic Relationships: The Cognitive Consequences of Concealing Feelings. Journal of Social and Personal Relationships, 2003.
- Impett, E. A. et al. Suppression sours sacrifice: emotional and relational costs of suppressing emotions in romantic relationships. Psychological Science, 2012.

