Saúde e bem estar

Quando o dinheiro chega, por que algumas pessoas deixam de ser quem eram?

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O que a conquista financeira pode revelar sobre o ego, a identidade e a maneira como nos relacionamos com os outros.

Por Leo Oliveira — Psicanalista
Coluna Saúde e Bem-Estar | Portal Arena Remix

Você já viu alguém que, antes de conquistar uma boa condição financeira, era simples, acessível e tratava todo mundo com proximidade. Depois que o dinheiro chegou, passou a agir como se fosse superior, começou a desprezar pessoas que fizeram parte de sua história e parece ter esquecido de onde veio?

Essa mudança costuma provocar uma pergunta: o dinheiro transformou aquela pessoa ou apenas revelou algo que já existia nela?

A resposta não é tão simples quanto parece. O dinheiro, por si só, não transforma necessariamente alguém em uma pessoa arrogante. Mas a conquista financeira pode alterar a maneira como alguém se percebe, como enxerga os outros e como passa a ocupar seu lugar nas relações sociais.

O dinheiro compra coisas, mas também pode alimentar fantasias.

Na perspectiva psicanalítica, é possível compreender parte desse comportamento observando a relação entre dinheiro, autoestima e ego.

Para algumas pessoas, conquistar uma condição financeira elevada significa muito mais do que ter conforto, segurança ou liberdade. A riqueza pode representar uma forma de compensação simbólica: a prova de que venceram, de que agora merecem reconhecimento ou de que finalmente são alguém.

Imagine uma pessoa que passou a infância sendo humilhada por não ter roupas de marca, que cresceu ouvindo que não seria capaz de conquistar nada ou que sempre se sentiu inferior diante dos outros.

Anos depois, ela enriquece. Agora, pode comprar o que antes lhe era negado, frequentar lugares aos quais não tinha acesso e receber a atenção que desejava.

Até aqui, não há problema algum. Conquistar conforto e desfrutar dos próprios resultados é legítimo.

A dificuldade começa quando essa pessoa passa a utilizar o dinheiro como medida do próprio valor e, consequentemente, como instrumento para medir o valor alheio.

Ela deixa de pensar apenas “eu conquistei algo” e começa a agir como se isso significasse “eu sou melhor do que você”.

É nesse ponto que a conquista material pode se transformar em uma hierarquia humana imaginária.

Quando o patrimônio se transforma em personagem.

Na psicanálise, a imagem que construímos de nós mesmos e o reconhecimento que buscamos dos outros têm um papel importante na constituição da identidade.

O dinheiro pode se tornar parte dessa imagem. O carro, a casa, as roupas, os lugares frequentados e até as pessoas com quem alguém se relaciona podem passar a funcionar como símbolos de status.

Em vez de simplesmente possuir bens, a pessoa começa a depender deles para sustentar uma imagem de sucesso.

É como se precisasse provar continuamente que chegou a um lugar diferente daquele de onde veio.

Nesse cenário, antigos amigos podem se tornar lembranças incômodas. A família pode ser tratada como um grupo que já não combina com sua nova posição. Pessoas que antes eram consideradas importantes passam a ser vistas como pouco interessantes ou incapazes de acompanhar sua evolução.

Mas será que houve uma evolução pessoal ou apenas uma mudança de posição social?

Crescer financeiramente não significa, necessariamente, amadurecer emocionalmente.

Uma pessoa pode aprender a administrar empresas, multiplicar patrimônio e negociar grandes contratos sem desenvolver, na mesma proporção, a capacidade de reconhecer os próprios limites, respeitar diferenças e lidar com a frustração.

Competência financeira e maturidade emocional são dimensões diferentes.

O ego precisa de aplausos?

A palavra “ego” costuma ser utilizada de maneira simplificada, como se significasse apenas orgulho ou vaidade. Na teoria freudiana, porém, o conceito é mais complexo.

O que podemos observar, em determinadas situações, é uma necessidade intensa de reconhecimento. A pessoa não se satisfaz apenas com o que conquistou: precisa que os outros reconheçam continuamente sua superioridade.

O dinheiro passa, então, a funcionar como uma espécie de certificado de valor pessoal.

Ela pode exibir suas conquistas para provocar admiração, mencionar o que possui em conversas que não exigem isso e utilizar sua condição financeira para encerrar discussões ou diminuir quem discorda dela.

Quando alguém questiona seu comportamento, a resposta pode vir acompanhada de frases como: “Você tem inveja de mim”, “Você não chegou onde eu cheguei” ou “Quando você tiver o que eu tenho, poderá falar comigo”.

Perceba o mecanismo: em vez de responder ao conteúdo da crítica, a pessoa utiliza sua posição financeira para tentar desqualificar quem a questiona.

O dinheiro deixa de ser apenas um recurso e passa a ser usado como argumento de autoridade.

Isso não significa que toda pessoa que gosta de ostentar tenha um problema psicológico. Tampouco é possível concluir, a partir desses comportamentos isolados, que alguém tenha um transtorno de personalidade. O contexto, a frequência e a maneira como a pessoa se relaciona precisam ser considerados.

Por que algumas pessoas esquecem quem esteve ao seu lado?

Existe uma diferença importante entre mudar de vida e tratar o próprio passado como algo vergonhoso.

Quando alguém conquista uma condição financeira melhor, é natural que seus hábitos, seus círculos sociais e suas prioridades mudem. Algumas amizades podem se afastar simplesmente porque as rotinas deixaram de ser compatíveis.

O problema é quando a mudança vem acompanhada de desprezo, humilhação ou ingratidão.

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Em alguns casos, a pessoa pode tentar se distanciar de tudo aquilo que associa à antiga condição de vulnerabilidade. Ela não quer apenas viver uma realidade diferente: quer apagar qualquer lembrança de que um dia precisou de ajuda.

Outras pessoas podem ter aprendido, ao longo da vida, que o valor humano depende de poder, aparência e reconhecimento. Ao enriquecerem, encontram meios para colocar essa visão em prática.

Há ainda quem utilize o dinheiro para controlar relações, criar dependência ou estabelecer uma posição de superioridade dentro da família.

São possibilidades diferentes, e não explicações universais. A mesma mudança externa pode ter significados subjetivos distintos para cada indivíduo.

A riqueza revela o caráter?

Essa é uma das perguntas mais repetidas quando observamos mudanças desse tipo. Mas afirmar que o dinheiro sempre revela o verdadeiro caráter seria simplificar demais o comportamento humano.

Pesquisas sobre classe social e comportamento apresentam resultados variados.

Um estudo publicado em 2012 na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences identificou, em sete estudos, associações entre posição social mais elevada e determinados comportamentos antiéticos. Entretanto, pesquisas posteriores, incluindo estudos com amostras maiores, encontraram resultados diferentes, e uma análise internacional publicada em 2025 identificou associações positivas entre renda e diversas formas de comportamento pró-social, como doações, voluntariado e ajuda a desconhecidos.

Esses resultados mostram que não existe uma regra universal segundo a qual pessoas com mais dinheiro se tornam menos generosas ou mais arrogantes. As relações entre condição financeira e comportamento dependem de diversos fatores e da maneira como essas características são medidas.

O ponto central, portanto, não é julgar alguém pelo patrimônio que possui, mas observar como essa pessoa trata os outros quando conquista mais poder, liberdade e reconhecimento.

Ela continua respeitando quem não pode lhe oferecer vantagens? Consegue ouvir uma crítica sem humilhar quem a fez? Reconhece a ajuda que recebeu? Trata com dignidade quem ocupa uma posição social diferente da sua?

São essas atitudes, e não o saldo bancário, que oferecem elementos mais concretos para avaliar a qualidade de uma relação.

E quando essa pessoa faz parte da nossa vida?

Talvez a parte mais dolorosa dessa mudança seja perceber que alguém de quem gostávamos passou a nos tratar como se fôssemos inferiores.

Pode ser um amigo de infância, um irmão, um parente ou até um parceiro amoroso.

Nessas situações, é importante compreender que o sucesso de alguém não lhe concede o direito de diminuir os outros.

Você pode respeitar as conquistas de uma pessoa sem aceitar humilhações. Pode reconhecer que ela mudou de realidade sem concordar que isso a torne superior. E pode preservar o carinho pela história compartilhada sem permitir que essa história seja utilizada para justificar desrespeito.

Também vale evitar a expectativa de que alguém necessariamente voltará a ser como era antes. Às vezes, o que mudou foi o comportamento; em outras situações, a convivência passou a revelar características que você não havia percebido ou que antes não se manifestavam daquela maneira.

O mais importante é observar os fatos, estabelecer limites e não transformar a necessidade de preservar uma relação em obrigação de tolerar qualquer tratamento.

No fim, quem mudou: a pessoa ou o lugar que ela ocupa?

O dinheiro pode proporcionar liberdade, conforto, segurança e oportunidades. Pode também criar condições para que determinadas características comportamentais se expressem de outras maneiras.

Mas nenhuma conquista financeira garante superioridade humana, assim como a falta de dinheiro não torna alguém automaticamente humilde, generoso ou íntegro.

Talvez a questão mais importante não seja descobrir se o dinheiro muda as pessoas, mas entender o que acontece quando alguém começa a acreditar que seu valor aumentou porque sua conta bancária cresceu.

Porque existe uma diferença enorme entre conquistar uma vida melhor e começar a acreditar que, por causa disso, você se tornou melhor do que os outros.

A verdadeira mudança de posição social acontece quando a condição financeira muda. A mudança de caráter aparece na maneira como você passa a tratar as pessoas.

E você, já presenciou alguém mudar completamente depois de conquistar dinheiro? O que mais chamou sua atenção: a mudança de hábitos ou a maneira como essa pessoa passou a tratar quem esteve ao seu lado antes do sucesso?

Nota editorial — Arena Remix

Este artigo apresenta uma reflexão sobre dinheiro, identidade, autoestima e relações humanas a partir de conceitos psicanalíticos e de pesquisas sobre comportamento social. Não pretende estabelecer diagnósticos individuais nem afirmar que a riqueza determina o caráter. As experiências pessoais e os contextos sociais influenciam a maneira como cada pessoa lida com suas conquistas.

Fontes e referências

  • FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo (1914). Texto fundamental para compreender o investimento narcísico e a relação entre autoestima e reconhecimento.
  • PIFF, Paul K. et al. “Higher social class predicts increased unethical behavior”. Proceedings of the National Academy of Sciences, 2012. https://doi.org/10.1073/pnas.1118373109
  • PIFF, Paul K. et al. “Having less, giving more: The influence of social class on prosocial behavior”. Journal of Personality and Social Psychology, 2010. https://doi.org/10.1037/a0020092
  • “Greater income and financial well-being are associated with higher prosocial preferences and behaviors across 76 countries”. PNAS Nexus, 2025. https://doi.org/10.1093/pnasnexus/pgae582

Leo Oliveira
Psicanalista | Escritor | Colunista do Portal Arena Remix

Léo Oliveira
Sobre o autor

Léo Oliveira

Leo Oliveira é esposo, pai, filho, psicanalista, escritor e editor da coluna Saúde e Bem-Estar do Arena Remix. Atua na área da saúde mental com um olhar voltado à compreensão do comportamento humano, das relações e dos conflitos emocionais presentes no cotidiano. Seu trabalho busca aproximar a Psicanálise da vida real, utilizando uma linguagem acessível, direta e humana, sem excesso de termos técnicos ou respostas prontas. Como escritor e produtor de conteúdo, aborda temas como relacionamentos, família, dependência emocional, narcisismo, infância, ansiedade, autoconhecimento e os padrões que muitas vezes repetimos sem compreender. À frente da coluna Saúde e Bem-Estar, Leonardo propõe uma reflexão sobre como cuidamos de nós mesmos, das nossas relações e da nossa vida emocional, partindo de uma ideia simples: entender o que sentimos também é uma forma de cuidar de nós.

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