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A fronteira entre representar os mais vulneráveis, criar identificação política e transformar direitos em fidelidade eleitoral.
Por Leo Oliveira — Psicanalista
Existe uma frase repetida com frequência no debate político brasileiro: “A esquerda mantém o povo dependente para continuar no poder.”
A frase é forte. Funciona nas redes sociais. Alimenta discussões, mas será que ela explica a realidade?
A resposta é mais complexa governos de esquerda historicamente constroem parte importante de seu discurso em torno da redução das desigualdades, proteção social, direitos trabalhistas, serviços públicos e defesa das camadas economicamente vulneráveis. Isso, por si só, não é manipulação.
O problema começa quando uma política que deveria ser entendida como direito do cidadão passa a ser comunicada como uma espécie de presente concedido por um governante.
É aí que política, psicologia e poder começam a se misturar.
O benefício é do Estado ou do político?
Imagine uma família que recebe um programa de transferência de renda.xistem duas formas completamente diferentes de construir essa narrativa.
A primeira:
“Você possui esse direito porque existem critérios definidos por uma política pública do Estado brasileiro.”
A segunda:
“Você recebe isso porque nós estamos no poder. Se eles entrarem, você poderá perder.”
Percebe a diferença?
Na primeira situação, cria-se cidadania.
Na segunda, pode-se criar dependência simbólica.
A pessoa deixa de enxergar determinada política como pertencente ao Estado e começa a associá-la diretamente a um partido, líder ou grupo político.
É exatamente nesse ponto que aparece aquilo que a ciência política chama de clientelismo: uma relação na qual recursos, benefícios ou acesso ao Estado podem ser utilizados para produzir apoio político.
Mas é importante fazer uma distinção.
Receber uma política social não transforma automaticamente alguém em eleitor daquele governo.
E os estudos brasileiros mostram justamente como essa relação é mais complicada do que normalmente aparece nas discussões das redes sociais.
Bolsa Família compra voto?
Esse talvez seja o exemplo mais utilizado no Brasil.
Um estudo publicado na revista Opinião Pública, analisando a eleição presidencial de 2006, encontrou associação significativa entre ser beneficiário do Bolsa Família e votar em Lula, além de avaliações mais positivas de seu governo.
Só que outras pesquisas chegaram a conclusões diferentes um estudo posteriormente publicado na Latin American Research Review questionou a interpretação de que o Bolsa Família teria sido simplesmente uma ferramenta clientelista responsável pela transformação da base eleitoral de Lula. A análise mostrou, entre outras coisas, que muitos beneficiários já votavam nele anteriormente e que pobreza, região, políticas públicas e comportamento eleitoral interagem de maneiras muito mais complexas.
Uma pesquisa mais recente sobre transferências condicionadas de renda no Brasil foi ainda além: encontrou evidências de que beneficiários do Bolsa Família apresentavam maior resistência a propostas clientelistas, e não simplesmente submissão política ao governante.
Portanto, afirmar que “dar Bolsa Família é comprar votos” é uma simplificação que a própria literatura científica não sustenta de maneira consensual.
Mas isso não significa que programas sociais não produzam efeitos políticos.
Assim como redução de impostos, aumento do salário mínimo, subsídios, crédito rural, obras públicas, benefícios empresariais ou qualquer outra política capaz de melhorar concretamente a vida de um grupo.
O eleitor frequentemente recompensa governos que acredita terem melhorado sua situação.
Isso se chama comportamento eleitoral.
Não necessariamente manipulação.
Onde então pode existir manipulação?
Ela começa quando o debate deixa de ser:
“Qual política pública funciona melhor?”
e passa a ser:
“Sem nós, você estará abandonado.”
Psicologicamente, essa mensagem é poderosíssima, porque não trabalha apenas com argumentos, trabalha com medo, com pertencimento, com segurança com identidade.
E talvez uma das ferramentas políticas mais poderosas seja justamente transformar uma escolha eleitoral em identidade pessoal.
A pessoa deixa de dizer:
“Eu votei nesse partido.”
E começa a dizer:
“Eu sou desse lado.”
A diferença parece pequena, mas não é.
Quando uma posição política se transforma em identidade, qualquer crítica ao grupo pode começar a ser sentida como uma crítica ao próprio indivíduo.
A política deixa de discutir projetos.
Passa a organizar afetos.
O povo contra o inimigo
Outro mecanismo muito conhecido é a construção de dois campos:
“Nós” contra “eles”.
O povo contra a elite.
Os trabalhadores contra os ricos.
Os pobres contra aqueles que querem retirar seus direitos.
A literatura sobre populismo mostra justamente como líderes políticos podem construir uma identidade coletiva baseada na existência de um “povo verdadeiro” confrontado por uma elite, establishment ou grupo considerado responsável pelos problemas daquela sociedade.
Essa narrativa possui enorme força emocional porque oferece três coisas que o ser humano busca constantemente:
pertencimento, explicação e inimigo.
Pertencimento:
“Você faz parte de nós.”
Explicação:
“Você sofre porque existe alguém responsável.”
Inimigo:
“Se eles voltarem, tudo aquilo que conquistamos estará ameaçado.”
Mas existe um detalhe fundamental.
Essa estratégia não pertence exclusivamente à esquerda.
A direita também pode construir exatamente a mesma estrutura emocional, apenas substituindo os personagens.
Em vez de “povo contra elite econômica”, pode surgir “cidadão de bem contra o sistema”, “conservadores contra globalistas”, “trabalhadores contra políticos”, “patriotas contra inimigos internos”.
Um estudo comparando políticas sociais durante os governos de Andrés Manuel López Obrador, no México, e Jair Bolsonaro, no Brasil, mostrou justamente como práticas de personalização política e estratégias populistas podem atravessar fronteiras ideológicas.
A ferramenta muda de mãos.
O mecanismo psicológico continua parecido.
A política precisa de um inimigo permanente.
Existe ainda outra vantagem política na polarização.
Se o eleitor estiver permanentemente com medo do outro lado, o desempenho do próprio governo pode se tornar secundário.
O raciocínio deixa de ser:
“Meu candidato está governando bem?”
e passa a ser:
“Mesmo que esteja ruim, imagine se o outro voltar.”
Nesse momento, o voto deixa de ser exclusivamente uma avaliação de resultados e também passa a funcionar como defesa de identidade.
Estudos sobre polarização na América Latina descrevem justamente o crescimento dessa lógica de campos antagonistas, o famoso “nós contra eles” que pode reduzir espaços intermediários e transformar adversários políticos em ameaças existenciais.
E quando isso acontece, uma democracia começa a enfrentar um problema,não existem mais adversários, existem inimigos.
Redes sociais amplificam esse processo.
A política contemporânea descobriu algo que publicidade conhece há décadas:
Emoção circula mais rápido do que explicação.
Medo, raiva, indignação, humilhação, esperança e pertencimento.
São combustíveis poderosos para compartilhamentos.
A OCDE alerta que desinformação, câmaras de eco e polarização podem diminuir a confiança nas instituições e dificultar debates democráticos baseados em fatos.
No Brasil, em pleno processo eleitoral de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral ampliou parcerias com plataformas digitais justamente para enfrentar conteúdos falsos, manipulados ou retirados de contexto durante as eleições.
Isso deveria preocupar direita e esquerda.
Porque desinformação conveniente continua sendo desinformação independentemente da ideologia de quem a publica.
A verdadeira dependência não é financeira
Talvez exista uma dependência ainda mais poderosa do que aquela criada pelo dinheiro.
A dependência emocional da narrativa, quando alguém acredita que somente determinado líder poderá protegê-lo.
Quando começa a imaginar que todos os problemas desapareceriam se determinado grupo político fosse eliminado.
Quando deixa de fiscalizar seu próprio candidato porque considera o adversário muito pior.
Quando qualquer denúncia contra seu campo político imediatamente parece perseguição.
E quando qualquer informação favorável ao adversário automaticamente parece mentira.
Nesse momento, talvez a pessoa não esteja mais defendendo ideias.
Está defendendo uma identidade.
E identidades raramente são abandonadas apenas com argumentos.
E democracia não precisa de salvadores.”
Nota editorial
Este artigo analisa mecanismos de comunicação política, identidade coletiva, populismo, clientelismo e polarização. Não afirma que políticas sociais constituam compra de votos nem que esses mecanismos sejam exclusivos de partidos ou movimentos de esquerda. Pesquisas acadêmicas apresentam resultados distintos sobre os efeitos eleitorais de programas de transferência de renda, e estratégias de personalização do poder e construção do “nós contra eles” aparecem em diferentes campos ideológicos.
Fontes consultadas
Cambridge University Press — Polarization and Populism in Latin America; Shaping the People: Populism and the Politics of Identity Formation in South America; Populism Trumps Ideology: Poverty Relief Policy under Mexico’s López Obrador and Brazil’s Bolsonaro; Social Policy and Vote in Brazil: Bolsa Família and the Shifts in Lula’s Electoral Base; Undermining Clientelism with Collective Confidence.
Revista Opinião Pública / SciELO — estudos sobre Bolsa Família e comportamento eleitoral nas eleições presidenciais brasileiras.
OCDE — estudos sobre confiança democrática, polarização, desinformação e integridade da informação.
Tribunal Superior Eleitoral — Programa de Enfrentamento à Desinformação e ações para as Eleições de 2026.

