Geopolítica

Lula abre Assembleia-Geral da ONU com defesa da soberania e recado contra interferência externa nas eleições

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abriu nesta terça-feira (22) o debate geral da 81ª Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) , em Nova York, com um discurso de aproximadamente 25 minutos que combinou críticas à paralisia da ONU, defesa intransigente da soberania nacional e recados diretos contra a interferência de potências estrangeiras no processo eleitoral brasileiro.

Em sua 11ª participação como presidente da República na abertura do evento, Lula subiu o tom logo no início da fala, citando os “crescentes desmandos das superpotências” , que segundo ele detêm o “privilégio da insensatez” . O discurso ocorreu a 12 dias do primeiro turno e precedeu a fala de Donald Trump, que discursou logo depois, mantendo a tradição de o Brasil abrir os discursos da Assembleia-Geral desde 1955.

Crítica à ONU e ao Conselho de Segurança

Lula dedicou a parte inicial do discurso a uma crítica contundente à própria ONU, classificando o momento como “o mais crítico da história” da organização. “A ONU está falhando em uma das suas missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa. Sua capacidade de proteger os mais vulneráveis, os que não têm exército, nem arsenais, nunca foi tão pequena”, afirmou.

O presidente apontou o Conselho de Segurança como principal símbolo da paralisia da entidade. “Somos todos reféns de um imobilismo de um Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel”. A crítica à atuação do órgão diante dos conflitos internacionais e a cobrança por sua reforma estiveram entre os temas centrais da fala.

“Este Conselho agora deve se debruçar sobre temas determinantes sobre o futuro da humanidade. Somos chamados a optar entre o multilateralismo e o unilateralismo. Soberania ou subordinação?”, questionou Lula.

Soberania e recado contra interferência externa

O tema da soberania nacional dominou boa parte do discurso. Lula foi enfático ao afirmar que o Brasil “não cabe no quintal de ninguém” e que “diferenças ideológicas não devem ser obstáculo para maior integração entre vizinhos” .

Sem mencionar diretamente os Estados Unidos ou Donald Trump, o presidente criticou o que chamou de “ingerência externa em processos eleitorais” . “A democracia está novamente em xeque. Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais”. A declaração foi interpretada como um recado direto ao governo americano, que em maio recebeu na Casa Branca o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) , principal adversário de Lula na disputa presidencial.

O presidente também defendeu que o Brasil precisa de “parceiros com agenda positiva, que fomentem o desenvolvimento” , e não de subordinação a potências estrangeiras.

Combate ao crime organizado e resposta aos EUA

Sobre o combate ao crime organizado transnacional, Lula adotou um tom que mesclou disposição para cooperar e firmeza na defesa da soberania. “O Brasil não subestima o crime organizado. Estamos preparados para enfrentar os criminosos. Mas não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras. Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas armas “, afirmou.

A declaração é uma resposta à decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, medida que o governo brasileiro classificou como “irresponsável” . Lula tem reiterado que a cooperação internacional é bem-vinda, mas sem violação da soberania nacional .

Meio ambiente e recursos estratégicos

Na área ambiental, Lula destacou a queda do desmatamento na Amazônia e defendeu a exploração da Margem Equatorial e das terras raras em benefício da população brasileira. O presidente mencionou a COP30 e apresentou o Brasil como defensor de um modelo de desenvolvimento que combine crescimento econômico e preservação ambiental .

Lula também alertou para o avanço da corrida armamentista e para a disputa internacional pelo controle de recursos naturais estratégicos, temas que ganharam peso no discurso deste ano.

Conflitos internacionais

O presidente abordou os principais conflitos globais, criticando o governo de Benjamin Netanyahu pelo que classificou como genocídio na Faixa de Gaza . Lula afirmou que “civis israelenses pagaram o preço do radicalismo e da intolerância dos atos terroristas do Hamas” e defendeu o papel de Francesca Albanese, relatora especial da ONU para os territórios palestinos ocupados.

Sobre a guerra no Oriente Médio, Lula alertou que “o Estreito de Ormuz transformou-se em trincheira da guerra quando deveria permanecer uma passagem vital para o comércio internacional”, destacando o impacto do conflito sobre os preços de combustíveis, fertilizantes e alimentos em todo o mundo.

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Regulação digital e inteligência artificial

Outro tema presente no discurso foi a regulação das plataformas digitais e os desafios impostos pelo avanço da inteligência artificial. Lula defendeu a proteção de crianças e mulheres no ambiente digital e citou o ECA Digital como referência para a regulação.

Contexto eleitoral e recados ao eleitorado brasileiro

A fala de Lula ocorreu em um momento de tensão diplomática entre Brasil e Estados Unidos, com o governo Trump mantendo um tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros e o governo brasileiro estudando uma lista de reciprocidade econômica. Lula já havia chamado Trump de “imperador” em entrevista à CNN no dia anterior, afirmando que ele age como se todos tivessem que obedecer à “lei do mais forte” .

A passagem pela ONU interrompeu por 48 horas a campanha eleitoral do presidente, que disputa a reeleição contra Flávio Bolsonaro. O discurso foi preparado com o objetivo de falar para o público doméstico em meio à corrida eleitoral, usando a tribuna internacional para reforçar soberania e democracia — duas de suas principais bandeiras na disputa.

Segundo aliados, a estratégia é combinar firmeza com linguagem diplomática, sem ataques ou referências nominais a alvos das críticas, mas com recados diretos ao eleitor brasileiro sobre a defesa do país contra interferências externas.

Após o discurso, Lula embarcou de volta ao Brasil no início da tarde desta terça (22). O presidente retoma a campanha eleitoral nos próximos dias, com agendas previstas em estados-chave para a disputa. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro.

Referência

UOL — Em tom duro, Lula critica ONU diante dos ‘desmandos de superpotências’.

G1 — Na ONU, Lula defende soberania e diz que Brasil ‘não cabe no quintal de ninguém’.

Agência Brasil — ONU: Lula apoiará multilateralismo e reforma do Conselho de Segurança.

Folha de S.Paulo — Na ONU, Lula critica ingerência externa nas eleições, sem mencionar EUA.

CNN Brasil — Lula discursa na Assembleia Geral da ONU; acompanhe.

O Globo — Lula prepara defesa da soberania e recados contra interferência externa em discurso na ONU.

O Globo — Lula diz que Trump ‘age como imperador’ e que estuda produtos para incluir em lista de reciprocidade após tarifaço dos EUA.

O Povo — Lula faz passagem relâmpago na ONU onde fará discurso voltado ao público interno.

CNN Brasil — Lula chega a Nova York para Assembleia Geral da ONU.

O Globo — Lula defende ‘soberania’ e relembra discursos anteriores em postagem horas antes de discurso na Assembleia da ONU.

Nota editorial

As informações relatadas nesta matéria refletem o discurso proferido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na abertura da 81ª Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas, em 22 de setembro de 2026, e reportagens de veículos de imprensa que acompanharam o evento. As críticas à ONU e ao Conselho de Segurança são posições oficiais do governo brasileiro. Os recados contra interferência externa são direcionados ao governo dos Estados Unidos, embora não haja menção nominal a Donald Trump ou ao país no discurso, a interpretação é baseada no contexto das relações bilaterais e em declarações prévias de Lula. A proposta de reforma do Conselho de Segurança é uma defesa histórica da diplomacia brasileira e não uma medida a ser implementada unilateralmente. O impacto eleitoral do discurso é uma análise política e não uma previsão de resultado. O espaço para manifestação do governo americano e de outros envolvidos permanece aberto.

Luiz Gomes
Sobre o autor

Luiz Gomes

Luiz Gomes é redator de notícias e produtor de conteúdo digital, Atua a mais de 20 anos como professor de Geografia com foco em Geopolítica.

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