Saúde e bem estar

Você sabe o que quer ou aprendeu a querer o que esperam de você?

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Por Leo Oliveira — Psicanalista

Desde cedo, aprendemos que algumas escolhas são consideradas certas.

Uma boa profissão. Um bom casamento. Uma carreira estável. Uma casa. Filhos. Dinheiro. Sucesso.

A família aconselha. A sociedade estabelece padrões. Os amigos influenciam. As redes sociais mostram o que parece ser uma vida desejável.

E, pouco a pouco, podemos começar a confundir uma coisa bastante delicada: aquilo que desejamos com aquilo que aprendemos que deveríamos desejar.

A pergunta parece simples:

Você sabe o que quer?

Mas talvez exista uma pergunta ainda mais difícil:

E se parte do que você quer nunca tivesse sido realmente seu?

Quando o desejo vem acompanhado de um “dever”

Imagine alguém que passou anos estudando para uma profissão porque ouviu desde criança que aquela carreira garantiria sucesso.

Consegue o diploma.

Consegue o emprego.

Recebe reconhecimento.

Mas continua sentindo um vazio que não sabe explicar.

Ou pense em alguém que permanece em um relacionamento porque “depois de tantos anos não faz sentido terminar”.

Ou naquele filho que escolheu determinado caminho para não decepcionar os pais.

Ou ainda naquela pessoa que trabalha incessantemente para alcançar um padrão de vida que, quando finalmente alcança, não produz a satisfação que imaginava.

Nada disso significa necessariamente que essas escolhas sejam erradas.

O ponto é outro.

Quem está escolhendo?

A psicanálise desconfia das respostas prontas

Para a psicanálise, o desejo humano não é algo tão simples quanto fazer uma lista de vontades e escolher uma delas.

Em Lacan, a relação entre sujeito, desejo e o chamado “Outro” ocupa um lugar central. O sujeito se constitui na relação com a linguagem, com os outros e com as expectativas que encontra no mundo. Por isso, pode existir uma confusão entre aquilo que o sujeito deseja e aquilo que imagina que o Outro espera dele.

É daí que surge uma pergunta desconfortável:

“Eu quero isso ou quero ser aquilo que preciso ser para ser amado, reconhecido ou aceito?”

São coisas diferentes.

Uma pessoa pode desejar determinada profissão.

Mas também pode desejar o reconhecimento que acredita que aquela profissão proporciona.

Pode desejar um relacionamento.

Mas também pode desejar a segurança de não ficar sozinha.

Pode desejar dinheiro.

Mas talvez esteja buscando, por meio dele, uma sensação de valor pessoal.

Pode desejar aprovação.

E talvez nem perceba que passou a vida tentando provar que merece ser aprovada.

O desejo, portanto, pode estar escondido atrás de muitas outras coisas.

Quando viver para agradar começa a cobrar uma conta

Existe uma diferença importante entre considerar o outro e viver em função do outro.

Todos nós somos influenciados por nossas relações. Família, cultura, sociedade, condições econômicas e experiências pessoais participam da construção da nossa vida. A própria saúde mental é influenciada por fatores sociais, econômicos, ambientais e pelas redes de apoio.

Portanto, não existe uma vida completamente isolada das expectativas externas.

O problema aparece quando a pessoa já não consegue distinguir sua própria voz das vozes que aprendeu a obedecer.

“Meu pai queria que eu fosse médico.”

“Minha mãe sempre sonhou que eu me casasse.”

“Na minha família, todo mundo tem uma profissão de sucesso.”

“Eu precisava mostrar que tinha vencido.”

“Eu não podia decepcionar ninguém.”

Até que um dia surge uma pergunta assustadora:

“E eu? O que eu queria?”

O preço de realizar sonhos que não são seus

Talvez uma das experiências mais difíceis seja conquistar exatamente aquilo que você acreditava querer e, ainda assim, não se sentir realizado.

Porque nesse momento desaparece uma espécie de desculpa.

Enquanto algo ainda está sendo buscado, podemos acreditar:

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“Quando eu conseguir, finalmente vou ficar bem.”

Quando conseguimos e o vazio permanece, somos obrigados a olhar para uma questão mais profunda.

Talvez o problema não estivesse na falta daquilo que foi conquistado.

Talvez estivesse na pergunta que nunca foi feita.

“Por que eu quero isso?”

Na clínica psicanalítica, esse tipo de questionamento não significa entregar ao paciente uma resposta sobre o que ele deve fazer. O trabalho é justamente abrir espaço para que ele possa falar, associar, questionar e reconhecer algo da própria posição diante do desejo.

A psicanálise não oferece uma fórmula para descobrir “o desejo verdadeiro”.

Ela trabalha com aquilo que aparece na fala, nos conflitos, nas repetições, nos sintomas e nas contradições do sujeito.

E se decepcionar os outros fizer parte de se encontrar?

Essa talvez seja a parte mais difícil.

Porque escolher a própria vida pode significar, em determinados momentos, contrariar expectativas.

Nem sempre será possível agradar aos pais.

Nem sempre o parceiro compreenderá imediatamente.

Nem sempre os amigos concordarão.

Nem sempre a sociedade reconhecerá a escolha.

Autonomia não significa deixar de considerar os outros.

Significa também conseguir reconhecer que a vida é sua.

No campo da saúde mental, a autonomia e o respeito às escolhas da pessoa são princípios importantes no cuidado. O Ministério da Saúde, por exemplo, destaca a autonomia, a dignidade e a liberdade como princípios da atenção em saúde mental.

Mas existe uma diferença entre autonomia e impulsividade.

Fazer tudo o que dá vontade não é necessariamente ser livre.

Às vezes, liberdade é justamente conseguir suportar a angústia de não corresponder à expectativa de alguém.

Talvez a pergunta não seja “o que eu quero?”

Talvez seja preciso começar por perguntas menores.

O que eu faço apenas porque tenho medo de decepcionar alguém?

O que eu continuaria fazendo se ninguém soubesse?

Que escolhas eu faria se não precisasse provar nada para ninguém?

O que eu digo que quero, mas nunca consigo sustentar quando chega a hora de realizar?

Que vida eu estou tentando construir: a que desejo ou a que aprendi que deveria desejar?

Não são perguntas com respostas rápidas.

E talvez seja justamente esse o ponto.

A psicanálise não promete eliminar todas as dúvidas.

Ela pode ajudar o sujeito a se aproximar delas.

Porque, muitas vezes, amadurecer não significa finalmente descobrir exatamente quem somos.

Significa começar a perceber quantas coisas fizemos para sermos aquilo que os outros esperavam que fôssemos.

E talvez uma das tarefas mais difíceis da vida seja separar, pouco a pouco, a voz do desejo das vozes que aprendemos a obedecer.

Há pessoas que passam a vida inteira realizando sonhos que nunca tiveram.

Talvez o primeiro passo para mudar isso seja simplesmente ter coragem de perguntar:

“Se ninguém esperasse nada de mim, o que eu escolheria?”

Fontes

  • Ministério da Saúde — Saúde Mental: fatores sociais, ambientais, econômicos e relacionais envolvidos na saúde mental.
  • Ministério da Saúde — SUS e a Saúde Mental: autonomia, dignidade e liberdade como princípios do cuidado em saúde mental.
  • SciELO — estudos sobre Lacan, desejo, demanda e desejo do Outro, abordando a relação entre o sujeito e as expectativas do Outro.
  • Steinberg, S. A. — trabalhos sobre o grafo do desejo e a relação entre sujeito, desejo e discurso na obra de Lacan.

Nota Editorial

Este conteúdo apresenta uma reflexão de caráter psicanalítico e jornalístico sobre comportamento e subjetividade. Não tem finalidade de diagnóstico, tratamento ou substituição de acompanhamento profissional. As referências à psicanálise são utilizadas para estimular reflexão sobre experiências humanas e não devem ser interpretadas como explicação única para comportamentos individuais.

Léo Oliveira
Sobre o autor

Léo Oliveira

Leo Oliveira é esposo, pai, filho, psicanalista, escritor e editor da coluna Saúde e Bem-Estar do Arena Remix. Atua na área da saúde mental com um olhar voltado à compreensão do comportamento humano, das relações e dos conflitos emocionais presentes no cotidiano. Seu trabalho busca aproximar a Psicanálise da vida real, utilizando uma linguagem acessível, direta e humana, sem excesso de termos técnicos ou respostas prontas. Como escritor e produtor de conteúdo, aborda temas como relacionamentos, família, dependência emocional, narcisismo, infância, ansiedade, autoconhecimento e os padrões que muitas vezes repetimos sem compreender. À frente da coluna Saúde e Bem-Estar, Leonardo propõe uma reflexão sobre como cuidamos de nós mesmos, das nossas relações e da nossa vida emocional, partindo de uma ideia simples: entender o que sentimos também é uma forma de cuidar de nós.

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