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Por Arena Remix – Luiz Gomes
Especial de dados | Eleições 2026
No mapa eleitoral de 2026, a mudança não aparece como um ponto isolado. Ela se espalha.
Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Lula por 2.224.965 votos. Foi uma vantagem estreita em um país com quase 120 milhões de votos válidos, mas suficiente para reorganizar o desenho político do Brasil e levar a disputa ao segundo turno.
Esse resultado como a reação do “brasileiro médio”: O trabalhador da periferia, o eleitor católico, a classe C, as cidades pequenas e os bairros populares. A tese é poderosa porque oferece uma explicação única para fenômenos diferentes.
Mas uma reportagem de dados precisa fazer uma pergunta incômoda: o que está comprovado, o que é uma inferência plausível e o que ainda não pode ser demonstrado?
A resposta é menos confortável — e mais interessante.
O placar oficial
A totalização final do Tribunal Superior Eleitoral registra 158,7 milhões de eleitores aptos no primeiro turno. Compareceram 125,3 milhões. Outros 33,5 milhões não foram votar.
Dos que compareceram, 119,3 milhões depositaram votos válidos. Flávio Bolsonaro obteve 56,1 milhões; Lula, 53,9 milhões. A diferença foi de pouco mais de 2,2 milhões de votos.

Crédito e fonte: Arena Remix; dados do TSE, totalização final.
O primeiro ajuste importante está na abstenção. O vídeo afirma que ela ficou em 20,8% e foi “igualzinha” à de 2022. Não foi.

Crédito e fonte: Arena Remix; TSE e levantamentos jornalísticos baseados em dados oficiais.
Em 2026, a taxa oficial foi de 21,08%. Em 2022, havia sido de 20,95%. A diferença é pequena, 0,13 ponto percentual, mas existe. Em números absolutos, foram aproximadamente 698 mil ausentes a mais.
A diferença não invalida a tese de que o eleitorado mudou. Ela apenas impede uma conclusão mais forte: os dados não mostram que “ninguém ficou em casa mais”. Mostram que o país compareceu um pouco menos proporcionalmente.
O país mudou de cor, mas em qual escala?
Levantamentos jornalísticos independentes, baseados em dados do TSE, registraram que Flávio passou a liderar em 714 municípios nos quais Lula havia sido o mais votado em 2022. Também houve municípios em que a maioria de Jair Bolsonaro em 2022 passou para Flávio em 2026.
Esse movimento é real como mudança de maioria municipal. Mas há uma diferença fundamental entre dizer que um município mudou de vencedor e afirmar que os mesmos eleitores trocaram de candidato.
O voto é secreto. O resultado publicado pelo TSE é agregado. Ele mostra quantos votos cada candidato recebeu em uma seção, zona, município ou estado, não a trajetória individual de cada pessoa.
É por isso que “Lula perdeu 714 cidades” não significa automaticamente “714 cidades abandonaram Lula por Flávio”. Parte dos votos pode ter ido para outros candidatos, para branco ou nulo, ou simplesmente não ter sido registrada porque o eleitor não compareceu.
A fronteira que o vídeo não atravessa
A afirmação mais chamativa, a de que Flávio teve mais votos que Jair Bolsonaro em nove de cada dez locais de votação, não foi possível de reproduzir com os dados públicos localizados.
Faltam o numerador, o denominador, a lista de locais, o código de pareamento entre 2022 e 2026, a regra para empates e a definição exata de “mais voto”. “Local de votação”, “seção eleitoral” e “município” também não são sinônimos.
A tese pode até estar correta. O problema jornalístico é outro: sem método publicado, ela não pode ser tratada como fato independente.
O mapa confirma a virada regional
Quando a análise sobe do município para a unidade federativa, o desenho fica mais nítido.
Flávio foi o mais votado em 15 estados e no Distrito Federal. Lula liderou em 12 estados. O Nordeste permaneceu majoritariamente lulista, enquanto Flávio abriu vantagem em grande parte do Sul, do Centro-Oeste e do Sudeste.

Crédito e fonte: Arena Remix; resultados nominais do TSE por unidade federativa.
O mapa não diz que todo o Nordeste votou em Lula, nem que todo o Sul votou em Flávio. Ele mostra apenas quem terminou à frente em cada UF.
Essa distinção é importante. O mapa revela uma clivagem regional ampla, mas não prova que a virada tenha sido causada principalmente pelas cidades pequenas, pela periferia ou por um único grupo social.
Para sustentar essa conclusão, seria necessário cruzar os resultados de 2022 e 2026 por município, controlar o tamanho do eleitorado e publicar a regra usada para definir “capital”, “interior”, “cidade pequena” e “rural”.
A abstenção não tem uma única geografia
A taxa nacional esconde diferenças importantes.
Há estados com abstenção abaixo de 17% e outros acima de 23%. São Paulo registrou 22,54%. Mato Grosso do Sul chegou perto de 24%. Ceará ficou pouco acima de 15%.

Crédito e fonte: Arena Remix; totalização final do TSE.
O mapa ajuda a responder uma pergunta, mas não todas. Ele mostra onde a ausência foi maior. Não mostra quem faltou, por que faltou ou em quem votaria.
A alegação de que a abstenção cresceu mais nas zonas que haviam dado maioria a Lula em 2022 exigiria uma tabela completa por zona, com os mesmos recortes geográficos nos dois pleitos e médias ponderadas pelo eleitorado. Essa tabela não foi publicada junto com a análise do vídeo.
É possível que exista uma associação. O que não é possível é convertê-la automaticamente em uma história individual: “o eleitor de Lula ficou em casa”.
O eleitor da classe C existe. A certeza sobre seu voto, não
A classe C como é o centro da virada. Há evidências de que renda e escolaridade se relacionam com a preferência eleitoral. Pesquisas do Datafolha apontaram Lula à frente entre entrevistados com menor renda, enquanto Flávio aparecia melhor nas faixas superiores.
Uma análise publicada na imprensa também encontrou Flávio à frente na classe C e entre os grupos de maior renda 6. Mas a própria publicação contradiz uma frase importante da transcrição: na classe A, Flávio aparece à frente de Lula, e não o contrário.
Existe ainda uma questão metodológica. Quando uma análise associa cada seção eleitoral a uma estimativa de renda do entorno, ela está medindo uma característica territorial ou domiciliar. Não está observando a renda individual de cada eleitor nem identificando qual eleitor escolheu qual candidato.
Esse tipo de cruzamento pode revelar padrões. Não pode, sozinho, eliminar a chamada falácia ecológica: o risco de atribuir a todos os indivíduos de um lugar o comportamento médio daquele lugar.
Religião: tendência real, número impossível de atribuir à urna
As pesquisas encontraram uma divisão religiosa consistente. Lula aparece mais forte entre católicos; Flávio, entre evangélicos. Duas pesquisas nacionais apontaram essa direção em levantamentos diferentes.
Esse dado é relevante. Mas ele é resultado de pesquisa amostral, não de uma contagem oficial de votos por religião.
A transcrição afirma que mais de quatro milhões de votos recebidos por Flávio vieram de católicos, usando dados da PNAD Contínua. A checagem encontrou um problema central: a PNAD Contínua não tem quesito de religião em seu questionário. O Censo do IBGE coleta essa informação, mas mede a população residente de 10 anos ou mais, não os votos depositados por eleitores aptos.
A conclusão mais segura é esta: a religião ajuda a explicar o ambiente eleitoral, mas não permite reconstruir a cédula individual.
O segundo turno não é uma planilha de transferência
A conta começa com um dado simples: Flávio saiu na frente.
A liderança de 2,2 milhões de votos torna razoável dizer que ele precisa preservar sua vantagem e conquistar parte dos votos dos candidatos eliminados. Também é correto afirmar que Lula precisa crescer mais rapidamente.
O problema aparece quando votos de terceiros são tratados como um estoque pronto para ser transferido.
Caiado, Renan Santos, Augusto Cury e Zema somaram milhões de votos, mas esses eleitores não formam um bloco homogêneo. Pesquisas diferentes chegaram a resultados diferentes sobre para onde eles tenderiam a ir. Parte declarou preferência por um candidato; parte preferiu branco, nulo ou não votar.
O que os dados permitem dizer depois da eleição
O TSE disponibiliza resultados por país, estado, município e zona eleitoral, além de boletins de urna e arquivos que podem ser baixados para auditoria [13]. Para comparar dois pleitos, o procedimento correto é fixar o turno e a data, usar a mesma unidade territorial, informar o denominador e separar votos válidos, comparecimento, brancos, nulos e abstenção.
Essa regra continua útil para qualquer eleição: um mapa de vencedores mostra distribuição territorial; uma pesquisa mostra opinião de uma amostra; e uma análise individual exige dados individuais, que não podem ser obtidos a partir do voto secreto.
Conclusão
O Brasil de 2026 não cabe na frase “a elite votou em Lula e o povo votou em Flávio”.
Os dados mostram um país dividido por região, renda, escolaridade, religião, idade e participação, mas essas divisões se sobrepõem. Não existe uma única linha separando dois eleitorados puros.
Há uma virada municipal documentada. Há uma vantagem regional visível. Há pesquisas que apontam diferenças por renda e religião. Há uma abstenção ligeiramente maior. Há também números exagerados, denominadores misturados e conclusões que não podem ser auditadas.
A grande história não é que um grupo inteiro “descobriu” um candidato. É que diferentes grupos, em diferentes lugares, produziram uma diferença pequena o bastante para ser disputada no segundo turno, e grande o bastante para desmontar explicações fáceis.
No próximo domingo eleitoral, não bastará contar quantos votos cada candidato soma. Será preciso observar onde esses votos aparecem, quem retorna às urnas e quais grupos cada campanha consegue ouvir sem transformar o eleitor em caricatura.
Porque o mapa mostra a direção da mudança. Mas só a apuração, e uma análise honesta, pode dizer até onde ela realmente foi.
Ficha técnica
Dados oficiais: Tribunal Superior Eleitoral, totalização final do primeiro turno de 2026.
Unidades dos mapas: unidades federativas.
Denominador da abstenção: eleitorado apto.
Denominador dos candidatos: votos válidos.
Limitação principal: resultados agregados não identificam o voto individual.
Referências
[1] TSE — totalização de comparecimento e abstenção em 2026
[2] TSE — resultados nominais para presidente em 2026
[3] TSE — totalização do primeiro turno de 2022
[4] CNN Brasil — mudança de liderança em municípios
[5] Folha — transição municipal entre 2022 e 2026
[6] O Globo — voto e estimativa territorial de renda
[7] Datafolha — renda e escolaridade
[8] Datafolha — religião
[9] Quaest — religião e voto
[10] IBGE — questionário da PNAD Contínua
[11] Quaest — eleitores de candidatos eliminados
[12] Meio/Ideia — cenários de transferência no segundo turno
Nota editorial
Esta reportagem confirmou os números nacionais da totalização final do TSE, a distribuição do candidato mais votado por unidade federativa e, por levantamentos jornalísticos baseados no TSE, a mudança de liderança em 714 municípios. Também foram consultados dados oficiais de 2022, pesquisas de intenção de voto, documentos do IBGE e fontes jornalísticas independentes.
As afirmações sobre “nove de cada dez locais”, bairros, renda, religião, abstenção por zonas e migração individual de votos não puderam ser reproduzidas integralmente com as bases públicas localizadas. Elas foram tratadas como alegações, associações ou estimativas, conforme o caso. Não há base para concluir, a partir dos agregados, culpa, favorecimento, causalidade ou a escolha individual de qualquer eleitor.
Os resultados jornalísticos sobre municípios foram publicados em diferentes momentos da apuração e apresentam pequenas divergências em subtotais; por isso, o texto registra o corte da fonte e prioriza a totalização final do TSE para os números nacionais. As tags foram escolhidas por aderência ao tema e à intenção de busca; não foi usada uma série pública do Google Trends como fonte factual.

