Coluna

Crônica: A Eucaristia do Pastel

•

Há um sacramento que nenhuma igreja institui, nenhuma constituição prevê e, ainda assim, nenhum candidato brasileiro ousa pular: O PASTEL DE FEIRA. Frito, quente, acompanhado do caldo de cana ritualístico, ele é o batismo obrigatório de quem quer ser ungido “povo”, mesmo que, minutos antes, tenha descido de um SUV blindado com assessoria de imprensa carregando o guardanapo.

Não existe convenção partidária, manual de marketing ou consultor eleitoral suíço que explique por completo por que essa cena se repete, idêntica a cada dois anos, em praticamente todo palanque do país. O político avança pela feira como quem atravessa um corredor polonês de simpatia forçada, aperta mãos que não vai lembrar, elogia a barraca do peixe com uma efusão que nenhum ser humano normal tem antes das nove da manhã e, finalmente, senta, ou finge sentar, porque em geral fica de pé, pastel na mão, câmera plantada exatamente no ângulo que capta o guardanapo com a logomarca do coordenador de campanha.

A pergunta que ninguém faz, porque estragaria a festa, é: desde quando comer pastel é prova de qualquer coisa? Não é prova de honestidade, ladrão também tem fome. Não é prova de competência administrativa, não existe correlação estatística entre mastigar massa frita em público e saber equilibrar orçamento de saúde. É, na verdade, prova de uma coisa só: de que a campanha tem verba para logística e assessoria de imagem suficiente para produzir, com aparência de espontaneidade, o gesto mais ensaiado da política brasileira.

E o eleitor, esse personagem tratado ora como massa de manobra, ora como sábio incorruptível, participa do jogo com uma cumplicidade quase carinhosa. Sabe que é encenação. Vê a van de apoio estacionada dois quarteirões antes. Reconhece o cinegrafista contratado disfarçado de curioso. E, ainda assim, tira foto, sorri, às vezes até vota. Porque o pastel não é sobre o pastel. É sobre a fantasia mútua de proximidade, o teatro consentido em que, por três minutos, o poderoso finge ser gente como a gente, e a gente finge acreditar, porque a alternativa, admitir que a distância é estrutural e nenhuma fritura vai atravessá-la, é desconfortável demais para caber numa manhã de sábado na feira.

Há algo profundamente brasileiro nessa cerimônia: a crença de que o afeto performado vale tanto quanto, ou mais do que, o resultado entregue. Um político pode reprovar todos os indicadores de gestão e ainda assim sair da feira com aprovação em alta, porque comeu pastel com gosto, porque elogiou a senhora da barraca de tempero, porque parecia, palavra mágica, “de boa”. A performance de proximidade virou substituto funcional da própria política, uma anestesia açucarada de caldo de cana que adoça a ausência de projeto.

E o mais irônico é que o rito sobrevive incólume a todas as crises que deveriam, em tese, sofisticar o debate público. Denúncia de corrupção, escândalo bilionário, crise institucional no Supremo, nada disso cancela a próxima ida à feira. Pelo contrário: quanto mais grave a crise, mais necessário o pastel, porque é nele que a campanha tenta reconquistar, com massa frita, a confiança que a política perdeu com atos concretos. O pastel não é ingenuidade folclórica: é estratégia de reparação de imagem tão calculada quanto qualquer nota oficial redigida por assessoria jurídica.

Talvez o verdadeiro teste de maturidade democrática não seja o dia em que os políticos pararem de comer pastel em campanha, isso não vai acontecer. É rito, é liturgia, é parte do folclore eleitoral, tanto quanto o jingle e o santinho no chão. O teste real é o dia em que o eleitor parar de confundir o gesto com o conteúdo, a mastigada com o mandato, o sorriso com o programa de governo. Até lá, seguimos nesse acordo tácito e nacional: eles fingem que estão entre o povo, nós fingimos que isso significa alguma coisa e o caldo de cana, pelo menos esse, continua sendo a única coisa naquela cena que entrega exatamente o que promete.

ASSINANTES

Conteúdo exclusivo para assinantes

Assine para continuar lendo esta coluna. Você pode escolher apenas leitura ou uma modalidade Colunista, que também libera seu espaço de publicação.

Luiz Gomes
Sobre o autor

Luiz Gomes

Luiz Gomes é redator de notícias e produtor de conteúdo digital, Atua a mais de 20 anos como professor de Geografia com foco em Geopolítica.

Redes sociais

Deixe uma resposta