Saúde e bem estar

O personagem por trás das câmeras: quando a identidade vira ferramenta de golpe.

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Por Leo Oliveira – Psicanalista.

Nas redes sociais, nem sempre estamos diante de uma pessoa. Às vezes, estamos diante de um personagem. E o problema começa quando esse personagem é criado para obter alguma coisa de nós.

Você acompanha alguém nas redes sociais.

A pessoa parece bem-sucedida, segura, generosa, inteligente, espiritualizada, apaixonada, rica, influente ou simplesmente “boa demais para ser verdade”.

Ela fala exatamente aquilo que você gostaria de ouvir.

Mostra a rotina perfeita.

Conta histórias emocionantes.

Exibe conquistas.

Demonstra intimidade com os seguidores.

E, pouco a pouco, constrói algo muito poderoso: confiança.

É justamente aí que mora o perigo, em determinados casos, o personagem não foi criado apenas para representar uma versão editada da própria vida. Ele foi construído para produzir uma impressão específica e, posteriormente, obter alguma vantagem.

Dinheiro, seguidores, informações pessoais, investimentos, produtos, relacionamentos, favore ou simplesmente poder sobre o outro.

A pergunta que a psicanálise pode fazer é incômoda:

quem é essa pessoa quando as câmeras estão desligadas?

A vida nas redes é também uma construção de imagem.

Antes de falar em golpe, é importante entender que todos nós fazemos algum tipo de seleção daquilo que mostramos.

Não publicamos todos os nossos fracassos.

Não fotografamos todas as discussões.

Não mostramos todas as inseguranças.

Existe uma diferença entre a pessoa que somos em nossa intimidade e a imagem que apresentamos ao mundo.

Isso, por si só, não significa mentira.

Na psicanálise, podemos pensar que o sujeito está constantemente lidando com a maneira como deseja ser visto pelo outro.

Freud, ao discutir o narcisismo e o ideal do eu, já trabalhava com a ideia de que o sujeito pode construir uma imagem idealizada de si e buscar reconhecimento a partir dela.

Nas redes sociais, essa dinâmica encontra um palco praticamente perfeito.

Existe público.

Existe aprovação.

Existe comparação.

Existe recompensa imediata na forma de curtidas, comentários, compartilhamentos e seguidores.

O problema aparece quando a imagem deixa de ser apenas uma representação e passa a ser utilizada como instrumento de manipulação.

O personagem pode ser mais poderoso do que a pessoa.

Winnicott desenvolveu o conceito de falso self para pensar as formas pelas quais uma pessoa pode organizar uma maneira de se apresentar e se adaptar ao mundo. É importante não transformar esse conceito clínico em sinônimo de “perfil falso”: para Winnicott, algum grau de adaptação faz parte da vida saudável. O problema está em determinadas formas de afastamento da espontaneidade e da experiência de si.

Nas redes, podemos utilizar essa ideia como uma chave de reflexão, não como diagnóstico.

Imagine alguém que constrói uma identidade virtual absolutamente impecável.

O profissional que nunca fracassa.

A mulher que tem o relacionamento perfeito.

O homem que parece ter dinheiro para tudo.

O especialista que tem resposta para qualquer problema.

O influenciador que se apresenta como alguém que “descobriu a fórmula da vida”.

Quanto mais perfeita a imagem, maior pode ser a distância entre aquilo que é mostrado e aquilo que existe fora da câmera.

E essa distância pode ser explorada.

O golpe começa quando alguém percebe que pode transformar a nossa crença no personagem em benefício próprio.

O golpista não precisa apenas mentir. Ele precisa ser acreditado

Esse talvez seja o ponto mais importante.

Um golpe bem construído não depende apenas de uma mentira.

Depende da nossa participação emocional.

O golpista precisa que a vítima acredite.

Por isso, muitos golpes começam estabelecendo algum tipo de vínculo.

“Ele parece tão confiável.”

“Ela conversa comigo todos os dias.”

“Ele entende exatamente o que estou passando.”

“Ela tem milhares de seguidores.”

“Todo mundo fala bem dele.”

“Ele parece ter uma vida muito bem-sucedida.”

A confiança diminui nossa vigilância.

E as redes sociais facilitam enormemente esse processo.

Dados recentes da Federal Trade Commission mostram que, em 2025, quase 30% das pessoas que relataram perdas financeiras em golpes disseram que o contato inicial ocorreu pelas redes sociais. As perdas relatadas em golpes iniciados nessas plataformas chegaram a US$ 2,1 bilhões naquele ano.

No Brasil, órgãos públicos também alertam para perfis falsos que imitam pessoas conhecidas, influenciadores e empresas.

O Ministério da Fazenda, por exemplo, já alertou sobre golpes em que criminosos copiavam nome, fotografias e publicações de influenciadores para depois abordar seguidores com propostas de investimento.

Ou seja:

a aparência de autenticidade pode ser fabricada.

Por que acreditamos?

Essa pergunta merece mais atenção do que simplesmente dizer que “as pessoas são ingênuas”.

Não são.

O ser humano estabelece vínculos por meio da confiança.

Quando alguém conversa conosco diariamente, demonstra preocupação, compartilha histórias pessoais e parece conhecer nossas necessidades, criamos uma narrativa sobre aquela pessoa.

Passamos a preencher as lacunas.

E é justamente nessas lacunas que o personagem pode crescer.

A pessoa deixa de ser apenas um perfil.

Ela passa a ocupar um lugar psíquico.

Pode representar o amigo que faltou.

O amor que não chegou.

O mentor que gostaríamos de ter.

A oportunidade financeira que esperávamos.

A pessoa que finalmente nos enxerga.

É por isso que alguns golpes são tão difíceis de perceber.

Não estamos apenas acreditando em uma informação. Estamos acreditando em uma relação.

E existe outro detalhe: o algoritmo ajuda a construir o personagem.

As redes sociais não mostram necessariamente a realidade.

Elas mostram aquilo que consegue prender nossa atenção.

Um perfil pode selecionar cuidadosamente fotografias, frases, viagens, conquistas e histórias até produzir uma narrativa coerente sobre quem aquela pessoa “parece ser”.

A FTC destaca justamente que os golpistas podem utilizar informações disponíveis nos perfis para adaptar sua abordagem aos interesses e características de cada pessoa.

Quanto mais informações disponibilizamos publicamente, mais material existe para alguém construir uma abordagem personalizada.

É quase como entregar ao desconhecido o roteiro de como nos convencer.

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Como perceber que existe um personagem por trás da câmera?

Não existe uma fórmula capaz de identificar todos os golpistas.

Mas alguns sinais merecem atenção.

1. A imagem é perfeita demais

Não significa que uma pessoa bem-sucedida esteja necessariamente mentindo.

Mas quando absolutamente tudo parece extraordinário, vale investigar.

2. A intimidade acontece rápido demais

A pessoa que acabou de conhecer você já diz que confia em você.

Conta segredos.

Cria uma conexão intensa.

Faz promessas.

E rapidamente começa a pedir alguma coisa.

Velocidade emocional também pode ser uma estratégia.

3. Existe sempre uma urgência.

“Preciso disso hoje.”

“É a última oportunidade.”

“Não conte para ninguém.”

“Se você confiar em mim, faça agora.”

A urgência reduz o tempo que temos para pensar.

4. A história não pode ser verificada.

Fotos podem ser copiadas.

Seguidores podem ser comprados.

Depoimentos podem ser falsificados.

Sites podem ser imitados.

Até voz, rosto e vídeos podem ser manipulados com inteligência artificial.

Em 2026, a Anatel alertou justamente para golpes que utilizam deepfakes para imitar rostos, vozes e comportamentos de pessoas conhecidas.

5. O pedido exige dinheiro ou dados pessoais.

Aqui é preciso interromper a emoção e ativar a verificação.

A FTC recomenda, entre outras medidas, pesquisar o nome da pessoa e sua história, fazer busca reversa da imagem e desconfiar especialmente quando alguém conhecido apenas pela internet pede dinheiro.

A regra mais importante: não confunda identificação com confiança

Talvez essa seja uma das maiores armadilhas das redes sociais.

Nós vemos alguém todos os dias e sentimos que conhecemos aquela pessoa.

Mas assistir alguém diariamente não significa conhecê-lo.

Você conhece aquilo que aquela pessoa decidiu mostrar.

Frequência não é intimidade.

Seguidores não são testemunhas de caráter.

Popularidade não é prova de honestidade.

E uma fotografia não é uma biografia.

Como se proteger?

A primeira defesa é simples, embora nem sempre fácil:

diminua a velocidade.

Se alguém provoca uma reação emocional muito intensa — entusiasmo, medo, paixão, urgência ou esperança — não tome decisões importantes imediatamente.

Verifique.

Pesquise.

Converse com alguém de confiança.

Procure informações fora do perfil da própria pessoa.

Não envie dinheiro para alguém que você conhece apenas virtualmente.

Não tome decisões financeiras baseadas exclusivamente em recomendações recebidas pelas redes sociais.

E não forneça informações pessoais simplesmente porque alguém parece confiável.

Quando houver suspeita, denuncie o perfil na própria plataforma.

No Brasil, o Ministério da Justiça orienta vítimas de perfis falsos a procurar os canais oficiais da plataforma, não realizar pagamentos, avisar pessoas próximas e, conforme o caso, registrar Boletim de Ocorrência.

Talvez a maior proteção seja suportar a dúvida.

Existe uma característica humana que pode nos colocar em risco:

queremos acreditar.

Queremos acreditar que aquela pessoa é exatamente aquilo que parece.

Que aquela oportunidade é verdadeira.

Que aquela história de amor é especial.

Que finalmente encontramos alguém que nos entende.

Que aquele especialista possui a resposta que ninguém mais possui.

Mas a dúvida, nesse caso, não é pessimismo.

É proteção.

A psicanálise nos ensina a desconfiar das aparências justamente porque aquilo que se apresenta nem sempre corresponde àquilo que está em jogo.

Nas redes sociais, essa reflexão ganha uma dimensão ainda maior.

Porque hoje qualquer pessoa pode construir um personagem.

E, com inteligência artificial, edição de imagens, seguidores comprados e informações disponíveis publicamente, esse personagem pode parecer extremamente convincente.

Por isso, talvez a pergunta mais importante diante de qualquer perfil não seja:

“Essa pessoa parece confiável?”

Mas:

“O que eu tenho de concreto para confiar nela?”

Existe uma diferença enorme entre as duas perguntas.

A primeira pertence à impressão.

A segunda pertence à realidade.

No fim das contas…

Por trás de toda câmera existe uma pessoa.

Mas entre a pessoa e aquilo que aparece na tela existe uma edição.

Algumas pessoas editam para preservar a própria intimidade.

Outras editam para construir uma marca.

E algumas constroem personagens para explorar a confiança de quem está do outro lado.

O problema não está em alguém mostrar apenas uma parte de si.

O problema começa quando essa parte é fabricada para esconder uma intenção.

Nas redes sociais, talvez precisemos aprender uma nova forma de inteligência emocional:

não acreditar imediatamente em tudo aquilo que desperta em nós o desejo de acreditar.

Porque o golpe mais sofisticado não é aquele que parece mentira.

É aquele que parece exatamente aquilo que você queria que fosse verdade.

Fontes consultadas

  • Winnicott, D. W.Ego Distortion in Terms of True and False Self (1960), reunido nas obras completas de Winnicott pela Oxford University Press.
  • Freud, Sigmund.Sobre o narcisismo: uma introdução (1914), texto fundamental para a discussão sobre narcisismo e ideal do eu.
  • Federal Trade Commission (FTC). — Dados sobre golpes iniciados nas redes sociais e perdas financeiras relatadas em 2025.
  • Federal Trade Commission (FTC). — Orientações para identificar perfis falsos, catfishing e golpes em redes sociais.
  • Ministério da Justiça e Segurança Pública. — Orientações para casos de perfis falsos, clonagem e golpes em redes sociais.
  • Anatel. — Campanha #FiqueEsperto 2026 sobre deepfakes, desinformação e fraudes digitais.
  • Ministério da Fazenda. — Alerta sobre perfis falsos que se passam por influenciadores para aplicar golpes financeiros.

Nota editorial

Este artigo apresenta uma reflexão psicanalítica sobre a construção de personas nas redes sociais e os mecanismos de confiança envolvidos em determinados golpes digitais. A utilização de conceitos da psicanálise, como narcisismo e falso self, não significa diagnosticar pessoas retratadas em redes sociais. Perfis, comportamentos ou situações individuais não devem ser interpretados como diagnóstico clínico. As orientações de segurança apresentadas têm caráter informativo e não substituem orientação jurídica, policial ou financeira especializada.

Léo Oliveira
Sobre o autor

Léo Oliveira

Leo Oliveira é esposo, pai, filho, psicanalista, escritor e editor da coluna Saúde e Bem-Estar do Arena Remix. Atua na área da saúde mental com um olhar voltado à compreensão do comportamento humano, das relações e dos conflitos emocionais presentes no cotidiano. Seu trabalho busca aproximar a Psicanálise da vida real, utilizando uma linguagem acessível, direta e humana, sem excesso de termos técnicos ou respostas prontas. Como escritor e produtor de conteúdo, aborda temas como relacionamentos, família, dependência emocional, narcisismo, infância, ansiedade, autoconhecimento e os padrões que muitas vezes repetimos sem compreender. À frente da coluna Saúde e Bem-Estar, Leonardo propõe uma reflexão sobre como cuidamos de nós mesmos, das nossas relações e da nossa vida emocional, partindo de uma ideia simples: entender o que sentimos também é uma forma de cuidar de nós.

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