Saúde e bem estar

Depois de Maiara & Maraisa, todo ex virou narcisista?

•
Getting your Trinity Audio player ready...

Quando uma música vira diagnóstico e qualquer decepção amorosa passa a ser chamada de abuso narcisista, precisamos conversar sobre o que realmente estamos entendendo dos relacionamentos.

Por Leo Oliveira | Psicanalista

Parece que, depois que Maiara & Maraisa lançaram a música Narcisista, o Brasil descobriu uma nova categoria de ex: o narcisista.

Antes, as pessoas terminavam relacionamentos porque eram traídas, porque o amor havia acabado, porque não existia mais diálogo ou simplesmente porque o outro era difícil de conviver, hoje basta uma discussão, uma mentira ou um término mal resolvido para surgir a sentença:

“Meu ex era narcisista!”

E o mais curioso é que, muitas vezes, esse diagnóstico não veio de uma avaliação profissional. Veio de um vídeo de trinta segundos no TikTok, de uma publicação no Instagram ou de uma conversa entre amigos.

Mas será que estamos realmente vivendo uma epidemia de narcisismo? Ou aprendemos uma palavra nova para explicar dores que sempre existiram?

A música não inventou o narcisismo, mas ajudou a popularizar a palavra.

Lançada em julho de 2023, Narcisista, de Maiara & Maraisa, retrata a indignação diante de um parceiro contraditório, infiel e incapaz de sustentar a imagem que construiu dentro do relacionamento.

A música traduz um sentimento com o qual muita gente se identifica: descobrir que a pessoa amada não era exatamente aquilo que parecia ser e não existe problema algum nisso.

A arte tem justamente essa capacidade de transformar experiências humanas em identificação coletiva, o problema começa quando uma expressão artística passa a ser utilizada como explicação clínica.

Traição não é diagnóstico. Egoísmo não é diagnóstico. Imaturidade emocional também não.

Uma pessoa pode ser infiel sem ser narcisista. Pode ser egoísta sem apresentar um transtorno. E pode ser cruel sem necessariamente possuir uma condição psiquiátrica.

Reconhecer isso não significa defender comportamentos prejudiciais. Significa apenas compreender que nem toda atitude condenável é uma doença.

Quando as redes sociais viram consultório.

Existe um fenômeno curioso acontecendo na internet.

Uma pessoa publica um vídeo ensinando cinco sinais de que você namorou um narcisista. Outra explica como reconhecer um manipulador. Uma terceira garante que o narcisista sempre volta.

Em pouco tempo, milhares de pessoas começam a reinterpretar seus relacionamentos a partir dessas informações.

Se o ex não demonstrava carinho, era narcisista.

Se não gostava de conversar sobre sentimentos, era narcisista.

Se terminou o namoro e começou outro relacionamento, era narcisista.

Se pediu para voltar, também era narcisista.

Parece que qualquer comportamento desagradável ganhou uma explicação clínica.

E não estamos falando apenas dos homens. Mulheres também passaram a receber o mesmo rótulo após términos conflituosos.

A informação sobre saúde mental tornou-se mais acessível, e isso é positivo. Mas existe uma diferença enorme entre informar e incentivar diagnósticos improvisados.

Estamos correndo o risco de transformar conflitos humanos em transtornos e de substituir a compreensão das relações pela necessidade de encontrar um culpado com nome científico.

O que Freud realmente dizia sobre o narcisismo?

Muito antes das redes sociais e do sertanejo universitário, Sigmund Freud já estudava o narcisismo.

Em 1914, no texto Introdução ao Narcisismo, Freud apresentou o conceito como parte da constituição psíquica do sujeito (narcísismo estrutural).

Isso significa que o narcisismo não é, por si só, uma doença.

Todos nós possuímos investimentos narcísicos. Desejamos reconhecimento, valorização, amor e, em determinados momentos, podemos colocar nossas próprias necessidades acima das necessidades dos outros.

O problema não está simplesmente em gostar de si mesmo, mas na maneira como o sujeito se relaciona consigo e com os demais.

É importante diferenciar essa concepção psicanalítica do Transtorno de Personalidade Narcisista, descrito pelos manuais diagnósticos da psiquiatria.

O transtorno envolve padrões persistentes e prejudiciais relacionados à grandiosidade, à necessidade de admiração e às dificuldades de empatia, entre outras características.

E não pode ser identificado a partir de uma única discussão amorosa.

Nem todo comportamento narcísico significa um transtorno de personalidade. E nem toda pessoa difícil é narcisista.

Será que chamar o outro de narcisista também pode ser uma defesa?

Aqui entra uma questão que considero especialmente interessante sob o olhar da psicanálise.

Quando um relacionamento termina, nem sempre é fácil reconhecer tudo aquilo que aconteceu dentro dele.

Existe a dor da rejeição, a frustração das expectativas, o sentimento de abandono e, muitas vezes, a dificuldade de aceitar que alguém simplesmente não deseja mais permanecer naquela relação.

Em algumas situações, atribuir ao outro um diagnóstico pode funcionar como uma tentativa de organizar emocionalmente essa experiência.

Se o outro é inteiramente o problema, talvez eu não precise olhar para minhas próprias escolhas, idealizações ou dificuldades.

Mas cuidado: isso não significa responsabilizar alguém pela violência que sofreu.

Quem sofreu abuso não é culpado pelo comportamento abusivo do parceiro.

O que a psicanálise propõe é algo mais profundo: compreender nossa participação subjetiva nas relações, sem confundir responsabilidade pessoal com culpa pela agressão recebida.

Uma relação pode terminar porque duas pessoas são incompatíveis. Porque uma delas deixou de amar. Porque existiram erros, expectativas irreais ou dificuldades que nunca foram trabalhadas.

Nem todo término precisa ter um vilão e uma vítima.

Às vezes, são apenas duas pessoas que não conseguiram construir uma história juntas.

LEIA TAMBÉM:  Homem não chora. Homem aguenta.

Nem tudo é narcisismo, mas o abuso existe.

Existe um cuidado fundamental nessa discussão.

Criticar a banalização do termo narcisista não significa negar a existência de relacionamentos abusivos.

Há pessoas que realmente vivem situações de manipulação, humilhação, ameaças, controle, isolamento e violência psicológica.

Há parceiros que desqualificam constantemente o outro, restringem sua liberdade e transformam a convivência em um ambiente de medo e insegurança.

Essas situações são graves e precisam ser reconhecidas.

Mas existe algo que muitas pessoas ainda não compreenderam:

Uma pessoa não precisa ser diagnosticada como narcisista para que seu comportamento seja abusivo.

A violência não depende de um laudo psiquiátrico para existir.

Uma traição pode justificar o fim de um relacionamento. Uma mentira pode destruir a confiança. Uma atitude desrespeitosa pode ser motivo suficiente para alguém decidir ir embora.

Não é necessário transformar o outro em portador de um transtorno para legitimar a própria dor.

E, quando tudo passa a ser chamado de narcisismo, corremos o risco de perder a capacidade de diferenciar conflitos cotidianos de padrões graves de violência.

O perigo de transformar a dor em identidade.

Outro aspecto merece atenção.

Algumas pessoas, depois de um relacionamento difícil, passam a organizar toda a própria história em torno da ideia de terem se relacionado com um narcisista.

O sofrimento é real. As marcas emocionais também podem ser.

Mas existe uma diferença entre reconhecer aquilo que aconteceu e permitir que essa experiência defina permanentemente quem somos.

Quando toda nova relação é observada pela lente da desconfiança, o passado pode continuar ocupando um espaço enorme no presente.

Qualquer discordância vira manipulação. Qualquer silêncio parece punição. Qualquer comportamento inesperado desperta a sensação de que tudo vai acontecer novamente.

A proteção, quando se torna permanente vigilância, também pode dificultar novos vínculos.

O trabalho terapêutico não consiste em convencer alguém a confiar cegamente nas pessoas, mas em ajudá-lo a recuperar sua capacidade de perceber, escolher, estabelecer limites e construir relações mais saudáveis.

Precisamos voltar a falar sobre relacionamentos, e não apenas sobre transtornos.

Talvez uma das consequências mais preocupantes dessa popularização seja a maneira como estamos deixando de discutir os problemas reais das relações.

Falamos muito sobre narcisistas, mas pouco sobre imaturidade emocional.

Falamos sobre manipuladores, mas quase nada sobre dificuldade de comunicação.

Falamos sobre relacionamentos tóxicos, mas nem sempre discutimos expectativas irreais, dependência emocional, insegurança, medo da solidão e incapacidade de lidar com frustrações.

É claro que existem relações profundamente prejudiciais. Mas também existem relações que fracassam sem que ninguém tenha um transtorno.

E talvez reconhecer essa possibilidade seja mais difícil do que parece.

Porque aceitar que alguém não soube amar, não quis continuar ou simplesmente não correspondeu às nossas expectativas pode ser doloroso.

Mas faz parte da experiência humana.

Afinal, depois da música, todo mundo virou narcisista?

Não.

A música de Maiara & Maraisa não criou o narcisismo, não transformou pessoas em portadoras de transtornos e tampouco é responsável, sozinha, pela banalização do termo.

Ela encontrou uma sociedade que já buscava explicações rápidas para sofrimentos emocionais complexos.

As redes sociais fizeram o restante.

O problema não está na música, nas cantoras ou nas pessoas que se identificaram com ela.

O problema aparece quando confundimos identificação emocional com diagnóstico.

A canção pode representar uma experiência. Não pode substituir uma avaliação clínica.

E talvez esteja na hora de recuperar uma verdade que parece ter sido esquecida:

Nem todo ex é narcisista. Nem toda relação que termina foi abusiva. E nem toda pessoa que nos machucou possui um transtorno de personalidade.

Às vezes, o outro foi egoísta. Às vezes, foi imaturo. Às vezes, foi desleal. E, em outras situações, houve de fato violência psicológica.

Precisamos aprender a reconhecer essas diferenças.

Porque uma coisa é dar nome ao sofrimento. Outra, completamente diferente, é transformar esse nome em diagnóstico.

No fim das contas, a música pode até ser Narcisista. Mas isso não significa que todo ex mereça receber o mesmo título.

E talvez a pergunta mais importante não seja se o seu ex era narcisista, mas o que aquela relação provocou em você, o que precisa ser elaborado e como seguir em frente sem permitir que o passado determine o futuro.

Fontes e referências

  • Freud, Sigmund (1914). Introdução ao Narcisismo. Obras completas.
  • American Psychiatric Association (2024). What Is Narcissistic Personality Disorder? — www.psychiatry.org
  • Organização Mundial da Saúde (OMS). Violence Against Women — www.who.int
  • Maiara & Maraisa (2023). Narcisista (Ao Vivo). Som Livre.
  • American Psychiatric Association (2022). DSM-5-TR — Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.

Nota editorial

Este artigo apresenta uma reflexão crítica e psicanalítica sobre a popularização do termo narcisismo nas relações afetivas. Não pretende desqualificar experiências de abuso emocional nem minimizar o sofrimento de vítimas de violência psicológica.

O texto também não atribui às cantoras Maiara & Maraisa responsabilidade direta pela utilização inadequada de conceitos clínicos nas redes sociais.

O objetivo é estimular uma compreensão mais cuidadosa das relações humanas, diferenciando comportamentos prejudiciais, conflitos afetivos e transtornos de personalidade.

Léo Oliveira
Sobre o autor

Léo Oliveira

Leo Oliveira é esposo, pai, filho, psicanalista, escritor e editor da coluna Saúde e Bem-Estar do Arena Remix. Atua na área da saúde mental com um olhar voltado à compreensão do comportamento humano, das relações e dos conflitos emocionais presentes no cotidiano. Seu trabalho busca aproximar a Psicanálise da vida real, utilizando uma linguagem acessível, direta e humana, sem excesso de termos técnicos ou respostas prontas. Como escritor e produtor de conteúdo, aborda temas como relacionamentos, família, dependência emocional, narcisismo, infância, ansiedade, autoconhecimento e os padrões que muitas vezes repetimos sem compreender. À frente da coluna Saúde e Bem-Estar, Leonardo propõe uma reflexão sobre como cuidamos de nós mesmos, das nossas relações e da nossa vida emocional, partindo de uma ideia simples: entender o que sentimos também é uma forma de cuidar de nós.

Redes sociais

Deixe uma resposta