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Brasil

Como um filme com Jim Caviezel foi envolvido em escândalo político no Brasil

Por Luiz Gomes • 16 de maio de 2026
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Filme sobre Bolsonaro é lançado como “thriller contra o sistema”, mas produção é atingida por escândalo envolvendo banqueiro preso

SÃO PAULO — O longa-metragem Dark Horse, produção norte-americana estrelada por Jim Caviezel e inspirado na trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, foi anunciado pela indústria cinematográfica como um thriller político centrado na luta de um líder conservador contra um “establishment corrupto”. No entanto, antes mesmo da estreia, prevista para setembro, o projeto foi arrastado para o centro de um escândalo financeiro que reverbera nos bastidores da política brasileira.

O senador Flávio Bolsonaro confirmou nesta quarta-feira ter buscado financiamento privado para o filme junto ao banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, preso em março sob suspeita de envolvimento em um esquema bilionário de fraude investigado pela Polícia Federal.

Segundo o parlamentar, houve um contrato para apoiar a produção cinematográfica, mas sem qualquer relação com as investigações que atingem Vorcaro.

“O que aconteceu foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai”, afirmou Flávio Bolsonaro, em nota. O senador alegou ainda que se reuniu com o banqueiro antes da revelação pública da investigação e negou qualquer troca de favores.

A crise envolvendo o Banco Master tornou-se um dos temas mais sensíveis do cenário político neste ano, mobilizando atores de diferentes campos ideológicos em tentativas de associar adversários ao caso ou se afastar dele. O próprio Flávio Bolsonaro vinha negando vínculos com Vorcaro semanas antes da confirmação do acordo para o filme.

“A esquerda tenta criar narrativas querendo vincular de alguma forma Bolsonaro à questão do Banco Master, mas não dá liga”, disse o senador recentemente, ao rebater críticas.

Flávio também buscou deslocar o foco para uma reunião realizada em dezembro de 2024 entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o banqueiro.

“Não foi Bolsonaro que se reuniu escondidinho com Vorcaro — foi Lula”, declarou.

Intercept aponta promessa de US$ 24 milhões

O caso ganhou nova dimensão após reportagem do portal Intercept Brasil, publicada na quarta-feira, apontar que Vorcaro teria prometido cerca de US$ 24 milhões para financiar Dark Horse, dos quais metade já teria sido paga.

Segundo a publicação, mensagens e áudios atribuídos a Flávio Bolsonaro e ao banqueiro mostram uma relação próxima, com ambos se tratando como “irmão”. Uma fonte ligada à investigação da Polícia Federal confirmou à Reuters que o material citado faz parte dos registros apreendidos durante a operação.

A produtora GOUP Entertainment, responsável pelo longa, negou ter recebido qualquer valor diretamente de Vorcaro ou de empresas ligadas ao banqueiro.

Em nota, a empresa afirmou que o filme possui mais de dez investidores privados e reconheceu que Flávio Bolsonaro atuou na interlocução com financiadores. A produtora, porém, não detalhou o orçamento total do projeto.

O senador afirmou que Vorcaro deixou de cumprir parcelas previstas em contrato, o que teria levado a equipe a buscar novos aportes financeiros.

Filme estreia às vésperas da eleição

Com lançamento previsto para setembro — apenas um mês antes da eleição presidencial — Dark Horse já nasce cercado de forte simbolismo político.

Dirigido por Cyrus Nowrasteh, o longa foi descrito ao setor cinematográfico como “um thriller político tenso sobre poder, mídia e fé sob fogo”.

Após as filmagens, encerradas em dezembro, Jim Caviezel publicou uma mensagem de apoio ao ex-presidente brasileiro nas redes sociais.

“Orem comigo pelo nosso irmão Jair e sua família”, escreveu o ator, em referência a Bolsonaro.

Representantes do ator e do diretor não comentaram o caso.

Mensagens reveladas pelo Intercept também indicam uma possível aproximação entre elenco, direção e o banqueiro investigado. Em uma troca de mensagens de outubro passado, Flávio Bolsonaro teria perguntado a Vorcaro se ele gostaria de jantar com Caviezel e Nowrasteh.

“Será onde? Quer fazer na minha casa?”, respondeu o banqueiro, segundo o conteúdo apreendido.

“Pode ser na sua casa sim!”, retrucou o senador.

A Reuters informou não ter conseguido confirmar se o encontro ocorreu.

Um dos filmes mais caros do país?

Caso os valores divulgados se confirmem, Dark Horse poderá figurar entre as produções cinematográficas mais caras já feitas envolvendo o Brasil.

O compromisso financeiro relatado de US$ 24 milhões supera amplamente orçamentos de obras brasileiras recentes. O filme O Agente Secreto, indicado ao Oscar, teria custado cerca de US$ 5 milhões, enquanto Ainda Estou Aqui, dirigido por Walter Salles, ficou próximo de US$ 9 milhões.

Até mesmo Som da Liberdade, sucesso internacional protagonizado por Caviezel, teve orçamento estimado em US$ 14,5 milhões.

O cineasta Kleber Mendonça Filho, crítico declarado de Bolsonaro, reagiu ao escândalo nas redes sociais com ironia.

“Um grande dia para o Cinema Brasileiro feito na Realidade do Trabalho árduo”, escreveu, ao lembrar que seu thriller Bacurau custou cerca de US$ 1,5 milhão.

Contexto político, financiamento milionário e uma investigação criminal em andamento agora se cruzam no entorno de um filme que tenta transformar a trajetória de Bolsonaro em narrativa épica — mas que, antes da estreia, já enfrenta um roteiro de crise fora das telas.