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Todo mundo sente ansiedade. Mas nem todo mundo tem um transtorno de ansiedade. A diferença pode estar menos na existência da preocupação e mais no espaço que ela passa a ocupar na vida.
Por Leo Oliveira – Psicanalista
Você tem uma entrevista de emprego amanhã.
O coração acelera.
Você pensa nas perguntas que podem fazer.
Imagina que pode dar errado.
Fica um pouco mais inquieto.
A entrevista termina e, algumas horas depois, a ansiedade diminui.
Isso é ansiedade.
E não necessariamente há nada de errado nisso.
A ansiedade faz parte da experiência humana. Ela pode aparecer diante de mudanças, perdas, responsabilidades, incertezas e situações que consideramos importantes.
O problema começa quando a preocupação deixa de ser uma reação a determinada situação e passa a acompanhar a pessoa praticamente o tempo todo.
É aí que precisamos diferenciar sentir ansiedade de ter um transtorno de ansiedade, como o Transtorno de Ansiedade Generalizada, o TAG.
Ansiedade não é necessariamente doença.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, todas as pessoas podem experimentar ansiedade. Ela se torna um transtorno quando o medo ou a preocupação são intensos e excessivos, difíceis de controlar, persistentes e capazes de provocar sofrimento ou interferir significativamente na vida cotidiana.
Ou seja:
sentir ansiedade não significa necessariamente ter TAG.
Você pode estar ansioso porque vai fazer uma prova.
Pode estar preocupado porque alguém que ama está doente.
Pode sentir medo antes de uma mudança importante.
Pode ficar nervoso diante de uma decisão.
Isso faz parte da vida.
A questão é outra:
o que acontece quando a preocupação não vai embora, mesmo quando aparentemente não existe mais um motivo concreto para ela estar ali?
Quando a preocupação começa a comandar a vida.
No TAG, a preocupação não costuma ficar restrita a um único problema.
A pessoa pode se preocupar com dinheiro, trabalho, saúde, família, relacionamento, filhos, futuro, responsabilidades e até com coisas pequenas do cotidiano.
E quando resolve uma preocupação, outra aparece.
“E se acontecer alguma coisa?”
“E se eu estiver esquecendo alguma coisa?”
“E se der errado?”
“E se alguma coisa acontecer com quem eu amo?”
“E se eu não conseguir?”
A mente parece estar permanentemente tentando antecipar o próximo problema.
Segundo o Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos (NIMH), o TAG envolve preocupação excessiva com diferentes acontecimentos ou atividades, presente na maioria dos dias por pelo menos seis meses e difícil de controlar, com impacto no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida.
O corpo também participa.
A ansiedade não acontece apenas na cabeça.
Ela pode aparecer no corpo.
Tensão muscular.
Irritabilidade.
Cansaço.
Dificuldade de concentração.
Inquietação.
Problemas de sono.
Sensação constante de estar “ligado”.
Esses sintomas podem acompanhar o TAG e outros transtornos de ansiedade.
É como se o organismo permanecesse preparado para enfrentar um perigo que nunca chega.
E isso pode ser extremamente desgastante.
Mas existe uma pergunta que a psicanálise pode fazer.
A medicina pode investigar os sintomas.
A psiquiatria pode avaliar o diagnóstico e as possibilidades de tratamento.
A psicoterapia pode trabalhar diferentes aspectos da ansiedade.
E a psicanálise pode acrescentar uma pergunta:
“O que exatamente esse sujeito está tentando controlar quando tenta controlar tudo?”
Porque, muitas vezes, a ansiedade aparece justamente diante daquilo que não podemos controlar.
O futuro.
O desejo do outro.
A possibilidade de perder.
A incerteza.
A falta de garantias.
A vida, por definição, não oferece controle absoluto.
E talvez uma das grandes dificuldades do sujeito ansioso seja justamente tentar transformar a incerteza da existência em alguma coisa previsível.
Só que quanto mais tenta prever tudo, mais possibilidades encontra para temer.
A ansiedade pode estar tentando proteger você.
Existe uma contradição interessante.
A pessoa ansiosa muitas vezes acredita que precisa se preocupar para evitar que algo ruim aconteça.
“Se eu pensar em todas as possibilidades, estarei preparado.”
“Se eu imaginar o pior, não serei pego de surpresa.”
“Se eu controlar tudo, nada dará errado.”
A preocupação, então, pode parecer uma forma de proteção.
Mas proteção também pode se transformar em prisão.
Porque, quando a pessoa precisa antecipar todos os perigos para conseguir se sentir segura, ela nunca consegue realmente descansar.
A preocupação passa a exigir mais preocupação.
Nem tudo é TAG.
Esse ponto é importante.
Vivemos em uma época em que qualquer sofrimento rapidamente recebe um nome.
Mas estar preocupado durante uma fase difícil da vida não significa necessariamente ter um transtorno.
Uma separação, uma crise financeira, uma mudança profissional, um problema familiar ou uma doença na família podem produzir ansiedade intensa.
O diagnóstico exige avaliação profissional e considera duração, intensidade, sintomas associados e impacto na vida da pessoa.
Por isso, uma coluna, um vídeo ou uma pesquisa na internet não substituem uma avaliação clínica.
Talvez a diferença esteja aqui.
A ansiedade pergunta:
“E se alguma coisa der errado?”
O TAG pode transformar essa pergunta em uma espécie de modo permanente de funcionamento:
“E se tudo der errado?”
E, quando isso acontece, a pessoa deixa de viver apenas o que está acontecendo.
Começa a viver também tudo aquilo que poderia acontecer.
O presente fica ocupado pelo futuro.
A experiência real perde espaço para as possibilidades imaginadas.
E talvez essa seja uma das faces mais dolorosas da ansiedade:
a pessoa está fisicamente presente no hoje, mas psiquicamente ocupada tentando sobreviver ao amanhã.
A psicanálise não promete eliminar toda ansiedade.
Até porque viver é também lidar com incertezas, desejos, perdas e escolhas.
Mas pode oferecer um espaço para perguntar:
“Por que preciso ter certeza de tudo para conseguir viver?”
Às vezes, o caminho não é descobrir como controlar o futuro.
É aprender a escutar aquilo que acontece dentro de nós quando percebemos que não podemos controlá-lo.
Nota editorial
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica ou acompanhamento de profissionais de saúde mental. Sentir ansiedade ocasionalmente é uma experiência comum e não significa, por si só, a existência de um transtorno. O TAG é uma condição clínica que deve ser avaliada por profissional qualificado.
Fontes
- Organização Mundial da Saúde (OMS) — Anxiety disorders.
- Ministério da Saúde — Linha de Cuidado: Transtornos de Ansiedade no adulto.
- National Institute of Mental Health (NIMH) — Generalized Anxiety Disorder: What You Need to Know.
- National Institute of Mental Health (NIMH) — critérios gerais e prevalência do TAG.

