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Como redes sociais, conversas privadas e promessas de dinheiro podem colocar crianças e adolescentes em situações de exploração.
Leo Oliveira – Psicanalista
A internet entrou no quarto dos nossos filhos há muito tempo, está no celular que fica sobre a cama, no computador usado para estudar, no aplicativo que parece apenas entretenimento e nas redes sociais onde adolescentes conversam, fazem amizades, seguem influenciadores e descobrem o mundo.
Mas existe uma pergunta que os adultos precisam começar a fazer com mais frequência:
Quem está chegando até os nossos filhos através dessa tela?
A discussão ganhou novos contornos diante de relatos e investigações envolvendo menores abordados em redes sociais e posteriormente direcionados para aplicativos de mensagens, onde podem ser submetidos a propostas de produção ou comercialização de conteúdo sexual.
O problema não está apenas em uma plataforma específica, a questão é compreender como funciona a armadilha.
A armadilha raramente começa parecendo uma armadilha.
Quando imaginamos alguém tentando explorar sexualmente uma criança ou adolescente, talvez pensemos em uma abordagem agressiva, ameaçadora e evidentemente criminosa, na realidade, o aliciamento pode começar de maneira muito mais banal, uma mensagem, um elogio, um convite para conversar, uma promessa de oportunidade, uma pessoa que demonstra interesse, alguém que parece compreender aquilo que o adolescente está vivendo.
A psicanálise e a psicologia, explicam que o aliciamento sexual infantil online pode envolver justamente a construção deliberada de uma relação de confiança para reduzir as barreiras da vítima antes da exploração sexual, é aí que mora um dos maiores perigos.
O criminoso não precisa começar assustando. Pode começar agradando.
Quando o elogio vira ferramenta de manipulação?
A adolescência é uma fase marcada pela construção da identidade.
O jovem quer pertencer, quer ser reconhecido, quer ter autonomia, quer ser desejado, admirado e ouvido.
E essas necessidades humanas podem ser utilizadas contra ele.
O aliciador pode perceber rapidamente aquilo que falta naquela relação entre cuidadores (pais) e adolescentes: atenção, dinheiro, reconhecimento, companhia ou validação.
E começa a oferecer exatamente isso.
É uma dinâmica conhecida na psicologia do comportamento humano: quando alguém identifica uma necessidade e passa a ocupá-la, pode conquistar espaço emocional, no ambiente digital, isso ganha uma característica perigosa:
O adulto pode conhecer muito sobre o adolescente sem que o adolescente saiba praticamente nada sobre quem está do outro lado.
É bom alertar que aliciadores podem buscar informações sobre localização, interesses, experiências e rotina da criança ou adolescente, enquanto tentam convencê-lo a não procurar ajuda de adultos responsáveis.
O dinheiro também pode virar uma porta de entrada.
Existe ainda outro elemento que merece atenção: a promessa de dinheiro fácil, um adolescente pode receber uma proposta aparentemente simples:
“Você poderia ganhar dinheiro com isso.”
O problema é que, quando o assunto envolve sexualização de menores, não estamos diante de uma oportunidade de trabalho, estamos diante de exploração e existe uma diferença fundamental que precisa ser compreendida pelos adultos:
Uma criança ou adolescente não se torna responsável pela exploração porque foi convencido, enganado, pressionado ou até mesmo induzido a participar.
A responsabilidade está em quem explora, legislação brasileira trata como crime a produção, venda, divulgação, aquisição e armazenamento de material pornográfico envolvendo crianças ou adolescentes.
Em agosto de 2026, a Lei nº 15.487/2026 também ampliou as medidas penais relacionadas à violência sexual contra crianças e adolescentes no ambiente digital. A legislação passou a tratar expressamente de condutas digitais e de material produzido com inteligência artificial.
E por que o Telegram aparece nesse caminho?
Aplicativos de mensagens podem oferecer ambientes de comunicação mais privados, grupos e canais, o que pode dificultar a percepção dos adultos sobre aquilo que está acontecendo, isso não significa que determinado aplicativo seja, por si só, responsável pelo crime, significa que a mudança de ambiente pode fazer parte da dinâmica de exploração.
Um contato pode começar em uma rede social mais pública e posteriormente migrar para uma conversa privada ou outro serviço.
A SaferNet vem documentando a existência de canais no Telegram associados à circulação e comercialização de material de abuso sexual infantil. Em levantamento recente, a organização informou ter analisado milhares de endereços da plataforma e identificado canais com indícios de violência sexual contra crianças e adolescentes.
Isso mostra que o problema não é imaginário.
Ele existe.
E precisa ser enfrentado sem transformar vítimas em culpadas.
“Mas meu filho sabe mexer no celular”
Talvez saiba, mas existe uma diferença enorme entre saber usar tecnologia e saber se proteger dentro dela.
Um adolescente pode saber criar uma conta, editar um vídeo, entrar em um grupo, bloquear alguém e utilizar dezenas de aplicativos, isso não significa necessariamente que tenha maturidade emocional para identificar manipulação.
A TIC Kids Online Brasil 2024 mostra justamente como os contatos com desconhecidos fazem parte da experiência digital de uma parcela significativa dos adolescentes. Entre os jovens de 15 a 17 anos, 43% disseram ter tido contato online com alguém que não conheciam pessoalmente.
A questão, portanto, não é simplesmente:
“Meu filho fala com estranhos?”
Talvez a pergunta mais importante seja:
“Meu filho sabe reconhecer quando uma conversa está ultrapassando um limite?”
Alguns sinais merecem atenção.
Não existe um comportamento único que permita identificar uma situação de aliciamento.
Mas alguns sinais podem justificar uma conversa mais cuidadosa:
- alguém mais velho demonstrando interesse excessivo pela vida íntima do adolescente;
- pedidos insistentes de fotos ou vídeos;
- conversas que precisam ser escondidas dos responsáveis;
- presentes, dinheiro ou promessas de ganhos em troca de algo;
- mudança repentina de comportamento depois de determinadas conversas online;
- medo ou ansiedade relacionados ao celular;
- ameaças envolvendo fotos ou vídeos;
- alguém dizendo que “ninguém pode saber” sobre aquela relação;
- pressão para migrar rapidamente para outro aplicativo;
- chantagem ou ameaça de exposição.
Um dos mecanismos mais conhecidos nesse contexto é a sextorsão, quando alguém ameaça divulgar imagens íntimas para conseguir dinheiro, novas imagens ou outras vantagens.
O maior erro dos adultos pode ser fazer o adolescente ter medo de contar.
Imagine um adolescente recebendo uma ameaça, ele sabe que fez algo que os pais provavelmente não aprovariam, tem medo de perder o celular,tem vergonha, tem medo de ser julgado e então o criminoso diz:
“Se você contar, eu vou divulgar tudo.”
Nesse momento, o silêncio pode proteger o agressor.
Por isso, a prevenção não pode ser construída apenas sobre proibição.
A psicologia e a psicanálise recomendam diálogo aberto, orientação e acolhimento, destacando que crianças e adolescentes precisam saber que podem procurar adultos de confiança quando alguma situação na internet ultrapassar seus limites, essas crianças precisam entender que antes de qualquer coisa serão protegidas.
Se seu filho tiver medo de contar alguma coisa para você, quem você acha que ele vai procurar quando estiver em perigo?
Essa pergunta talvez seja mais importante do que qualquer aplicativo de controle parental.
Não é preciso abandonar a internet. É preciso aprender a atravessá-la.
A internet não é o inimigo, ela oferece educação, amizade, informação, criatividade, oportunidades e entretenimento, o problema começa quando confundimos acesso com segurança.
A criança pode estar dentro de casa e, ainda assim, estar em contato com alguém que nenhum adulto conhece, pode estar sentada ao nosso lado no sofá e vivendo uma situação que ninguém percebe, pode estar sorrindo para a tela enquanto alguém do outro lado está construindo, cuidadosamente, uma relação de manipulação, por isso, segurança digital não deveria começar com:
“Me dê seu celular.”
Talvez devesse começar com:
“Se alguém na internet fizer alguma coisa que te deixe desconfortável, você pode me contar. Eu vou primeiro te proteger e depois nós vamos resolver o problema.”
Essa frase pode parecer simples.
Mas para uma criança ou adolescente, ela pode significar a diferença entre permanecer sozinho diante de uma ameaça e conseguir pedir ajuda.
O papel dos pais, da escola e das plataformas.
A proteção não pode ser colocada exclusivamente sobre os ombros das famílias.
O Brasil entrou em uma nova fase regulatória com o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, a Lei nº 15.211/2025, que está em vigor desde 17 de março de 2026.
A legislação estabelece responsabilidades para plataformas e outros serviços digitais, incluindo mecanismos de proteção, aferição de idade, supervisão parental e medidas para impedir o acesso de menores a conteúdos inadequados.
O Ministério da Justiça destaca que a proteção digital é uma responsabilidade compartilhada entre família, sociedade, Estado e plataformas.
Isso é importante porque não podemos pedir que uma criança seja responsável por se defender sozinha de estruturas digitais muito mais complexas do que sua capacidade de compreensão.
E se algo já aconteceu?
A primeira atitude deve ser proteger, não humilhar, não culpe a vítima, não transforme o episódio em interrogatório., primeiro tranquilize e acolhas a criança ou o adolescente, não faça ameaças, preserve as evidências disponíveis e procure ajuda das autoridades competentes.
A SaferNet orienta que, diante de conteúdos envolvendo exploração sexual infantil, sejam preservadas as provas e buscados os canais adequados de denúncia e proteção. Casos podem ser encaminhados às autoridades, incluindo Polícia Civil, Ministério Público e Conselho Tutelar, conforme a situação.
Também é importante não baixar, salvar ou compartilhar novamente material ilegal para tentar “guardar provas”. A orientação deve ser buscar os canais oficiais e seguir as instruções das autoridades.
A pergunta que precisamos fazer.
Talvez a grande discussão não seja:
“Quanto tempo meu filho passa no celular?”
Mas:
“O que está acontecendo enquanto ele está no celular?”
Porque a internet não precisa invadir uma casa para colocar alguém em risco, as vezes, basta uma mensagem, um elogio, uma promessa, uma conversa secreta, e quando os adultos percebem, a armadilha já foi construída.
Por isso, mais do que vigiar telas, precisamos construir relações nas quais crianças e adolescentes saibam que podem pedir ajuda antes que o medo transforme o silêncio em prisão.
A tecnologia mudou.
Os mecanismos de manipulação também.
Mas uma coisa continua sendo essencial:
Uma criança protegida não é aquela que nunca encontra o perigo. É aquela que sabe que não precisa enfrentá-lo sozinha.
Nota editorial:
Esta matéria aborda exploração sexual de crianças e adolescentes no ambiente digital. O objetivo é informar e orientar famílias, educadores e responsáveis, sem expor vítimas, reproduzir conteúdos ilegais ou responsabilizar crianças e adolescentes pelas situações de exploração.
A discussão sobre segurança digital precisa considerar que crianças e adolescentes possuem direito à proteção, à privacidade e ao desenvolvimento saudável, mas também precisam de orientação para compreender os riscos presentes nos ambientes digitais.
Se houver suspeita de aliciamento, exploração sexual, ameaça ou sextorsão, procure as autoridades competentes e canais especializados de denúncia e proteção.
Fontes:
- SaferNet Brasil — informações sobre aliciamento sexual infantil online, sextorsão e prevenção.
- TIC Kids Online Brasil 2024 — Cetic.br/NIC.br — dados sobre contatos online com desconhecidos entre crianças e adolescentes brasileiros.
- Estatuto da Criança e do Adolescente / Lei nº 8.069/1990, com alterações legislativas recentes.
- Lei nº 15.211/2025 — Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital).
- Lei nº 15.487/2026 — medidas de combate à violência sexual contra crianças e adolescentes, inclusive no ambiente digital.
- Polícia Federal — operações recentes relacionadas a crimes de abuso e exploração sexual infantojuvenil na internet.

