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Por Leo Oliveira – Psicanalista
Por que aquilo que ontem provocava revolta hoje pode ser recebido com silêncio? A psicanálise ajuda a compreender como a identificação política pode interferir até mesmo na maneira como defendemos nossos valores.
Existe algo curioso no comportamento humano: nem sempre nos indignamos com os acontecimentos. Muitas vezes, nos indignamos com quem está envolvido neles, uma tragédia ambiental pode despertar manifestações, campanhas, discursos emocionados e cobranças públicas. Mas, quando o contexto político muda, também pode mudar a intensidade das reações.
O problema começa quando a defesa de uma causa parece depender mais da identidade de quem governa do que da gravidade dos acontecimentos, afinal estamos defendendo princípios ou defendendo o grupo ao qual pertencemos?
Essa pergunta vai muito além da política ela alcança um dos aspectos mais delicados do funcionamento humano: nossa capacidade de justificar aquilo que condenaríamos se fosse praticado por outra pessoa.
Quando a identificação se torna mais importante que a realidade.
A psicanálise oferece uma contribuição importante para compreendermos esse comportamento.
Sigmund Freud, em sua obra Psicologia das Massas e Análise do Eu, publicada em 1921, investigou como os indivíduos estabelecem identificações com líderes e grupos, influenciando suas relações e seus julgamentos, quando alguém se identifica intensamente com determinado grupo, uma crítica dirigida a ele pode ser sentida quase como uma crítica pessoal, é nesse ponto que a reflexão pode dar lugar à defesa automática.
Aquilo que o adversário faz é considerado imperdoável. Quando alguém do próprio grupo apresenta comportamento semelhante, surgem explicações, justificativas e circunstâncias atenuantes.
Não significa necessariamente que a pessoa esteja mentindo de forma consciente. Em muitos casos, ela realmente acredita que está sendo justa.
A psicologia social também estuda esse fenômeno por meio dos vieses de julgamento e do raciocínio motivado: nossa tendência de interpretar informações de maneira favorável às ideias e aos grupos com os quais nos identificamos.
Em outras palavras, às vezes não procuramos descobrir se estamos certos. Procuramos argumentos para continuar acreditando que estamos.
A floresta não conhece esquerda nem direita.
A recente discussão sobre o posicionamento de artistas e celebridades diante das queimadas na Amazônia apresenta uma oportunidade para refletirmos sobre essa questão, em 2019 os incêndios na região mobilizaram celebridades nacionais e internacionais, gerando campanhas, manifestações e cobranças direcionadas às autoridades.
Mas seria incorreto afirmar que todo o engajamento artístico desapareceu nos anos seguintes. Em 2024, por exemplo, a campanha Soul Amazônia contou com a participação de artistas e personalidades em ações de preservação.
O que merece reflexão é a coerência das cobranças, especialmente quando alguém transforma uma causa ambiental em compromisso público, os próprios dados demonstram a importância de olhar para a realidade, e não apenas para as preferências políticas.
Segundo o MapBiomas, aproximadamente 30 milhões de hectares foram queimados no Brasil em 2024. Em 2025, esse número caiu para 12,7 milhões de hectares. O INPE também registrou redução de 12,07% no desmatamento da Amazônia Legal em 2025, na comparação com 2024.
São resultados diferentes que precisam ser reconhecidos, sem ignorar os problemas que permanecem.
Em outubro de 2026, a fumaça das queimadas voltou a prejudicar a qualidade do ar em Manaus e provocou a suspensão de atividades escolares.
A realidade ambiental não pode ser reduzida a uma disputa entre torcidas.
O fogo não pergunta em quem uma família votou antes de comprometer sua saúde. A fumaça não distingue ideologias. E uma comunidade atingida não sofre menos porque o governante pertence ao partido de nossa preferência.
A moral que muda conforme a conveniência.
Existe uma diferença importante entre mudar de opinião e mudar de princípios, mudar de opinião pode representar amadurecimento, aprendizado e capacidade de reconhecer novas informações, mudar os critérios morais conforme a pessoa envolvida, porém, merece reflexão.
Imagine alguém que condena uma mentira quando ela parte de um adversário, mas a relativiza quando vem de um amigo. Ou alguém que exige transparência dos outros, mas considera desnecessária a mesma exigência dentro do próprio grupo, agora amplie esse comportamento para milhões de pessoas conectadas pelas redes sociais.
Teremos um ambiente em que a indignação pode deixar de funcionar como expressão de valores e passar a funcionar como demonstração de pertencimento.
É como se algumas pessoas precisassem provar constantemente de que lado estão, mesmo que isso exigisse silenciar diante daquilo que anteriormente condenavam.
E aqui surge uma questão psicanalítica importante: quanto de nossas convicções realmente nos pertence e quanto delas é sustentado pelo medo de desagradar ao grupo?
Nem todo silêncio, entretanto, representa hipocrisia. Pessoas podem contribuir discretamente, mudar prioridades ou simplesmente não conseguir se manifestar sobre todas as questões. Não podemos deduzir suas motivações apenas pela frequência de publicações.
Ainda assim, é legítimo questionar a coerência entre um compromisso publicamente assumido e as atitudes que o acompanham.
Quando a necessidade de pertencer enfraquece o pensamento crítico.
O pertencimento é uma necessidade humana importante. Precisamos de vínculos, reconhecimento e identificação.
O problema surge quando, para continuar pertencendo, sentimos que precisamos abandonar a capacidade de questionar.
Em situações de intensa polarização, discordar do próprio grupo pode provocar desconforto, rejeição e até rompimentos.
Então, em vez de elaborar uma opinião própria, algumas pessoas simplesmente reproduzem a opinião coletiva.
Isso acontece na política, na religião, nas famílias, nos relacionamentos e até nos ambientes profissionais.
A pessoa deixa de perguntar: “Isso está certo?”
E passa a perguntar, muitas vezes sem perceber: “O que as pessoas do meu grupo esperam que eu defenda?”
A diferença parece pequena, mas suas consequências podem ser enormes.
Quando pertencer se torna mais importante do que pensar, a consciência individual corre o risco de se transformar em uma extensão da torcida.
A coerência começa quando conseguimos contrariar os nossos.
Não há problema em admirar um artista, apoiar um governo, defender uma ideologia ou participar de um movimento.
O problema aparece quando essa identificação nos impede de reconhecer erros, contradições e responsabilidades.
Uma pessoa não precisa abandonar suas convicções políticas para cobrar coerência de quem apoia.
Pelo contrário. Ser capaz de questionar aqueles com quem concordamos pode demonstrar que nossos princípios são maiores do que nossas preferências.
A verdadeira defesa do meio ambiente não pode depender da popularidade de um presidente. A defesa da dignidade humana não pode mudar conforme a identidade de quem sofre. E aquilo que consideramos injusto não deveria se tornar aceitável apenas porque beneficia o nosso lado.
Talvez um dos maiores desafios da maturidade emocional seja justamente este: conseguir olhar para aquilo que amamos, admiramos ou defendemos e reconhecer que também pode estar errado.
Porque apontar as contradições dos adversários é relativamente fácil.
Difícil é reconhecer as nossas sem precisar inventar uma desculpa para continuar nos sentindo moralmente superiores.
E fica a pergunta:
Você realmente defende aquilo em que acredita ou apenas defende aquilo que o seu grupo permite que você acredite?
Fontes e referências
- Sigmund Freud (1921). Psicologia das Massas e Análise do Eu. Obra de referência sobre identificação e processos grupais.
- Ditto, P. H. e colaboradores (2025). Partisan Bias in Political Judgment. Annual Review of Psychology. Revisão sobre favoritismo grupal e vieses no julgamento político.
- MapBiomas (2026). Relatório Anual do Fogo 2025. Dados de áreas queimadas no Brasil.
- INPE (2026). Taxa consolidada de desmatamento da Amazônia Legal em 2025.
- SOS Amazônia. Campanha Soul Amazônia. Registro de mobilização artística ambiental.
- Portal Arena Remix (2026). O Silêncio da Cultura: Onde Estão as Vozes Artísticas Diante do Fogo na Amazônia?. Artigo que motivou esta reflexão.
Nota editorial
Este artigo apresenta uma reflexão psicanalítica e social sobre a indignação seletiva, os processos de identificação coletiva e a coerência entre valores e atitudes. Não pretende atribuir diagnósticos ou motivações psicológicas a artistas, autoridades ou grupos políticos específicos. As interpretações apresentadas são de responsabilidade do autor e não representam necessariamente o posicionamento institucional do Portal Arena Remix.

