Saúde e bem estar

Quando a ausência do pai vira dependência emocional:

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Por que algumas pessoas aceitam tão pouco em um relacionamento, mesmo desejando tanto ser amadas?

Por Leo Oliveira | Psicanalista

Há pessoas que passam a vida tentando conquistar um amor que parece nunca chegar por completo. Aceitam migalhas de atenção, desculpam ausências, suportam rejeições e permanecem em relacionamentos que lhes causam sofrimento.

E, quando finalmente conseguem sair, muitas vezes acabam entrando em outra relação com características semelhantes.

Mas por que isso acontece?

Será que estamos falando apenas de uma dificuldade de terminar um relacionamento? Ou será que, em alguns casos, existe uma criança emocionalmente ferida tentando encontrar, no amor adulto, aquilo que não recebeu durante a infância?

Às vezes, o medo de perder alguém não começa no relacionamento atual. Ele pode ter começado muito antes, quando alguém importante não estava lá.

O pai que faltou, mesmo estando presente.

Quando falamos em ausência paterna, é comum imaginarmos uma criança que cresceu sem conhecer o pai ou que foi abandonada por ele.

Mas existe uma ausência que pode ser igualmente dolorosa: a emocional.

É o pai que mora na mesma casa, mas não participa. Que oferece sustento financeiro, mas raramente demonstra afeto. Que cobra resultados, mas não reconhece conquistas. Que está presente nas fotografias de família, mas ausente nas lembranças de carinho.

Para uma criança, ser amada não significa apenas ouvir que é importante. Significa sentir que existe alguém disponível para acolhê-la, escutá-la e protegê-la.

Quando essa experiência é marcada por rejeição, imprevisibilidade ou distanciamento, podem surgir dúvidas profundas sobre o próprio valor.

A criança pode começar a se perguntar, mesmo sem conseguir colocar isso em palavras:

Por que meu pai não quer ficar comigo?

O que existe de errado comigo?

Será que preciso ser melhor para merecer sua atenção?

Essas perguntas nem sempre desaparecem quando a infância termina.

Em algumas histórias, elas apenas mudam de endereço.

Quando o companheiro passa a ocupar o lugar de uma falta antiga.

Imagine uma mulher que cresceu tentando conquistar a atenção do pai. Ele raramente participava de sua vida, não demonstrava interesse por suas conquistas e parecia emocionalmente distante.

Anos depois, ela conhece alguém que também oferece carinho de maneira irregular.

Em determinados momentos, ele é amoroso. Em outros, desaparece emocionalmente, ignora suas necessidades ou demonstra indiferença.

Ela sofre, reclama e promete ir embora. Mas, quando ele oferece um pequeno gesto de atenção, toda a esperança retorna.

Por quê?

Uma possibilidade, sob a perspectiva psicanalítica, é que essa relação tenha despertado algo de uma experiência afetiva anterior.

Ela não está necessariamente procurando o próprio pai naquele homem, mas pode estar repetindo uma tentativa conhecida: conquistar o amor de alguém emocionalmente indisponível.

Como se, finalmente conseguindo ser escolhida por essa pessoa, pudesse também reparar uma rejeição antiga.

O problema é que nenhum companheiro consegue reescrever sozinho uma infância que não viveu.

É importante compreender que essa dinâmica não acontece apenas com mulheres. Homens também podem experimentar inseguranças afetivas relacionadas à ausência paterna ou de outras figuras importantes.

A dependência emocional começa quando perder o outro parece significar perder a si mesmo.

Amar alguém envolve criar vínculos, sentir saudade, desejar proximidade e compartilhar a vida.

Nada disso, isoladamente, representa dependência emocional.

A dificuldade aparece quando a relação passa a ser vivida como a única fonte possível de segurança, identidade e valor pessoal.

A pessoa pode desenvolver um medo tão intenso de ser abandonada que começa a abandonar a si mesma para evitar a separação.

Deixa de expressar suas opiniões para não provocar conflitos. Aceita comportamentos que a machucam. Afasta-se dos amigos. Abre mão de projetos pessoais.

Tudo para garantir que o outro permaneça.

E aqui encontramos uma contradição dolorosa:

Na tentativa de não ser abandonada novamente, a pessoa acaba abandonando a si própria.

Aquilo que parece uma grande demonstração de amor pode, em alguns casos, estar profundamente relacionado ao medo.

Medo de ficar só. Medo de não ser suficiente. Medo de descobrir que, mais uma vez, alguém importante pode escolher ir embora.

O que a psicanálise nos ajuda a compreender?

Sigmund Freud discutiu a repetição de experiências difíceis, inclusive aquelas que produzem sofrimento, em sua reflexão sobre a compulsão à repetição.

Essa perspectiva oferece um caminho para pensar por que determinadas pessoas parecem reviver conflitos afetivos semelhantes em diferentes relacionamentos.

Não porque desejem conscientemente sofrer, mas porque experiências antigas podem continuar influenciando a maneira como vivem seus vínculos.

Já John Bowlby, ao desenvolver a teoria do apego, destacou a importância das primeiras relações de cuidado para a construção da segurança emocional.

Pesquisas contemporâneas também encontram associações entre experiências familiares, insegurança de apego e dificuldades nas relações amorosas adultas.

Uma revisão sistemática publicada na revista Family Process identificou relações entre a qualidade dos vínculos entre pais e filhos e o funcionamento posterior dos relacionamentos amorosos.

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Outra revisão com metanálise, publicada em 2025, encontrou associação entre apego ansioso e padrões de envolvimento amoroso excessivamente dependentes.

Entretanto, precisamos evitar uma interpretação simplista.

Nem toda pessoa que cresceu sem pai desenvolverá dependência emocional. E nem toda dependência emocional nasce da ausência paterna.

A presença de uma mãe acolhedora, avós, familiares e outras figuras de referência pode contribuir para o desenvolvimento de vínculos seguros. Experiências posteriores também podem transformar a maneira de se relacionar.

Além disso, dificuldades afetivas podem ter diferentes origens, incluindo experiências de violência, rejeição, perdas e relações adultas marcadas pela instabilidade.

A infância influencia nossa história, mas não determina obrigatoriamente nosso destino.

A armadilha de tentar merecer amor.

Talvez uma das consequências mais dolorosas de algumas experiências de rejeição na infância seja a construção da ideia de que o amor precisa ser conquistado a qualquer custo.

A pessoa passa a acreditar que, se for suficientemente compreensiva, bonita, disponível, paciente ou dedicada, finalmente será amada como deseja.

E então transforma o relacionamento em uma espécie de prova permanente.

Precisa demonstrar que merece ficar.

Precisa provar que é especial.

Precisa convencer o outro de que vale a pena ser escolhida.

Mas existe algo que precisamos compreender:

Amor não deveria ser uma competição em que alguém precisa se destruir para conquistar o primeiro lugar na vida do outro.

Uma relação saudável exige reciprocidade, respeito e responsabilidade afetiva.

Isso não significa ausência de conflitos ou a obrigação de satisfazer todas as necessidades do companheiro.

Significa que ninguém deveria precisar implorar continuamente por um mínimo de consideração.

Como começar a romper esse ciclo?

O primeiro movimento não é necessariamente encontrar outra pessoa. É começar a compreender a própria relação com o afeto.

Por que a indiferença de alguém desperta tanto desespero?

Por que receber pouca atenção parece melhor do que não receber nenhuma?

Por que terminar uma relação prejudicial pode produzir a sensação de que a própria vida perdeu o sentido?

Essas perguntas não devem servir para culpar quem sofre, mas para abrir possibilidades de compreensão.

Na experiência psicanalítica, investigar a própria história pode ajudar a reconhecer necessidades antigas, elaborar perdas e distinguir aquilo que pertence ao relacionamento atual daquilo que foi vivido em outras relações.

Também é importante reconstruir vínculos sociais, fortalecer a autonomia e aprender que estar sozinho não significa, necessariamente, estar abandonado.

E talvez exista uma descoberta especialmente importante nesse processo:

Não é preciso deixar de desejar amor para conquistar autonomia emocional.

É possível amar profundamente alguém sem fazer dessa pessoa a única razão da própria existência.

Considerações finais: o amor que faltou não precisa comandar o amor que virá.

Não podemos voltar à infância para exigir que nossos pais sejam aquilo que não conseguiram ser.

Não podemos recuperar todos os aniversários em que estiveram ausentes, os abraços que não recebemos ou as palavras que gostaríamos de ter ouvido.

Também não precisamos fingir que essas experiências não tiveram importância.

Mas podemos aprender a reconhecer como elas continuam presentes em nossas escolhas.

Talvez aquela criança que esperava pelo pai ainda exista emocionalmente dentro de um adulto que teme ser deixado.

Talvez ela ainda procure aprovação, segurança e pertencimento.

Entretanto, o caminho para construir relações mais saudáveis não está em encontrar alguém que assuma a responsabilidade de preencher todas essas ausências.

Está, também, em compreender que nossa história merece ser acolhida, mas não precisa ser repetida indefinidamente.

Porque uma das experiências mais libertadoras da vida adulta é descobrir que podemos desejar ser escolhidos sem aceitar qualquer coisa para não sermos deixados.

E fica uma reflexão:

Você ama a pessoa que está ao seu lado ou, em alguns momentos, está tentando conseguir dela o amor que alguém lhe negou no passado?

Fontes e referências

  • FREUD, Sigmund. Além do Princípio do Prazer (1920). Obra de referência para a discussão psicanalítica da compulsão à repetição.
  • BOWLBY, John. Attachment and Loss, vol. 1: Attachment (1969). Obra fundamental da teoria do apego.
  • RIVER, L. M. e colaboradores. Parent–Child Relationship Quality in the Family of Origin and Later Romantic Relationship Functioning: A Systematic Review. Family Process, 2022. Acessar estudo.
  • CAVALLI, R. G. e colaboradores. Conceptualizing Love Addiction within the Attachment Perspective: A Systematic Review and Meta-analysis. Journal of Behavioral Addictions, 2025. Acessar estudo.
  • OVERALL, N. C.; PIETROMONACO, P. R.; SIMPSON, J. A. Buffering and Spillover of Adult Attachment Insecurity in Couple and Family Relationships. Nature Reviews Psychology, 2022. Acessar estudo.

Nota editorial

Este artigo integra a coluna de Leo Oliveira, psicanalista, no portal Arena Remix. O conteúdo apresenta reflexões sobre vínculos afetivos, experiências familiares e dependência emocional, articulando conceitos psicanalíticos e pesquisas científicas. As interpretações clínicas apresentadas não estabelecem relações automáticas de causa e efeito e não substituem avaliação ou acompanhamento profissional individualizado.

Léo Oliveira
Sobre o autor

Léo Oliveira

Leo Oliveira é esposo, pai, filho, psicanalista, escritor e editor da coluna Saúde e Bem-Estar do Arena Remix. Atua na área da saúde mental com um olhar voltado à compreensão do comportamento humano, das relações e dos conflitos emocionais presentes no cotidiano. Seu trabalho busca aproximar a Psicanálise da vida real, utilizando uma linguagem acessível, direta e humana, sem excesso de termos técnicos ou respostas prontas. Como escritor e produtor de conteúdo, aborda temas como relacionamentos, família, dependência emocional, narcisismo, infância, ansiedade, autoconhecimento e os padrões que muitas vezes repetimos sem compreender. À frente da coluna Saúde e Bem-Estar, Leonardo propõe uma reflexão sobre como cuidamos de nós mesmos, das nossas relações e da nossa vida emocional, partindo de uma ideia simples: entender o que sentimos também é uma forma de cuidar de nós.

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