Brasil avança no desenvolvimento de foguete nacional para lançar pequenos satélites em órbita baixa até 2027
Batizado de Microlançador Brasileiro (MLBR), o projeto reúne empresas privadas de alta tecnologia e conta com R$ 189 milhões da Finep para construção do primeiro protótipo, com lançamento previsto para 2027
De acordo com reportagem publicada pela Revista Pesquisa FAPESP (VASCONCELOS, Yuri. Brasil desenvolve foguete para colocar pequenos satélites na órbita terrestre. Revista Pesquisa FAPESP, São Paulo, 2026. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/brasil-desenvolve-foguete-para-colocar-pequenos-satelites-na-orbita-terrestre. Acesso em: 8 abr. 2026), um grupo de empresas privadas de alta tecnologia concentradas no polo aeroespacial de São José dos Campos (SP) lidera, desde 2024, a construção de um veículo lançador de pequeno porte capaz de colocar satélites em órbita terrestre.
O projeto e seus protagonistas
O projeto do Microlançador Brasileiro (MLBR) representa a retomada de uma antiga ambição do país no setor espacial: desenvolver e operar um foguete inteiramente projetado em território nacional. Com 12 metros de altura, o veículo foi concebido para colocar satélites de até 40 quilos (kg) em órbita baixa, a 450 quilômetros (km) de altitude. O voo do primeiro protótipo está previsto para 2027, prazo que especialistas ouvidos pela reportagem classificam como otimista diante do volume de trabalho ainda a ser concluído.
À frente da iniciativa estão as empresas Cenic Engenharia, PlasmaHub e Delsis Aerospace, todas sediadas em São José dos Campos (SP), além da Etsys, de Jacareí (SP), e da Concert Space, de Belo Horizonte. O engenheiro mecânico Ralph Correa, diretor da Cenic Engenharia, é um dos líderes do projeto e tem acompanhado de perto cada etapa do desenvolvimento do MLBR.
O projeto conta com o apoio da Agência Espacial Brasileira (AEB) e recebeu R$ 189 milhões da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), órgão vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), valor correspondente ao necessário para a construção do primeiro protótipo.

Soberania tecnológica e mercado global em expansão
Para o engenheiro mecânico Fábio Rezende dos Santos, coordenador de veículos lançadores da AEB, o desenvolvimento do MLBR representa um passo decisivo para que o Brasil consolide sua capacidade de acesso independente ao espaço, especialmente em um momento em que o mercado global de microssatélites cresce de forma acelerada, abrindo oportunidades estratégicas e comerciais para países que dominam essa tecnologia.
A perspectiva de lançar satélites brasileiros a partir do próprio território nacional é apontada por especialistas como um diferencial estratégico em um cenário geopolítico cada vez mais complexo.
O engenheiro mecânico Luís Eduardo Loures, chefe da Divisão de Engenharia Aeroespacial do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos, reconhece que o MLBR é um projeto robusto e com potencial relevante para o país, mas destaca que o volume de trabalho ainda necessário para que o primeiro voo ocorra em 2027 é considerável.
Segundo ele, alcançar uma independência estratégica no acesso ao espaço é especialmente necessário em um mundo onde qualquer nação pode, de um momento para o outro, ter esse acesso negado por terceiros.
Etapas técnicas já superadas e testes em andamento
O desenvolvimento do MLBR passou por fases críticas ao longo de 2025 e início de 2026. Em maio de 2025, o projeto concluiu a chamada critical design review (CDR), etapa obrigatória na construção de artefatos espaciais que, seguindo padrões internacionais, consiste na aprovação formal de todos os aspectos de engenharia do foguete, avaliando se o sistema projetado é seguro e tecnicamente viável.
No fim de janeiro de 2026, o consórcio realizou com sucesso o ensaio de resistência do primeiro dos três estágios do foguete — nome dado às seções independentes do lançador, cada uma com seu próprio motor e combustível. O teste, denominado ensaio hidrostático, consistiu no preenchimento do motor com água e na aplicação gradual de pressão, enquanto um pistão fixado na base da peça reproduzia as cargas típicas de um voo real, permitindo avaliar o comportamento estrutural do sistema de forma segura e controlada, antes de qualquer contato com propelente.
Os motores do MLBR utilizarão propelente sólido, tecnologia cujo ciclo completo de fabricação o Brasil já domina. Ainda em 2026, o consórcio planeja realizar os chamados ensaios de tiro em banco — testes com propelente real — nos motores do segundo e do terceiro estágios, que serão testados antes do primeiro por carregarem menor quantidade de combustível. Nesse tipo de ensaio, o motor é fixado a um bloco de concreto e sensores coletam dados sobre seu comportamento durante o disparo.
O sistema de navegação inercial (SNI), responsável por orientar o foguete durante o lançamento e garantir que os satélites sejam inseridos em órbita com precisão, também foi avaliado pelo consórcio e, operando integrado ao Sistema Global de Navegação por Satélites (GNSS), apresentou desempenho adequado durante o ensaio.
O peso da história: do acidente de Alcântara ao recomeço
A construção do MLBR ocorre a mais de duas décadas após o trágico acidente que paralisou o programa espacial brasileiro. Em 22 de agosto de 2003, a explosão do terceiro protótipo do Veículo Lançador de Satélites (VLS) no Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão, três dias antes de seu lançamento, matou 21 engenheiros e técnicos e levou ao abandono do projeto de foguete nacional, que era liderado pelo Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), vinculado ao Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) da Força Aérea Brasileira (FAB).
Os dois protótipos anteriores do VLS, lançados de Alcântara em 1997 e 1999, também não haviam sido bem-sucedidos.
Paralelamente ao MLBR, o país mantém outra iniciativa em andamento: O Veículo Lançador de Microssatélites (VLM-1), desenvolvido pelo IAE em parceria com o Centro Aeroespacial Alemão (DLR). Iniciado em 2010, o projeto sofreu interrupção em razão de problemas financeiros da Avibras, empresa responsável pelo motor S50 que equipará dois de seus três estágios.
A FAB informou que os sistemas do VLM-1 têm previsão para estar prontos para voo em julho de 2027, mas ressaltou que o cronograma definitivo depende diretamente da velocidade de retomada das atividades da Avibras.

